Os anos 1990 foram uma década de profundas transformações políticas, econômicas, culturais e tecnológicas, sendo marcados pelo fim da Guerra Fria, pela globalização, pela expansão da internet e pela consolidação do neoliberalismo, que ajudaram a moldar o mundo contemporâneo. No Brasil, o período presenciou o impeachment de Fernando Collor, a criação do Plano Real e as reformas dos governos Fernando Henrique Cardoso.
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Tópicos deste artigo
- 1 - Resumo sobre os anos 1990
- 2 - Características dos anos 90
- 3 - Política internacional dos anos 1990
- 4 - Política nacional
- 5 - Cultura dos anos 1990
- 6 - Principais acontecimentos dos anos 90
- 7 - Curiosidades sobre os anos 90
Resumo sobre os anos 1990
- Os anos 1990 marcaram a transição para uma nova ordem mundial após o fim da Guerra Fria, com a dissolução da União Soviética e a consolidação dos Estados Unidos como principal potência global.
- A década foi caracterizada pela expansão da globalização, pelo fortalecimento das políticas neoliberais no Brasil e pelo aumento da integração econômica e comercial entre diferentes países.
- Na Europa, podemos destacar a reunificação alemã, a criação da União Europeia e os conflitos decorrentes da desintegração da Iugoslávia, que revelaram tensões étnicas e nacionalistas.
- No Brasil, o período foi marcado pelo impeachment de Fernando Collor, pela implementação do Plano Real e pelas reformas econômicas realizadas durante os governos de Fernando Henrique Cardoso.
- A cultura dos anos 1990 foi influenciada pela expansão dos meios de comunicação, pela crescente circulação internacional de produtos culturais e pela popularização de novas formas de entretenimento.
- A música da década foi marcada pela diversidade de estilos, pela influência da MTV e pela consolidação de gêneros como o grunge, o britpop, o hip-hop, o pagode, o sertanejo e o axé music.
- A moda refletiu a valorização de estilos mais informais e urbanos, com forte influência da cultura pop, do grunge, do hip-hop e das tendências difundidas pela televisão e pela indústria do entretenimento.
- A popularização dos computadores pessoais, da telefonia celular e da internet criou as bases da revolução digital que transformaria a comunicação e o cotidiano no século XXI.
- O cotidiano da década ainda era predominantemente analógico, marcado por fitas cassete, locadoras, câmeras fotográficas com filme, internet discada e hábitos que hoje parecem curiosos para as novas gerações.
Características dos anos 90
Os anos 1990 foram marcados pela sensação de que se entrava em uma nova época histórica, com o fim da Guerra Fria e da bipolaridade entre EUA e União Soviética que marcou o mundo desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Isso porque os dois marcos dessa mudança histórica se deram em 1989, com a Queda do Muro de Berlim, e 1991, com o fim da União Soviética.
No âmbito nacional, essa década marcou o fim definitivo da Ditadura Militar, que comandou o país entre 1964 e 1985, mas que teve como último marco final o ano de 1989, com a eleição do primeiro presidente civil pelo voto popular desde 1960, que foi Fernando Collor de Melo.
Política internacional dos anos 1990
Politicamente, essa foi uma década marcada pela reorganização geopolítica mundial, com a reunificação alemã em 1990 e o aprofundamento da integração entre os países europeus, com o estabelecimento da União Europeia, pelo Tratado de Maastricht, em 1992, e pela criação do euro como moeda única do bloco, em 1999.
Com o colapso da superpotência soviética, os EUA experimentavam um período de virtual hegemonia global e começaram a década com uma guerra contra o Iraque, em 1991, a chamada Guerra do Golfo. Na presidência, estava George H. Bush, pai daquele que seria o presidente norte-americano a atacar novamente o Iraque na década seguinte, George W. Bush.
Política nacional
Politicamente, no Brasil, foi um período de restabelecimento democrático, mas também um período de grande agitação política, que testou a resiliência das nossas jovens instituições democráticas. Foi o período em que o primeiro presidente eleito pelo voto popular desde 1960, Fernando Collor de Melo, seria deposto por um impeachment em 1992.
Seu vice, Itamar Franco, assumiu como presidente e conseguiu debelar um inimigo que sangrava a economia nacional há 15 anos: a hiperinflação. Com a implantação do Plano Real, em 1994, o governo Itamar Franco deu início a uma nova era para a economia nacional, marcada por estabilidade monetária, porém novos desafios em termos de crescimento econômico, desenvolvimento industrial e geração de emprego e renda.
