Allan Kardec

Allan Kardec, pseudônimo de Hippolyte L. D. Rivail, foi um pedagogo e líder religioso francês do séc. XIX. Notabilizou-se por ter sido o principal fundador do espiritismo.

Allan Kardec foi um pedagogo e líder religioso francês, nascido em 1804, na cidade de Lyon, e que se notabilizou por ter sido o principal fundador e codificador do espiritismo.

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Tópicos deste artigo

Resumo sobre Allan Kardec

  • Allan Kardec, pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804–1869), foi um pedagogo francês formado na tradição educacional de Johann Pestalozzi e autor de numerosas obras didáticas antes de se tornar o codificador do espiritismo.
  • Educador respeitado, defensor da educação pública e afetiva, Rivail atuou como professor, reformador do ensino e membro de academias científicas antes de se notabilizar como líder religioso.
  • A partir de 1855, investigou de forma cética e sistemática os fenômenos das “mesas girantes”, o que o levou à publicação, após dois anos de pesquisas, de O Livro dos Espíritos (1857), obra que inaugura o espiritismo, doutrina marcada pela tentativa de conciliar racionalismo científico e espiritualidade.
  • Kardec concebia suas crenças como um sistema racional de ideias, compatível com o espírito científico do século XIX. Defendia que o universo, inclusive o plano espiritual, era regido por leis naturais investigáveis pela razão.
  • Ele acreditava na imortalidade do espírito, na reencarnação como meio de aperfeiçoamento moral e na comunicabilidade entre vivos e mortos, desde que submetida a critérios rigorosos de controle e coerência.
  • Kardec via a história como processo de progresso moral contínuo e reinterpretava a moral cristã, dando ênfase aos valores da caridade, justiça e fraternidade e à luz da razão, rejeitando dogmas e hierarquias religiosas rígidas.
  • Em 1857, Kardec publicou O Livro dos Espíritos e adotou o pseudônimo Allan Kardec, marcando o nascimento do espiritismo. Para diferenciá-lo de práticas místicas, elaborou o Controle Universal do Ensino dos Espíritos, método baseado na concordância entre médiuns, no crivo da razão, na espontaneidade das comunicações e na comparação sistemática dos dados, buscando uma espiritualidade de base racional.
  • Allan Kardec faleceu no dia 31 de março de 1869, aos 64 anos de idade, decorrente de um aneurisma, na cidade de Paris. Seu túmulo fica no Cemitério do Père-Lachaise, em Paris, sendo um ponto muito visitado por espíritas, especialmente brasileiros.

Biografia de Allan Kardec

Retrato fotográfico de Allan Kardec.

Allan Kardec, pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869), foi um pedagogo e líder religioso francês, nascido em 3 de outubro de 1804, na cidade de Lyon, e que se notabilizou por ter sido o principal fundador e codificador do espiritismo.

O espiritismo é por vezes chamado de kardecismo ou espiritismo kardecista, o que atesta a importância de Kardec como fundador dessa religião, que, apesar de ter surgido na França, tem no Brasil seu maior número de adeptos, podendo esse ser considerado o maior país espírita do mundo, superando muito a relevância que essa religião tem em seu país de origem.

Hippolyte Rivail se casou em 6 de fevereiro de 1832, em Paris, com a professora, poetisa e artista plástica Amélie Gabrielle Boudet. Apesar de tentarem por anos, o casal não teve filhos biológicos, ao que eles decidiram adotar uma menina chamada Louise, renomeada como Louise Rivail. No entanto, a menina faleceu ainda criança, o que marcou profundamente o casal, que decidiu não adotar outra. Sendo assim, não deixaram herdeiros diretos e, após a morte de Rivail (Kardec), deixaram seus bens para a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, que havia sido fundada por Kardec em 1858.

