D. Maria I de Portugal

D. Maria I de Portugal foi a rainha a governar o Reino de Portugal entre os anos de 1777 e de 1816. Sua degenerativa doença mental angariou-lhe o apelido de “rainha louca”.

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D. Maria I de Portugal foi a primeira mulher a governar o Reino de Portugal e Algarves e a posterior formação do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Apesar de exercer o cargo de rainha entre os anos de 1777 e de 1816, ela sofria de graves distúrbios mentais, que a fizeram ficar conhecida como “Maria, a Louca” ou simplesmente “rainha louca” e que a afastaram do cenário político em 1792, deixando o governo sob os cuidados de seu filho D. João, mais tarde príncipe regente (1799). Ela faleceu no Brasil em 20 de março de 1816, aos 81 anos, deixando a Coroa para o filho, agora D. João VI.

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Tópicos deste artigo

Resumo sobre D. Maria I de Portugal

  • D. Maria I de Portugal foi primeira rainha a governar o Reino de Portugal e Algarves, entre 1777 e 1816.
  • Seus primeiros anos de governo foram voltados à manutenção da paz e ao investimento na cultura, nas ciências e nas causas sociais.
  • D. Maria I casou-se com o próprio tio por motivos de estabilidade política, com quem teve seis filhos.
  • O desgosto da rainha por Marquês de Pombal resultou no período da “viradeira”, em que reverteu as políticas anticlericais decretadas pelo ex-secretário português.
  • As sucessivas perdas de entes próximos causaram na rainha uma profunda depressão, motivo que se julga ter acelerado a deterioração de sua saúde mental.
  • No ano de 1792, D. Maria I tornou-se incapaz de governar. O filho, D. João, assumiu formalmente o cargo de príncipe regente em 1799.
  • Como fiel devota ao catolicismo, as alucinações da rainha possuíam fundamentos religiosos. Suas alucinações envolvendo o diabo e o inferno passaram a perturbá-la com cada vez maior frequência, rendendo-lhe o apelido de “rainha louca”.
  • Já acometida pela doença, D. Maria I migrou para o Brasil junto da família real em decorrência das invasões de Napoleão Bonaparte sobre a Europa.
  • Nos últimos anos de vida, a rainha foi abrigada no Convento do Carmo, onde as alucinações chegaram a níveis angustiantes tanto para ela quanto para seus cuidadores.
  • Apesar da deplorável condição de saúde, D. Maria I foi nomeada rainha do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, fundado em 1815. Ela faleceu alguns meses depois, deixando a Coroa para o filho, agora D. João VI.
Pintura retratando D. Maria I de Portugal, também conhecida como “rainha louca”.
D. Maria I foi a primeira mulher a governar o Reino de Portugal e Algarves.

Quem foi D. Maria I?

D. Maria I foi a primeira mulher a governar o Reino de Portugal e Algarves. Apesar de formalmente exercer o cargo de rainha entre os anos de 1777 e de 1816, ela não exerceu o cargo completamente devido a uma doença mental degenerativa, o que lhe rendeu o apelido de “Maria, a Louca”. Essa incapacidade resultou na nomeação de seu filho, D. João, para exercer o cargo de príncipe regente a partir de 1799. No entanto, ela assumiu, formalmente, o título de rainha do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves em 1815.

→ Nascimento de D. Maria I

D. Maria I, ou Maria Francisca Isabel Josefa Antónia Gertrudes Rita Joana de Bragança, nasceu em Lisboa, Portugal, em 17 de dezembro de 1734. Primeira filha do rei português D. José I e da rainha consorte D. Mariana Vitória da Espanha, Maria foi educada como princesa aos padrões europeus da realeza, desenvolvendo particular sensibilidade à música e total devoção à religião católica. Teve três irmãs e nenhum irmão do sexo masculino, o que significava que, como primogênita, foi preparada ainda jovem para potencialmente assumir a Coroa de Portugal.

→ Casamento de D. Maria I de Portugal

Rainha D. Maria I ao lado do tio e esposo, D. Pedro III.
Rainha D. Maria I ao lado do tio e esposo, D. Pedro III.

Maria de Bragança casou-se em 1760, aos 25 anos, com o próprio tio, D. Pedro III de Portugal, de 43. O motivo da união familiar foi política, já que a família real portuguesa procurava manter a estabilidade dinástica da Casa de Bragança, que havia se tornado uma potência marítima europeia principalmente em decorrência das colonizações.