O ministro da Fazenda de Itamar, o professor catedrático Fernando Henrique Cardoso, que tinha lecionado na USP, no Chile, nos EUA e na prestigiada Sorbonne, venceu as eleições no bojo da euforia gerada pelo Plano Real e foi o primeiro presidente a ser reeleito na Nova República, ficando no poder entre 1995 a 2002.
O governo FHC foi marcado por uma agenda que priorizava a estabilidade monetária conquistada com o Plano Real e pela reforma do aparelho estatal e institucional de modo a transicionar do desenvolvimentismo, que marcou o país desde a Era Vargas até o período militar, para uma economia mais pautada na iniciativa privada.
Foi o período das reformas neoliberais de FHC, com privatizações de estatais, redução dos gastos da máquina pública e redução da participação do setor público na economia, não sem grande contestação por parte de intelectuais, acadêmicos e estudantes, que viam nessa mudança de paradigma uma sujeição aos interesses do grande Capital alheios aos interesses populares.
Cultura dos anos 1990
Os anos 1990 foram marcados culturalmente pelo crescimento da influência dos meios de comunicação na vida cotidiana. A televisão, que vinha ganhando espaço nos lares desde a década de 1950, atingiu o apogeu de sua influência. Além disso, foi o período de desenvolvimento, implementação e popularização das tecnologias digitais que iriam transformar a forma como as pessoas se relacionam nas décadas seguintes.
Foi quando a World Wide Web (WWW) foi criada, em março de 1989, pelo cientista britânico Tim Berners-Lee e disponibilizada ao público em agosto de 1991. Foi a década também da popularização da telefonia móvel, que remontava aos anos 1970, mas que só ganharia espaço em todas as classes sociais nos anos 1990.
Foi um período de aceleração dos contatos culturais entre os países, proporcionados pelos novos avanços tecnológicos, com a expansão das redes de televisão internacionais, do cinema, da publicidade e da indústria do entretenimento, permitindo que referências culturais produzidas em determinados países, principalmente nos EUA, alcançassem públicos em escala mundial.
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Música
A música popular internacional nos anos 1990 foi marcada pela ascensão do som alternativo ao grande público e pela globalização de ritmos urbanos e eletrônicos. Entre os estilos predominantes dessa época, podemos destacar o grunge e o rock alternativo no início da década, com ícones da cultura pop noventista como a banda Nirvana.
Mais para a metade da década, temos a explosão do Teen Pop (Pop Adolescente), de grupos vocais como as Spice Girls e os Backstreet Boys. Já para o fim da década, a grande marca é a ascensão do Britpop, com melodias inspiradas nos anos 1960 e foco na identidade cultural britânica, com grupos como Oasis, Blur e Radiohead. Além disso, ícones pop vindos da década anterior, como Michael Jackson e Madonna, continuavam lotando estádios e vendendo milhões de discos. Outros estilos também ganharam espaço nessa década, como o Hip-Hop de nomes como 2Pac e Notorious B.I.G., bem como cantoras do R&B como Mariah Carey e Whitney Houston, então no auge da popularidade desse estilo.
Cabe destacar o papel da MTV nesse período. Esse canal de televisão voltado para a divulgação da música pop encontrou nessa década o ápice de sua audiência e de sua relevância, ditando tendências não só musicais, como visuais e comportamentais. Símbolo dessa força são os álbuns Acústico MTV, que significavam a consagração de artistas chancelados por essa espécie de “curadora” de cultura pop que foi essa tv nessa década.
Em termos de formato de mídia, a década foi marcada pela transição dos LPs (Long Plays de vinil) para os CDs (Compact Discs). Essa mudança de formato inflou o faturamento da indústria fonográfica, que contavam agora com um formato mais barato de produzir, de qualidade técnica superior, e com uma consequente ampliação do mercado consumidor. Foi o raio de sol antes da tempestade que se abateu sobre essa indústria com o surgimento do MP3 e de aplicativos de compartilhamento clandestino de música, como o Napster, que veio nos anos 2000.
No âmbito nacional, a indústria fonográfica dessa década foi marcada pela explosão de ritmos regionais que se tornaram fenômenos comerciais massivos, como o pagode, o sertanejo e o axé music, bem como pela consolidação do rock nacional que vinha dos anos 1980 e pela renovação da MPB, com novos nomes de sucesso nesse estilo que remonta aos anos 1960.