  • Carreira como professor e pedagogo (1804-1855)

Antes de assumir o pseudônimo de Allan Kardec e de ter um papel destacado de liderança religiosa, pela qual ele é predominantemente lembrado e reconhecido na atualidade, especialmente no Brasil, ele foi o destacado professor Rivail, que construiu uma trajetória intelectual e profissional sólida e muito reconhecida no campo da Pedagogia.

Rivail foi aluno, colaborador e discípulo do respeitado pedagogo suíço Johann Pestalozzi, que teve uma grande influência na modernização tanto dos métodos de ensino quanto das políticas públicas educacionais europeias, especialmente na França e Alemanha, no século XIX.

O professor Pestalozzi, bem como seus discípulos, como o prof. Rivail, defendiam uma educação pública universal e gratuita, em um período em que essa era ainda uma política altamente controversa, causando a oposição apaixonada de grupos mais conservadores. Pestalozzi e Rivail argumentavam que a educação é um direito de todos, inclusive dos mais pobres, e que isso traria uma grande melhoria social e favoreceria a dignidade humana.

Outro ponto muito lembrado das propostas do grupo de Pestalozzi e Rivail foi a defesa da afetividade no ensino, de que o ambiente escolar deve ser seguro e afetuoso, inspirado no lar, e de que o professor deve amar o aluno, pois o afeto é a base para o aprendizado. Essa também foi uma proposta muito controversa em uma época em que o ensino tradicional era baseado em castigos físicos, como o uso da palmatória, e na exposição moral dos alunos, com castigos de exposição vexaminosa, como o chapéu cônico para alunos desobedientes, no Brasil chamado de "chapéu de burro”. Esses métodos hoje são vistos consensualmente como desumanos pela comunidade educacional, o que destaca a importância e a vitória na história que se seguiu das ideias do grupo de Pestalozzi e Rivail.

Após sua formação e colaboração com Pestalozzi na Suíça, o professor Rivail retornou à França e se tornou um dos mais importantes divulgadores dos métodos e propostas de Pestalozzi naquele país, passando a lecionar e tendo publicado mais de 20 obras pedagógicas e sobre políticas de educação.

Entre suas obras mais destacadas, podemos citar:

  • Plano Proposto para a Melhoria da Instrução Pública (1828), obra em que Rivail apresenta suas ideias pedagógicas para a reforma do ensino na França;
  • Curso Prático e Teórico de Aritmética (1824), baseado no sistema de ensino de Pestalozzi, que foi um dos seus primeiros livros e um grande sucesso editorial, sendo reeditado diversas vezes até 1876;
  • Gramática Francesa Clássica (1831), um livro didático voltado para o ensino estruturado da língua para alunos do que hoje seria considerado ensino médio no Brasil;
  • Manual dos Exames (1847), focado na preparação de alunos e professores para os exames nacionais de grande relevância naquele período; e
  • Projetos de Ensino de Ciências, em que Rivail escreveu sobre Química, Física, Astronomia, Anatomia e Retórica, também para alunos do ensino intermediário.

Sua atuação destacada como educador e intelectual lhe rendeu grande visibilidade e reconhecimento acadêmico, o que o levou a ser admitido como membro de diversas sociedades acadêmicas respeitadas da França, como o Instituto Histórico de Paris, a Academia Real de Arras e a Real Academia de Ciências Naturais.

Retrato do célebre pedagogo suíço Johann Heinrich Pestalozzi, de quem o prof. Rivail foi discípulo e colaborador próximo.
  • Surgimento de Allan Kardec e do espiritismo (1855-1869)

Foi somente durante a década de 1850 que houve a transição do professor Rivail para Allan Kardec, o codificador do espiritismo. A partir de 1855, ele teve contato com o fenômeno das chamadas “mesas girantes", em que mesas se moviam, dançavam e emitiam ruídos aparentemente de maneira autônoma, sem interferência humana. Esse fenômeno ocorreu nessa época em diversos salões europeus e despertaram muita curiosidade, tanto daqueles que buscavam entretenimento quanto de alguns cientistas e pesquisadores que buscavam compreender e explicar o fenômeno em termos de leis físicas ou prestidigitação (ilusionismo).

