Prosa medieval é um texto narrativo, não versificado, produzido durante a Idade Média, marcado pelo seu caráter teocêntrico. De cunho literário, temos os romances de cavalaria, como a obra Amadis de Gaula. Tais romances apresentam um heroico cavaleiro e uma dama idealizada. Mas a prosa medieval também é composta por textos de cunho não literário.
Os cronicões eram textos que relatavam acontecimentos da época, como As crônicas breves de Santa Cruz de Coimbra. Já os nobiliários, como O livro de linhagens do conde D. Pedro, registravam nascimentos, casamentos e falecimentos da nobreza. Por fim, as hagiografias relatavam a vida de santos, sendo Lenda dourada a obra mais famosa.
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Tópicos deste artigo
- 1 - Resumo sobre a prosa medieval
- 2 - O que é a prosa medieval?
- 3 - Características da prosa medieval
- 4 - Tipos de prosa medieval
- 5 - Exemplos de prosa medieval
- 6 - Exercícios sobre prosa medieval
Resumo sobre a prosa medieval
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A prosa medieval consiste em obras não versificadas escritas durante a Idade Média.
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São características da prosa medieval: caráter narrativo, teocentrismo, heroísmo, idealização feminina.
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Tipos de prosa medieval:
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romances de cavalaria: Amadis de Gaula;
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cronicões: As crônicas breves de Santa Cruz de Coimbra;
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nobiliários: O livro de linhagens do conde D. Pedro;
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hagiografias: Lenda dourada.
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O que é a prosa medieval?
A prosa medieval é aquela produzida durante a Idade Média. Mas você sabe o que é prosa? A prosa é um texto que não é escrito em verso, isto é, um texto corrido, como este que você está lendo neste momento. Na Idade Média, houve textos escritos em verso, mas também textos escritos em prosa.
A Idade Média é um período histórico que teve início em 476 e, oficialmente, terminou no ano 1453. A produção literária europeia desse período é conhecida como “literatura medieval”. O sistema econômico, político e social dessa época foi o feudalismo, marcado pela relação de dependência entre suseranos (senhores, membros da nobreza) e vassalos (servos ou camponeses). Tal sistema teve seu auge do século XI ao XIII.
Características da prosa medieval
A prosa medieval faz parte do gênero narrativo, ou seja, é composta por textos que contam uma história, apresentam personagens, tempo e espaço. A principal característica da prosa medieval é o teocentrismo, ou seja, a ideia de que Deus é o centro de tudo. A temática religiosa, portanto, é marcante na prosa do período.
Já que é predominante o teocentrismo, a visão racional é deixada em segundo plano para dar lugar às emoções, sensações e crenças. Elementos do mundo sagrado ou mesmo lendários fazem parte da prosa medieval. Além disso, como reflexo de seu tempo, algumas histórias tinham como pano de fundo a guerra santa, as Cruzadas.
Nesse contexto, os heróis medievais participavam dessa guerra na defesa do cristianismo, enquanto os mouros (muçulmanos) eram os grandes vilões. Assim, os heróis viviam aventuras nas batalhas. Outra temática do período é o amor entre o herói e sua dama idealizada (mulher perfeita, com características de santa).
Então imagine só. Um herói medieval, um cavaleiro, luta em uma batalha contra os maléficos e infiéis mouros. Ele precisa defender a Igreja e voltar para os braços de sua amada: a bela e virginal dama que o espera, mas que pode acabar sendo vítima de um mouro cruel. Essa é a ideia central da prosa medieval literária, com variações, é claro.
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Tipos de prosa medieval
O principal tipo de prosa medieval é o romance de cavalaria. Esse tipo de romance é uma evolução da canção de gesta (poema épico, narrativa escrita em versos, surgido no século XI). A canção de gesta era um poema feito para ser cantado ou recitado para os membros da cavalaria. Tematiza a guerra, o heroísmo e a fé.
Segundo Marcos Antônio Lopes (doutor em História): “Nos fins da Idade Média, o romance de cavalaria foi a prosa de ficção de maior sucesso de público, num tempo que viu nascer e frutificar gêneros literários variados”. O mesmo autor afirma que “o gênero era um sucesso de público em toda a Europa, e mais ainda quando passou a ser escrito em prosa”.
Isso porque, inicialmente, tais histórias eram escritas em versos. Mas, no final da Idade Média, passaram a ser escritas em forma de prosa. Nesses romances, o protagonista (o herói da narrativa) é o cavaleiro medieval. Ele é um guerreiro que luta a favor da fé cristã. A mulher é uma dama, membro da nobreza, idealizada, pois é bela e virgem.
O romance de cavalaria mais famoso é Amadis de Gaula. Sua origem e autoria são incertas, pode ser uma obra galega ou espanhola. O herói dessa narrativa é o cavaleiro Amadis. E sua amada é a princesa Oriana. A obra foi organizada e divulgada pelo espanhol Garci Rodríguez de Montalvo, em 1508. Porém, ela já existia no século XIII.