Foi o período de grande sucesso comercial do pagode romântico de grupos como Só Pra Contrariar e Raça Negra, e da quase onipresença do axé music de grupos como É o Tchan, marcados por coreografias populares e letras simples e de grande apelo popular.
Foi também o período de ascensão comercial definitiva do sertanejo romântico, com nomes como Zezé Di Carmargo & Luciano e Leandro & Leonardo vendendo milhões de discos seguidamente. No rock nacional, novas bandas tomaram a dianteira do estilo, com o sucesso de Skank, Raimundos e O Rappa, por exemplo.
Novos nomes da MPB também marcam essa década, renovando e dando novos tons a esse estilo nacional que já vinha dos anos 1960, como Marisa Monte, Lenine, Chico César, Zélia Duncan, Zeca Baleiro e Adriana Calcanhotto.
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Moda
A moda dos anos 1990 foi marcada pela transição da opulência dos anos 1980, com seu estilo Yuppie, com elementos como ternos coloridos com ombreiras salientes, para um estilo marcado pelo minimalismo, despojamento e rebeldia. Foi a década do conforto, do streetwear, da atitude grunge e hip-hop, dos tênis, das camisetas largas, das calças baggy e dos bonés.
A música popular e a MTV ditaram moda nessa década. Do grunge, vieram as camisas de flanela xadrez e jeans rasgados. Do hip-hop vieram as calças baggy extremamente largas, bonés de aba reta, jaquetas bomber e tênis esportivos de cano alto de marcas como Adidas e Nike ou tênis Chunky, esportivos brancos de solado grosso, com meias brancas esticadas na canela.
Do outro lado do espectro musical e estético que marcaram essa época, temos o boom do Teen Pop de grupos como Spice Girls e Backstreet boys, com uma moda atrelada que combinava elementos como botas de plataforma gigante, cores neo, e logos gigantescos de marcas esportivas, como Nike, Adidas e Tommy Hilfiger.
No Brasil, a estética bem-comportada dos grupos de pagode romântico, como Só Pra Contrariar, vai fazer frente ao estilo despojado do rock alternativo dessa década. É uma época em que as tribos urbanas estavam bem marcadas pelo estilo de música e de roupa que consumiam.
No Brasil, há uma apropriação da moda internacional, mas também uma estética própria baseada nos nossos estilos musicais, na nossa cultura e no nosso clima. Essa é a época marcada pelo axé de grupos como É o Tchan. As meninas desse período, que se identificavam com esse estilo musical, costumavam aderir aos shorts jeans curtíssimos de cintura alta das dançarinas desses grupos (os famosos shorts da Carla Perez), combinados com tops “ciganinha” ou croppeds de cores vibrantes.
Essa é a época de popularização dos bonés de times de baseball (como do New York Yankees) e de basquete norte-americanos (como do Chicago Bulls e Los Angeles Lakers), bem como de tênis importados, como Nike Air e Mizuno Wave, que alcançaram o ápice do prestígio nessa época, como reflexo da abertura econômica promovida pelo Plano Real.
Era comum que esses bonés e tênis importados fossem alvo de roubos constantes nas ruas das cidades brasileiras, em proporção comparável ao que hoje acontece com os smartphones nas grandes cidades. É difícil explicar para alguém que não viveu essa época como um boné ou um tênis usado eram causa de assalto a mão armada, mas isso é um sintoma do valor e do investimento que se fazia nesses símbolos de status dos anos 1990 que eram esses objetos importados.
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Esportes
Essa década marca o período de auge da carreira de Michael Jordan, o estadunidense que se tornou o maior jogador de basquete de todos os tempos, tendo o ápice de sua carreira entre os anos de 1987 a 1998, com a conquista de dois "three-peats" (tricampeonatos consecutivos) entre 1991-1993 e 1996-1998 pelo Chicago Bulls. A marca Jordan e Chicago Bulls se tornaram mundialmente conhecidas, e era comum ver jovens brasileiros com pouco interesse em geral em basquete usarem bonés do time como itens de prestígio.
Os anos 1990 marcaram também o auge e o desaparecimento prematuro de um dos maiores heróis do esporte brasileiro: o piloto de Fórmula 1 Ayrton Senna da Silva. Sua importância transcendeu o automobilismo e ele acabou se tornando o maior ídolo esportivo do Brasil, o “país do futebol”, na virada dos anos 1990, sendo campeão três vezes na mais prestigiada categoria do automobilismo: em 1988, em 1990 e em 1991 (McLaren-Honda), todos pela escuderia McLaren.