O professor Rivail adentrou essas seções como alguém desse segundo tipo: buscava compreender e explicar fisicamente o fenômeno ou desmascará-lo. Foi, portanto, com uma postura de bastante ceticismo e análise crítica que ele teve contato com esses acontecimentos. O que aconteceu a seguir foi surpreendente, tanto para ele quanto para seus companheiros mais próximos: ele, em vez de mostrar a falsidade das interpretações mediúnicas (espirituais) que buscavam explicar o fenômeno, foi produzindo uma série de experimentos que, ao fim de dois anos, deram-lhe a convicção de que ali haveria de fato um fenômeno legítimo de comunicação espiritual, processo que será detalhado mais à frente neste artigo.

Após dois anos de pesquisa, ele publicou, em 1857, O Livro dos Espíritos, obra que marcou a transição de Rivail para seu pseudônimo Allan Kardec e o nascimento público do espiritismo como doutrina estruturada.

Não houve, portanto, uma conversão súbita do prof. Rivail a uma religião, o que ocorreu foi um processo gradual de investigação, sistematização e elaboração intelectual que deu origem a uma doutrina religiosa estruturada, com uma linguagem e um modelo típicos do ambiente científico racionalista da França do séc. XIX em que ela surgiu.

Essa aproximação entre racionalismo cientificista e compreensão do sagrado pode parecer contraditória à primeira vista. No entanto, lido em seu contexto, esse acontecimento pode ser compreendido como uma expressão típica e plenamente adequada do espírito de seu tempo. Em vez de abolir o debate sobre os chamados “temas últimos” ou “suprassensíveis” (como a vida após a morte, o sentido da vida, a existência e a natureza da divindade), pode-se compreender o surgimento do espiritismo no ambiente intelectual francês do séc. XIX como um movimento de assimilação desses temas tradicionalmente religiosos pelos valores racionalistas e científicos dessa época e contexto.

Imagem publicada na revista L'Illustration, em 1853, para ilustrar um artigo que relatava o fenômeno das “mesas girantes”.

Qual o nome verdadeiro de Allan Kardec?

Allan Kardec é um pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail. O nome original do professor Rivail está registrado nas mais de vinte obras pedagógicas que ele publicou em sua vida como educador.

A adoção do pseudônimo Allan Kardec ocorreu em 1855, quando ele decidiu separar sua produção pedagógica anterior do novo campo de investigação ao qual passou a se dedicar: o estudo sistemático dos fenômenos espirituais.

A escolha desse nome não foi aleatória nem meramente literária, mas carregada de significado simbólico dentro do contexto do espiritismo que estava ajudando a construir. Durante comunicações espirituais em meados de 1856, em sessões espíritas conduzidas junto à médium (indivíduo que recebe e transmite comunicações do plano espiritual) Aline Japhet, um espírito que se apresentou como Zéfiro lhe revelou que eles haviam vivido juntos na Antiga Gália e que Rivail teria sido um druida (líder espiritual celta) chamado Allan Kardec.

Quem era o mentor espiritual de Allan Kardec?

Allan Kardec atribui a orientação intelectual e moral de seu trabalho a uma entidade espiritual identificada comoEspírito de Verdade”, responsável por inspirar os princípios gerais e as diretrizes morais do espiritismo.

Do ponto de vista histórico e analítico, pesquisadores como Marion Aubrée e François Laphantine chamam atenção para o fato de que a figura do “Espírito de Verdade” não deve ser compreendida como um personagem individualizado, mas como uma construção típica do espiritismo nascente, cumprindo a função de autoridade espiritual coletiva, reunindo mensagens atribuídas a diferentes espíritos sob uma identidade unificadora.|1| O mentor de Kardec, portanto, deve ser entendido menos como um guia pessoal e mais como um elemento simbólico e organizador da doutrina.