Já a prosa não literária conta com os cronicões, que consistiam em crônicas (textos que falam da atualidade do autor). O termo “cronicão” pode ser entendido como uma coleção de crônicas medievais. Essas crônicas apresentam caráter documental e histórico, já que falam de acontecimentos importantes relacionados à nobreza da época em que foram escritas.
Já os nobiliários eram textos em prosa que registravam os nomes dos integrantes de famílias nobres de um país. Assim, acontecimentos como nascimentos, casamentos e falecimentos eram registrados nos nobiliários. Por fim, as hagiografias eram textos que contavam a vida dos santos, isto é, biografias de santos.
Exemplos de prosa medieval
Trecho do romance de cavalaria Amadis de Gaula:
No meio tempo em que isto se passou, falava uma donzela de Galaor com a outra de Urganda, e dela soube como aquele cavaleiro era Amadis de Gaula, filho do rei Periom, e como Urganda, sua senhora, o fizera vir ali para que o seu amigo daquele castelo tirasse pela força das armas, que o seu grande saber não lhe aproveitava para isso, porque a senhora do castelo, que daquela arte muito sabia, o tinha primeiro encantado, e não temendo o poder de Urganda, quisera assegurar-se pela força das armas com aquele costume que o cavaleiro do leões venceu e atravessou a ponte, como foi contado; e por isto tinham ali o seu amigo, que ali trouxera uma donzela sobrinha da senhora do castelo, aquela que ouvistes que na água se queria afogar. Assim ficaram Urganda e o cavaleiro falando uma parte daquele dia, e ela disse-lhe:
— Bom cavaleiro, não sabeis a quem armaste cavaleiro?
Anuncie aqui— Não — disse ele.
— Pois razão é que o saibais, que ele é de tal coração como vós, que vos topásseis não vos conhecendo, seria grande má ventura. Sabei que é filho de vosso pai e mãe, e este é o que o gigante tomou quando era criança de dois anos e meio, e é tão grande e formoso como agora vedes; e pelo vosso e seu amor guardei tanto tempo aquela espada; e digo-vos que fará com ela o melhor começo de cavalaria que nunca fez um cavaleiro da Grã-Bretanha.
Já um exemplo de cronicão é As crônicas breves de Santa Cruz de Coimbra, de que transcrevo um trecho abaixo, com a atualização do português:
O rei Dom Afonso Henriques venceu em campo cinco reis mouros no Campo de Ourique, e foi ali levantado por rei.
O rei Dom Afonso Henriques por duas vezes venceu os sarracenos.
O rei Dom Afonso Henriques tomou Lisboa aos sarracenos.
Anuncie aquiO rei Dom Afonso Henriques pôs o primeiro bispo em Lisboa, o qual chamava-se Gilberto.
O rei Dom Afonso Henriques pôs o primeiro prior no mosteiro de São Vicente de Lisboa, e mandou por ele ao mosteiro do Banho. E ele chamava-se Dom Mendo, e foi eleito por bispo de Lamego. O rei mandou por outro cônego ao Banho e deu-lhe o mosteiro, e chamava-se Godinho.
Exemplo de nobiliário é a obra O livro de linhagens do conde D. Pedro. Tive acesso a um trecho original da obra no trabalho dos pesquisadores Marcelo Alves da Silva e Renata Soneghetti Cauper Pinto. Transcrevo o fragmento, mas atualizado para o português atual:
Começa Portugal: e fala do rei D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal, e do que fez no tempo de seu reinado; e do rei D. Sancho, seu filho, segundo rei de Portugal, e dos filhos que teve.
Esta dona Mafalda Manriques foi casada com D. Afonso Henriques, que foi filho do conde D. Henrique e da rainha D. Teresa, filha do rei D. Afonso, o que conquistou Toledo aos mouros. Este conde D. Henrique obteve muitas terras dos mouros e dos leoneses. Morreu este conde D. Henrique em Astorga, que era sua, e tinha por herança a vila de Leão, [...].
Por fim, um exemplo de hagiografia é a famosa Lenda dourada, do século XIII, escrita por Jacopo de Varazze. Nessa obra, esse autor italiano narra a vida de vários santos, sendo um deles Santa Taís. O fragmento a seguir foi extraído de artigo científico escrito por Dominique Vieira Coelho dos Santos e Camila Michele Wackerhage:
Taís, meretriz, pelo que se lê nas Vidas dos Padres, era de tão grande beleza que muitos homens por ela venderam tudo que tinham e viram-se reduzidos à maior pobreza. Seus amantes, ciumentos uns dos outros, frequentemente se entregavam diante de sua porta a discussões que acabavam com derramamento de sangue [...]. Ela ficou reclusa dessa maneira três anos, até que, condoído, o abade Pafúncio foi encontrar o abade Antônio para saber se Deus perdoara os pecados dela [...]. Eles oraram incessantemente, e o abade Paulo, principal discípulo de Antônio, viu de repente no Céu um leito recoberto de tecidos preciosos vigiado por três virgens cujos rostos resplandeciam. [...]. Chegando ao mosteiro, rompeu o lacre da porta da cela, mas Taís rogou que a deixasse ainda reclusa. Ele disse: “Saia, pois Deus perdoou seus pecados”.