→ Filhos de D. Maria I

D. Maria I e D. Pedro III tiveram três filhos que sobreviveram até a fase adulta (de um total de seis):

  • D. José (1761-1788), que deveria ser o sucessor ao trono por direito;
  • D. João (1767-1826), que se tornaria D. João VI e herdeiro da Coroa de Portugal;
  • D. Mariana Vitória (1768-1788), que se aliou a Gabriel de Bourbon por meio do casamento.

O primogênito do casal real, por sua vez, faleceu aos 27 anos, em decorrência da varíola, uma fatalidade cuja vacina seria descoberta oito anos mais tarde, em 1796. Dessa forma, por direito, D. João assumiu o cargo de príncipe regente oficialmente no ano de 1799, frente à incapacidade de Maria I em governar por conta da degeneração de sua saúde mental.

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Reinado de D. Maria I

Como herdeira mais velha entre quatro irmãs da família real, D. Maria I tornou-se rainha de Portugal e Algarves em 24 de fevereiro de 1777, aos 42 anos de idade, após a morte de seu pai, D. José I.

Pintura retratando o momento em que D. Maria I é aclamada rainha de Portugal e Algarves em 24 de fevereiro de 1777
D. Maria I é aclamada rainha de Portugal e Algarves em 24 de fevereiro de 1777.

Dizia-se que os primeiros anos de governos sob os cuidados de D. Maria I eram de manutenção pela paz e pela caridade, apesar de ter imediatamente demitido e exilado o Marquês de Pombal (Sebastião José de Carvalho e Melo) em decorrência do “Processo dos Távoras”, um episódio que ficou reconhecido pelos portugueses por ocasionar a brutal execução na fogueira, em praça pública, de famílias perseguidas pelo marquês após um atentado contra D. José, em 1758.

O desgosto pelo marquês era tanto que reverteu as políticas pombalinas que diminuíam a influência da Igreja, o que rendeu ao governo inicial de D. Maria I o apelido de “viradeira”. Nessa fase, além de revogar os poderes da Igreja Católica, a rainha anistiou presos políticos e financiou instituições de caridade, de assistência social e de desenvolvimento científico (principalmente por meio da fundação da Lotaria Nacional). Entre essas instituições, podem ser citadas a Academia Real de Ciências de Lisboa, a Real Biblioteca Pública da Corte, a Casa Pia de Lisboa e a Academia Real de Guardas-Marinhas (com o objetivo de formar representantes de alta classe social em oficiais acadêmicos da Armada Portuguesa).

Em 1789, a rainha tomou conhecimento da insurreição brasileira conhecida como Inconfidência Mineira, liderada por Joaquim José da Silva Xavier, ou Tiradentes. Atribuída como uma conspiração contra a Coroa, o movimento buscava atingir a independência da capitania de Minas Gerais como reação às cada vez mais exigentes tributações sobre o ouro extraído no lugar. Com o eventual enfraquecimento da insurreição e a captura de Tiradentes, D. Maria converteu a pena de morte dos principais conspiradores para o exílio, com exceção do líder (enforcado em 1792) possivelmente devido ao seu não pertencimento à elite da produção aurífera. No entanto, a assinatura da rainha sobre tais decisões foi apenas simbólica, pois, nessa época, D. João e os ministros já tomavam as decisões em seu lugar devido às suas limitações de saúde.

Com a proximidade do término do século XVIII, o continente europeu passou a enfrentar diversas crises políticas, sociais e econômicas que colocavam em risco as famílias reais, o clero e os membros da nobreza. O exemplo mais impactante ocorreu com a Revolução Francesa, a partir de 1789, que passou a perseguir e a condenar as figuras mais poderosas do Antigo Regime na sociedade. Diante da revolução, Maria I concedeu asilo aos nobres perseguidos, principalmente no decorrer do contexto do Terror (1793-1794), liderado por Maximilien Robespierre.

É provável que a saúde mental de D. Maria I tenha se degenerado em decorrência das perdas de diversos entes queridos, agravando o seu quadro depressivo. Em 1781, testemunhou a primeira perda significativa, com o falecimento da mãe, D. Mariana Vitória. Em 1786, foi a vez do marido, D. Pedro III. Apenas no ano de 1788, sofreu a perda do filho, príncipe D. José, da filha, também D. Mariana Vitória, do genro, D. Gabriel de Bourbon (esposo de Mariana), do confidente Frei Inácio de São Caetano, do recém-nascido neto de D. Mariana e de D. Gabriel, D. Pedro Carlos, e do tio Carlos III de Espanha. A maioria dos entes perdidos, entre os filhos, genro e neto, morreu de varíola, cuja vacina era algo contra o que D. Maria I se opunha por motivos religiosos.