Marcel Souto Maior|2| destaca que Kardec não se apresentou como uma espécie de profeta inspirado por uma entidade espiritual, e sim como um pesquisador que sistematizava seu trabalho a partir da comparação sistemática de diferentes comunicações espirituais obtidas a partir de diversos médiuns e em diferentes locais.

Assim, Kardec não se identificava com a figura de uma liderança religiosa, apesar de sê-lo, e sim como um pesquisador e cientista que estaria avançando na compreensão científica do que via como um novo ramo da ciência.

I Congresso de Mocidades Espíritas do Brasil, no Rio de Janeiro, em 1948, com a imagem de Kardec ao fundo.[1]

Em que Allan Kardec acreditava?

As crenças de Allan Kardec não se organizavam como um ato de fé tradicional, mas como um sistema de ideias que ele próprio via e apresentava como racional e compatível com o espírito científico típico do século XIX em que viveu. Kardec acreditava que o universo era regido por leis naturais, inclusive no plano espiritual, e que essas leis poderiam ser investigadas, comparadas e sistematizadas por meio da razão.

No núcleo de suas convicções, estava a ideia de que o ser humano é composto por um corpo material e um princípio espiritual, sendo este último imortal. Kardec defendia a pluralidade das existências (reencarnação) como mecanismo de aperfeiçoamento moral e intelectual do espírito ao longo do tempo. Essa convicção aparece em suas obras como hipótese explicativa capaz de responder a problemas clássicos da filosofia moral, como a questão da justiça divina diante da desigualdade social e do sofrimento humano.

Kardec acreditava na comunicabilidade entre vivos e mortos, desde que mediada por indivíduos dotados de uma sensibilidade específica, os médiuns. No entanto, ele insistia que tais comunicações deveriam ser submetidas a critérios rigorosos de controle, comparação e coerência, rejeitando relatos isolados ou contraditórios. Essa postura buscava diferenciar o espiritismo tanto do misticismo quanto da superstição popular, com os quais não somente não se identificava, como dava diversas mostras de desprezar, como um típico racionalista do XIX.

Outro ponto central de suas crenças era a ideia de progresso moral dos espíritos e da humanidade. Ele via a história como um processo contínuo de aperfeiçoamento, no qual ciência, filosofia e moral avançavam continuamente, ainda que nem sempre ao mesmo tempo, podendo a moral avançar mais lentamente que a ciência, por exemplo.

Um outro ponto relevante das convicções de Kardec trata da moral cristã, especialmente dos princípios de caridade, fraternidade e justiça, que interpretava como o cerne da mensagem do Cristo e que deveriam ser compreendidos por todos à luz da razão, sem a necessidade de instituições religiosas hierárquicas ou de dogmas herméticos e inflexíveis.

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Allan Kardec e o espiritismo

O espiritismo é um movimento religioso profundamente vinculado a Allan Kardec, que foi seu principal fundador, sistematizador e codificador. Ele entendia o espiritismo não como uma religião, mas como um novo campo de estudos voltado à investigação de fenômenos espirituais à luz da razão, da observação empírica e da comparação sistemática.

O envolvimento do então professor Rivail com o que viria a ser o espiritismo se iniciou a partir de 1855, quando ele presenciou os chamados fenômenos das mesas girantes, que ganharam notoriedade nessa época em diversos salões europeus. Essas mesas, que giravam, se mexiam e emitiam sons aparentemente sem intervenção humana despertaram interesse inicialmente como entretenimento social, atraindo curiosos e pessoas em busca de divertimento superficial. No entanto, aos poucos, passaram a despertar o interesse intelectual de cientistas e pesquisadores que buscavam identificar o elemento físico por trás de tais fenômenos ou desmascarar uma eventual fraude.