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Exercícios sobre prosa medieval
Questão 1
Então Ulfius alegrou-se e cavalgou apressadamente até encontrar o Rei Uther Pendragon, a quem comunicou ter encontrado Merlin. “Onde ele está?”, perguntou o rei. “Senhor”, disse Ulfius, “ele não ficará muito tempo à espera.” Nisso, Ulfius avistou Merlin parado junto à entrada do pavilhão. Merlin então aproximou-se do rei. Ao vê-lo, o Rei Uther deu-lhe as boas-vindas. “Senhor”, disse Merlin, “conheço cada recanto do vosso coração; se jurardes — como verdadeiro rei ungido — satisfazer o meu desejo, tereis o que desejais.” O rei prestou então o juramento sobre os Quatro Evangelhos. “Senhor”, disse Merlin, “este é o meu desejo: na primeira noite em que dormirdes com Igraine, gerareis um filho nela; quando a criança nascer, deverá ser-me entregue para que eu a crie onde bem entender, pois isso trará honra a vós e grande proveito à criança, na medida do seu valor.” “Concordo”, disse o rei, “que seja como queres.” “Preparai-vos, então”, disse Merlin; “esta noite dormireis com Igraine no castelo de Tintagel. Vós assumireis a aparência do duque, marido dela; Ulfius parecerá Sir Brastias, um cavaleiro do duque; e eu tomarei a forma de um cavaleiro chamado Sir Jordanus, também a serviço do duque. Mas cuidado: não façais muitas perguntas a ela nem aos seus homens; dizei apenas que estais indisposto e ide logo para a cama, sem vos levantardes pela manhã até que eu venha ter convosco — pois o castelo de Tintagel fica a apenas dez milhas daqui.” Assim foi feito, conforme haviam planejado.
MALORY, Thomas. A morte de Arthur.
No parágrafo do romance de cavalaria A morte de Arthur, de Thomas Malory, é possível apontar um traço do teocentrismo medieval no seguinte trecho:
A) “Ulfius alegrou-se e cavalgou apressadamente até encontrar o Rei Uther Pendragon”.
B) “O rei prestou então o juramento sobre os Quatro Evangelhos”.
C) “Mas cuidado: não façais muitas perguntas a ela nem aos seus homens”.
D) “[...]; dizei apenas que estais indisposto e ide logo para a cama”.
Resolução:
Alternativa B.
O juramento sobre os Quatro Evangelhos mostra a valorização da religião e a importância que o rei dá a ela, de forma que é um traço teocêntrico, ou seja, a fé predomina sobre a razão.
Questão 2
A prosa medieval é representada por:
I- canções trovadorescas.
II- romances de cavalaria.
III- hagiografias.
Está(ão) correto(s) o(s) item(ns):
A) I apenas.
B) II apenas.
C) III apenas.
D) II e III apenas.
E) I, II e III.
Resolução:
Alternativa D.
A prosa medieval é representada por romances de cavalaria, cronicões, nobiliários e hagiografias. As cantigas trovadorescas fazem parte da lírica medieval.
Fontes
ABAURRE, Maria Luiza M.; PONTARA, Marcela. Literatura: tempos, leitores e leituras. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2021.
ARIAS, Ademir Aparecido de Moraes. Canções de gesta e imagens da realeza: três exemplos. Imagens da Educação, Maringá, v. 2, n. 3, p. 35-44, 2012.
BARBOSA, Mariana de Oliveira Lopes. Inquisição. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/guerras/inquisicao.htm.
COSTA, Edson Tavares. Licenciatura em Letras/ Português: literatura portuguesa. Campina Grande: EDUEPB, 2011.
CRÔNICAS breves e memórias avulsas de S. Cruz de Coimbra. In: HERCULANO, Alexandre. Portugaliae monumenta historica: scriptores. Olisipone: Typis Academicis, 1856.
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LOPES, Marcos Antônio. Explorando um gênero literário: os romances de cavalaria. Tempo, Niterói, v. 16, n. 30, p. 147-165, 2011.
MACHADO, Janer Cristina. De Donzel del Mar a Amadís de Gaula: o nascimento do herói e a narrativa fundadora na novela de cavalaria. Cadernos literários, Rio Grande, v. 24, n. 1, 2016.
MALORY, Thomas. A morte de Arthur. Disponível em: http://www.somanybooks.org/eng205/LeMorteDarthur.pdf.
MONTALVO, Garci Rodríguez de (org.). Amadis de Gaula. Tradução de Graça Videira Lopes. 2007. Disponível em: https://literaturabrasileira.ufsc.br/midias/stream?id=146806.
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SILVA, Daniel Neves. Idade Média. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historiag/idade-media.htm.
SILVA, Marcelo Alves da; PINTO, Renata Soneghetti Cauper. Dois excertos do Terceiro Livro de Linhagens (c.1344) do Pedro Afonso, conde de Barcelos. Medievalis, Rio de Janeiro, v. 11, n. 1, p. 45-67, 2022.