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A partir do ano de 1792, a saúde mental da rainha passou a se deteriorar com cada vez mais evidência, de forma que o filho, D. João, passou a auxiliar a mãe nas decisões do Estado, tornando-se oficialmente o príncipe regente do Reino de Portugal e Algarves em 1799.

Confira também: Dom João VI — detalhes sobre o monarca português que oficialmente foi rei de Portugal entre 1816 e 1826

D. Maria I no Brasil

A presença e o reinado de D. Maria I no Brasil estão ligados, de certa forma, às ações do imperador francês Napoleão Bonaparte. Isso porque, no dia 21 de novembro de 1806, Napoleão Bonaparte, que já detinha grande parte do território europeu, decretou o Bloqueio Continental, que consistia no fechamento dos portos europeus para os navios de origem britânica, então principal rival da França.

Portugal, que já não representava uma potência naval como nos séculos anteriores, dependia fortemente da economia do Reino Unido, com quem havia estabelecido fortes relações diplomáticas no decorrer dos anos. No entanto, ao aderir à exigência francesa, estaria também anulando sua aliança com o Reino Unido, podendo gerar uma consequência grave: a invasão da Inglaterra sobre a colônia portuguesa no Brasil.

Com o ultimato de Napoleão Bonaparte sobre Portugal em 1807, que pressionava pelo rompimento total com o Reino Unido, a família real estava sem muitas opções. A movimentação de tropas francesas diante da fronteira lusitana era cada vez mais nítida, e uma invasão poderia ocorrer a qualquer instante. A saída mais racional, para o príncipe regente D. João, foi a família real fugir de Portugal para o Brasil sob proteção inglesa.

Pintura retratando D. João, que tomou a decisão que levou à vinda da família real para o Brasil.
O príncipe regente D. João tomou a decisão de a família real fugir de Portugal para o Brasil sob proteção inglesa.

Ao chegar aqui em 22 de janeiro de 1808, D. João estabeleceu também a administração ultramarina do Reino de Portugal: na prática, significava que, mesmo com a invasão francesa sobre Portugal, o reino continuaria sendo comandado por meio de um governo de exílio, com D. Maria I ainda na posição de rainha. Junto da família real, trouxeram-se até mesmo instituições portuguesas como a Academia Real de Guardas-Marinhas, fundada por Maria I. Com sua sede instalada no Mosteiro de São Bento e com a admissão de 25 estudantes, recebeu, em 1810, uma biblioteca exclusiva, que mais tarde se tornaria a Biblioteca Nacional.

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Desde sua chegada no Brasil até a data da morte, em 1816, D. Maria I estabeleceu-se no Convento do Carmo, ao centro do Rio de Janeiro, que havia sido erigido pelos missionários carmelitas no século XVII. Dizia-se viver constantemente angustiada por delírios religiosos, nos quais muitas vezes alucinava com visões diabólicas.

Mesmo com a saúde psicológica nitidamente debilitada, foi oficialmente nomeada rainha do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves em dezembro de 1815, data em que o Brasil deixou de ser uma colônia portuguesa para equivaler aos territórios do império português.

Morreu poucos meses depois, em 1816, aos 81 anos de idade, deixando a Coroa oficialmente para o filho, agora D. João VI.

Acesse também: Como foi a vinda da família real portuguesa para o Brasil?

Doença de D. Maria I

D. Maria I foi acometida por graves doenças psicológicas, cujos primeiros sintomas surgiram do desenvolvimento de uma depressão profunda, decorrente possivelmente da perda de diversos entes queridos. Apenas durante a década de 1780, perdeu oito pessoas próximas, incluindo a mãe, dois filhos, o marido e um neto, grande parte devido ao surto de varíola ocorrido em Portugal.

Cada vez mais reclusa, D. Maria I, uma católica fervorosa, passou a sofrer com alucinações religiosas em possível decorrência de uma porfiria (grupo raro de distúrbios metabólicos) que atacava o sistema nervoso. Passou a temer, de maneira obsessiva, ao diabo e ao inferno. Diante de um incêndio ocorrido em 1794 no palácio real em Queluz, foi tomada por um surto que a fez testemunhar o espírito do pai gritando em meio às chamas. Para ela, era certo que D. José I ardia eternamente no inferno.