Um desses pesquisadores mais seriamente interessados em desvendar as causas do fenômeno foi o professor Rivail, que se aproximou dessas sessões com grande dose de ceticismo e análise crítica. A partir de uma série de testes e observações ao longo dos próximos dois anos, Rivail acabou por se convencer da autenticidade dos fenômenos e que eles possibilitariam a comunicação com seres inteligentes desencarnados: os espíritos.

Após dois anos de pesquisas sistematizadas, ele publicou, em 1857, O Livro dos Espíritos, obra que marca o nascimento público do espiritismo como doutrina estruturada. Foi então que ele adotou o pseudônimo de Allan Kardec para diferenciar suas obras no âmbito do espiritismo das obras anteriores, dedicadas à educação e à Pedagogia.

Uma preocupação muito grande de Kardec desde o princípio era marcar firmemente uma distinção entre o espiritismo e as muitas práticas esotéricas, mágicas e místicas que ele observava em seu tempo e para com as quais não disfarçava sua aversão.

Para atestar a distinção do espiritismo e essas práticas místicas, Kardec elaborou uma metodologia para avaliar e validar a autenticidade dos ensinamentos espíritas, chamando o método de Controle Universal do Ensino dos Espíritos. A verdade, por esse método, era estabelecida sobre alguns princípios.

O primeiro era o Princípio da Concordância, quando o mesmo ensinamento era recebido espontaneamente através de muito médiuns em diferentes locais do país, de preferência que não se conheciam e que viviam em contextos sociais distintos, indicando que a mensagem não seria fruto de uma opinião isolada. O segundo princípio do método de Kardec era o Crivo da Razão, como primeiro filtro, em que todo ensino deveria ser submetido à análise racional e ao bom senso antes de ser aceito. Se algo contrariasse a lógica ou princípios já estabelecidos, deveria ser rejeitado.

Em terceiro lugar, o princípio da Espontaneidade das Manifestações, pois Kardec privilegiava comunicações espontâneas, e não as provocadas por evocações, pois essas provocações poderiam atrair espíritos levianos que responderiam qualquer pergunta com inverdades por mero divertimento.

Por fim, havia a Coleta de Dados, em que Kardec coletava os ensinamentos colhidos em diversos grupos no mundo para confirmar a concordância de algumas mensagens, que seriam aceitas e utilizadas na codificação.

Essa sistematização de base racional da doutrina que surgia foi um esforço de Kardec de inseri-la no debate moderno sobre ciência e religião. Kardec via o espiritismo não como ruptura com a razão, mas como sua ampliação para além do materialismo estrito. Ele atuou, portanto, como mais que uma liderança para o espiritismo, mas como um sistematizador, que organizou princípios, métodos e um corpo doutrinário coerente, em busca de um modelo racional de espiritualidade.

Morte de Allan Kardec

Hippolyte Léon Denizard Rivail (Allan Kardec) faleceu no dia 31 de março de 1869, aos 64 anos de idade, na cidade de Paris. Sua morte aconteceu de forma repentina, decorrente de um aneurisma.

Seus últimos anos foram dedicados aos trabalhos da Revista Espírita, fundada por ele em 1858. Seu falecimento ocorreu em um momento em que a doutrina espírita já havia se consolidado na França e começava a se expandir para outros países, especialmente o Brasil. Sua ausência gerou preocupações no meio espírita francês quanto à continuidade e expansão do movimento, dada a sua importância como principal organizador, editor e referência intelectual.

O túmulo de Allan Kardec fica no famoso Cemitério do Père-Lachaise, em Paris, França, sendo um dos mais visitados do local e um ponto turístico importante para espíritas, especialmente brasileiros, com seu dólmen de pedra e a frase "Nascer, viver, morrer, renascer ainda, e progredir sempre, tal é a Lei" gravada.

Túmulo de Hippolyte Léon Denizard Rivail (Allan Kardec), no Cemitério do Père-Lachaise, em Paris, França.[2]

Qual o legado de Allan Kardec?

O legado de Allan Kardec pode ser compreendido em três dimensões articuladas: intelectual, institucional e histórico-cultural.

No plano intelectual, o principal legado de Allan Kardec foi a sistematização de uma nova religião, de uma doutrina religiosa inserida numa busca de uma racionalidade espiritual moderna, que combinasse com os valores e as aspirações do racionalismo e cientificismo do século XIX. Kardec deixou um método que buscava explicitamente conciliar investigação empírica, reflexão racional e implicações éticas na conduta humana, recusando, portanto, o dogmatismo religioso legado pelos séculos anteriores, bem como o materialismo estrito dos ateus típicos de seu século.

Esse esforço não pretendia substituir a ciência nem competir com ela, mas integrar a ela um novo campo do conhecimento, a dos fenômenos espirituais, que Kardec entendia como plenamente naturais e sujeitos a leis naturais que deveriam ser conhecidas e estudadas.

No âmbito institucional, Kardec legou um corpo doutrinário sistematizado em livros, periódicos e procedimentos metodológicos de pesquisa. Após sua morte, essas obras e procedimentos passaram a ser referências normativas, permitindo a continuidade do espiritismo e mesmo das pesquisas dos fenômenos, como entendido por Kardec, sem a necessidade da presença do líder fundador vivo.

No que tange ao aspecto histórico-cultural, o legado de Kardec ultrapassa o espiritismo enquanto doutrina, pois sua obra é um documento histórico que retrata e dialoga com temas centrais de seu tempo, o século XIX, como progresso, educação, moral, ciência e religião, e ajuda a compreender as tensões da modernidade em torno desses temas, por vezes, concorrentes, paradoxais e mesmo complementares na existência do indivíduo contemporâneo. Kardec representa um tipo específico de intelectual moderno, aquele que tenta responder, por meio de instrumentos racionais, a questões existenciais profundas colocadas por uma sociedade em rápida transformação.

Apesar de ter um legado muito mais vinculado ao seu papel de líder religioso, existe um legado menos lembrado, mas de grande relevância que antecede Allan Kardec, que é do professor Rivail e sua colaboração com uma verdadeira revolução nos métodos educacionais, que cabe ser ressaltada, especialmente por ser tão pouco lembrada e reconhecida.

A contribuição do círculo pedagógico formado por Johann Heinrich Pestalozzi e por seus discípulos e continuadores, entre eles o prof. Hippolyte Rivail, foi decisiva para a renovação da educação no Ocidente e exerceu impacto duradouro inclusive no Brasil.

Pestalozzi rompeu com o ensino baseado na memorização passiva ao formular a pedagogia intuitiva, segundo a qual a aprendizagem deveria partir da observação direta do concreto para alcançar o abstrato, valorizando os sentidos, a experiência e a atividade do aluno, método conhecido como “lição de coisas”. Essa concepção, que integrava o desenvolvimento moral, físico e intelectual, sintetizado na tríade “coração, mão e mente”, influenciou profundamente a modernização do ensino elementar.

No Brasil, suas ideias chegaram com força no final do século XIX, especialmente por meio de Rui Barbosa, e ajudaram a preparar o terreno para o movimento da Escola Nova, voltado à aprendizagem ativa e à formação integral. No século XX, a atuação de Helena Antipoff, ligada ao movimento pestalozziano, foi central para a difusão dessas ideias, sobretudo na educação inclusiva e no atendimento a crianças com necessidades especiais.

Esse legado permanece perceptível até hoje na educação brasileira, seja no uso de práticas pedagógicas ativas nos anos iniciais, seja em documentos como a BNCC, que reafirmam princípios como o desenvolvimento de habilidades, a aprendizagem significativa e o “aprender a aprender”. Esse é um legado que o professor Rivail ajudou a construir e pelo qual ele é raramente lembrado.

Obras de Allan Kardec

O professor Rivail já era um autor destacado de obras pedagógicas, com mais de 20 livros publicados, quando começou seu trabalho como liderança religiosa e codificador do espiritismo.