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Jenifer Roberts, que escreveu uma biografia da rainha, afirmou que “[...] D. Maria continuou a sofrer o seu inferno vivo. Umas vezes, estava num estado de letargia e de torpor, impossível de ser despertada. Outras vezes, entrava em fúrias violentas, com ataques de histeria que podiam durar vários dias e que mantinham os seus ajudantes acordados durante várias noites de seguida. [...] Ela esbofeteava-os e esmurrava-os quando estava agitada, atirava-lhes com pratos e gritava ofensas” |1|. As violentas alucinações que acometiam D. Maria lhe angariaram o apelido de “a Louca” e as manteve em constante estado de agonia até a sua morte.

Morte de D. Maria I

Convento do Carmo, que serviu de abrigo para D. Maria I em seus últimos anos de vida.
O Convento do Carmo, construído a partir de 1619 pelos carmelitas, serviu de abrigo para D. Maria I em seus últimos anos de vida.

Os últimos oito anos de vida de D. Maria I foram passados no interior do Convento do Carmo. A rainha passou a sofrer não apenas com a degeneração mental, mas também com a degeneração física. Possivelmente, sofria de febre, de desinteria e de edemas, e havia perdido a sensibilidade nas pernas, de forma que era levada em passeios sobre cadeiras de rodas.

Nos dois últimos meses, confinou-se na cama, recusando a presença de quaisquer pessoas, o que não foi acatado, pois o protocolo real obrigava que a rainha falecesse rodeada de seus médicos, de seus ajudantes e de seus familiares. Recebeu a extrema-unção e faleceu no dia seguinte, em 20 de março de 1816, aos 81 anos.

Não há registros sobre as causas oficiais da morte da rainha, possivelmente devido às limitações médicas da época. No entanto, é provável que seu falecimento tenha ocorrido em decorrência da idade, agravada pela fragilidade da saúde física e da saúde mental

Curiosidades sobre D. Maria I

  • Maria I foi a primeira rainha de Portugal e Algarves a governar o império.
  • O local em que Maria I viveu seus últimos anos, o Convento do Carmo, é muitas vezes referenciado como um local mal-assombrado, possivelmente pela fama que o lugar adquiriu com a presença perturbadora da rainha.
  • Era com significativa frequência que os criados de Maria I manifestavam estar doentes apenas para evitarem a sua companhia agressiva.
  • Muitos estudiosos atribuem a saúde frágil da rainha às relações consanguíneas entre os antepassados da família real, principalmente seus avós.
  • Foi D. Maria I quem decretou a pena de morte para Tiradentes, o líder da Inconfidência Mineira.
  • Os primeiros anos de governo de D. Maria I foram tão pacíficos que o povo português deixou de ter familiaridade com execuções em praça pública. Diz-se que, quando a rainha ordenou a incomum morte de três malfeitores em público, o público em geral passou mal, arrependendo-se da curiosidade.
  • Os estudos psiquiátricos da época não permitiram o tratamento adequado da rainha. Diz-se que o médico inglês Francis Willis, renomado na época por ter curado o Rei Jorge III da Inglaterra, tentou curá-la por meio de tratamentos de contenção (camisas de força), de coerção e de outros procedimentos atualmente primitivos. O acúmulo de insucessos levou o médico a considerar que o caso da rainha era “incurável”.

Notas

|1| ROBERTS, Jenifer. D. Maria I: A vida notável de uma rainha louca. Amadora: Leya, 2009.

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Crédito de imagem

Halley Pacheco de Oliveira / Wikimedia Commons (reprodução)

Fontes

DEL PRIORE, Mary. D. Maria I: as perdas e as glórias da rainha que entrou para a história como “a louca”. São Paulo: Benvirá, 2019.

GOMES, Laurentino. 1808. São Paulo: Editora Planeta, 2007.

MINISTÉRIO DA CULTURA. D. Maria I, Portugal e o Brasil: elos de uma mesma corrente. Fundação Biblioteca Nacional. Disponível em: https://www.gov.br/bn/pt-br/central-de-conteudos/exposicoes/d-maria-i-portugal-e-o-brasil-elos-de-uma-mesma-corrente.

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REZZUTI, Paulo. D. Leopoldina: a história não contada. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

ROBERTS, Jenifer. D. Maria I: A vida notável de uma rainha louca. Amadora: Leya, 2009.

Escritor do artigo
Escrito por: Cassio Remus de Paula Cássio é doutor em História pela UFPR, mestre e bacharel em História pela UEPG. Atua como professor de História, Filosofia e Sociologia.
Deseja fazer uma citação?
PAULA, Cassio Remus de. "D. Maria I de Portugal"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historiab/d-maria-i-de-portugal.htm. Acesso em 26 de fevereiro de 2026.
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