No âmbito do espiritismo, Allan Kardec editou e codificou as obras que constituem o eixo central do espiritismo. Kardec nunca assumiu seu trabalho como sendo de autoria dessas obras, preferindo se identificar como organizador ou codificador das mensagens cuja autoria seria do grupo de espíritos para os quais trabalhou nessa empreitada.

O fato é que ele dedicou grande parte da sua vida a partir de 1855 à organização, revisão e publicação desses textos, tratando-os como instrumentos pedagógicos voltados a uma divulgação clara, didática, ordenada e acessível dos ensinamentos que recebeu das entidades espirituais por meio das sessões espíritas e de diversos médiuns, lembrando que o próprio Kardec não era médium. É plausível reconhecer o toque do professor e pedagogo na organização desse trabalho, o que conecta o trabalho do professor Rivail com o de Allan Kardec.

  • O Livro dos Espíritos (1857)

A principal obra organizada por Kardec, publicada pela primeira vez em 1857, em Paris, e que inaugura publicamente o espiritismo como doutrina estruturada é organizada por meio de perguntas e respostas, em que os espíritos respondem diversos questionamentos sobre temas organizados de maneira didática. Há aí uma referência não explícita ao método didático dos filósofos gregos, como Platão, que também utilizavam esse método de perguntas e respostas na composição de suas obras.

Os temas abordados são diversos e vão dos mais simples aos mais elevados e herméticos, desde a natureza do espírito e a imortalidade das almas até o papel da reencarnação e as leis morais de Deus e do universo. O formato dialogado ressalta o papel central do professor Rivail no trabalho de Kardec, pelo seu esforço em tornar conceitos complexos e difíceis compreensíveis ao público geral.

Folha de rosto do livro "O Livro dos Espíritos", edição de 1860.
  • O Livro dos Médiuns (1861)

Essa é a segunda obra do núcleo central de obras do espiritismo kardecista. Ela segue o mesmo modelo de edição da anterior, por meio de perguntas e respostas, mas os temas agora são dedicados à descrição, compreensão e classificação dos fenômenos mediúnicos, que são centrais no espiritismo. Essa obra reforça a pretensão metodológica do espiritismo, ao propor regras, advertências e procedimentos que buscavam diferenciar e distanciar a prática espírita de manifestações supersticiosas ou fraudulentas.

  • O Evangelho segundo o Espiritismo (1864)

Segundo o mesmo método dialogal das anteriores, essa obra aborda a leitura e interpretação dos textos bíblicos do chamado Novo Testamento cristão (Evangelhos) sob o prisma da interpretação espírita e com foco na extração e reforço dos ensinamentos morais do cristianismo à luz da razão e da espiritualidade moderna proposta pela doutrina. Essa obra aponta para um aspecto central da nova doutrina, que não é apenas racionalista como o século em que surge, mas é predominantemente uma doutrina moral, centrada em valores como caridade, fraternidade, humanismo e amor ao próximo, que os espíritas veem como o cerne de um cristianismo autêntico, pois vinculado aos gestos e palavras do Cristo em si, e não de estruturas religiosas posteriores.

  • O Céu e o Inferno (1865) e A Gênese (1868)

Obras estruturadas, como as demais, em formato dialogal, em que se aprofundam reflexões sobre a justiça divina, o destino da alma após a morte, a relação entre ciência, religião e progresso da humanidade, entre outros temas caros à pesquisa científica e aos demais racionalistas típicos do século XIX. Nessas obras, Kardec explicita de maneira mais clara sua tentativa de construir uma racionalidade espiritual moderna, alinhada às preocupações científicas e filosóficas de seu tempo.

Além dessas obras clássicas, Kardec publicou a obra O que é o Espiritismo, em 1859, uma obra sucinta que resume de maneira prática e didática os princípios da doutrina espírita, facilitando a compreensão e a divulgação da doutrina para quem ainda não tinha interesse, tempo ou disposição de se aprofundar nas volumosas obras da codificação principal do movimento.

Kardec também foi fundador e editor da Revista Espírita, publicada regularmente a partir de 1858, nos moldes das revistas científicas, para funcionar como espaço de debate, divulgação de pesquisas, acompanhamento das pesquisas e afins. As inúmeras edições dessa revista, tanto no século XIX quanto no século XX, são documentos históricos fundamentais para a compreensão do espiritismo como fenômeno social e histórico.

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Frases de Allan Kardec

As frases mais conhecidas e típicas do trabalho desenvolvido por Allan Kardec aparecem em sua codificação espírita. Kardec negaria a autoria dessas frases, pois as atribui aos espíritos que colaboravam com ele. Ainda assim, entre algumas das frases mais lembradas dele, estão as que seguem abaixo.

“Fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade.”

O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XIX, item 7 (1864).

Essa frase expressa de forma direta o projeto intelectual de Kardec de uma espiritualidade que não teme o avanço do conhecimento racional.

“Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre, tal é a lei.”

O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. IV, item 5 (1864).

Essa frase resume a ideia da reencarnação como meio de se produzir progresso moral contínuo que atravessa toda a obra kardecista.

“O verdadeiro espírita reconhece-se pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações.”

O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVII, item 4 (1864).

Aqui, Kardec desloca o centro da espiritualidade da crença abstrata em rituais e tradições religiosas para um foco na melhoria da conduta ética do indivíduo, o que é uma marca distintiva da doutrina espírita para com religiões mais antigas, das quais buscava se desvencilhar.

“Sem a caridade não há salvação.”

O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XV, item 5 (1864)

Uma das formulações mais concisas e conhecidas da moral espírita, amplamente difundida tanto nesse período como posteriormente e atualmente na comunidade kardecista.

O professor Hippolyte Léon Denizard Rivail também possui uma série de frases de sua autoria (essas plenamente admitidas por ele) sobre seu trabalho como educador e que cabe aqui destacar como forma de contemplar os dois lados desse personagem histórico:

  • "A educação não se limita apenas à instrução; ela compreende o desenvolvimento intelectual, mas também o desenvolvimento moral, sendo que o primeiro, sem o segundo, é estéril."
  • "A educação moral depende de uma infinidade de minúcias e que, no entanto, têm uma grande influência numa idade em que o caráter, semelhante à cera mole, é suscetível de receber todas as impressões."
  • "Professor é aquele que transforma curiosidade em aprendizado e sonhos em realidade."
  • "O verdadeiro mestre ensina mais com o exemplo do que com as palavras."

Plano Proposto para a Melhoria da Educação Pública (1828).

Créditos da imagem

[1] Wikimedia Commons

[2] Wikimedia Commons

Notas

|1|  AUBRÉE, Marion; LAPLANTINE, François. La table, le livre et les esprits: naissance, évolution et actualité du mouvement spirite entre France et Brésil. Paris: Jean-Claude Lattès, 1990.

|2|  MAIOR, Marcel Souto. Kardec: a biografia. Rio de Janeiro: Record, 2004.

Fontes

AUBRÉE, Marion; LAPLANTINE, François. La table, le livre et les esprits: naissance, évolution et actualité du mouvement spirite entre France et Brésil. Paris: Jean-Claude Lattès, 1990.

MAIOR, Marcel Souto. Kardec: a biografia. Rio de Janeiro: Record, 2004.

SAUSSE, Henri. Biographie d’Allan Kardec. Paris: Librairie Spirite, 1896.

SOUZA, Ricardo Luiz de. Allan Kardec e a construção de uma racionalidade espiritual moderna. Horizonte, Belo Horizonte, v. 22, n. 69, p. 1–20, 2024.

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BORGES, Alexandre Fernandes. "Allan Kardec"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/biografia/allan-kardec.htm. Acesso em 05 de fevereiro de 2026.