Sua trajetória foi tragicamente interrompida em 1º de maio de 1994, durante o Grande Prêmio de San Marino, em Ímola, quando uma falha na coluna de direção de sua Williams fez o carro passar reto na curva Tamburello e colidir violentamente contra o muro de proteção. A morte do tricampeão causou uma comoção nacional sem precedentes e deixou um legado enorme de inspiração e determinação para os brasileiros.
Mas o Brasil é chamado de “país do futebol” não à toa: a predileção do nosso povo pelo esporte bretão é reconhecida e essa paixão foi plenamente correspondida na década de 1990. Essa foi a década em que o Brasil se tornou tetracampeão de futebol na Copa do Mundo dos Estados Unidos, de 1994.
Os atacantes Romário e Bebeto protagonizaram uma das mais letais duplas de ataque de todos os tempos e a final foi marcada por um duelo de pênaltis com a Itália que deixou o país todo apreensivo e, depois, em estado de êxtase. Quatro anos depois, ficaríamos em segundo lugar na Copa do Mundo da França.
Apesar de termos lamentando muito a perda do campeonato na final, é um dado objetivo que o futebol brasileiro estava no topo da elite mundial do esporte. Tanto que, logo no campeonato seguinte, na Copa do Japão e Coreia do Sul, de 2002, nossa seleção seria campeã novamente, sendo agora a única pentacampeã mundial de futebol. Ou seja, em 12 anos, dois campeonatos e um vice-campeonato: sem dúvida, uma ótima década para ser brasileiro na época da Copa do Mundo.
Foi na década de 1990 também que o Brasil se apaixonou pelo tênis por conta do carisma e das vitórias épicas do tenista catarinense Gustavo Kuerten, o "Guga", como era chamado. Ele chamou atenção do Brasil e do mundo ao conquistar o prestigiado torneio de Roland Garros, na França, em 1997, sendo ainda um tenista praticamente desconhecido, iniciando aí uma verdadeira "Gugamania" no Brasil.
Ele seria campeão desse torneio mais duas vezes: em 2000 e 2001, entre diversos outros prêmios e campeonatos de grande prestígio. Sua trajetória de sucesso o tornou o maior tenista masculino da história do Brasil e alcançou o posto de número 1 do mundo em 2000.
Principais acontecimentos dos anos 90
- Dissolução da União Soviética, em dezembro de 1991: o desaparecimento da URSS encerrou oficialmente a Guerra Fria e colocou fim à divisão bipolar do mundo que tinha marcado toda a segunda metade do século XX. A partir desse momento, os Estados Unidos passaram a ocupar uma posição de predominância política, econômica e militar no cenário internacional, que é marca dessa década.
- Guerra do Golfo, entre 1990 e 1991: o conflito começou após a invasão do Kuwait pelo Iraque, então governado pelo ditador Saddam Hussein. A resposta militar liderada pelos Estados Unidos contou com amplo apoio internacional e foi vista como uma demonstração da capacidade estadunidense de atuar como potência hegemônica global após o fim da bipolaridade com os soviéticos.
- Formação da União Europeia, em 1992: a criação dessa união se dá em 1992, por meio da assinatura do Tratado de Maastricht, e marcou o aprofundamento da integração regional europeia, processo que remonta à Segunda Guerra.
- Guerra e desintegração da Iugoslávia, entre 1992 e 1995: durante os anos 1990, confrontos envolvendo sérvios, croatas, bósnios e outros grupos antes submetidos à agora extinta Iugoslávia provocaram milhares de mortes, deslocamentos populacionais e episódios de limpeza étnica, tornando-se um dos conflitos mais violentos da Europa desde a Segunda Guerra Mundial.
- Genocídio de Ruanda, em 1994: em poucos meses, cerca de 800 mil pessoas, principalmente da etnia tutsi, foram assassinadas por extremistas hutus nesse país da África Subsaariana, dando origem a uma crise humanitária que marca esse período. O episódio evidenciou os limites da atuação internacional diante de crises humanitárias e se tornou um dos maiores massacres do século XX.
- Criada a Organização Mundial do Comércio (OMC), em 1995: no campo econômico, a década assistiu à expansão da globalização e essa instituição voltada para a regulamentação das relações comerciais internacionais marcou esse processo. O crescimento dos fluxos financeiros, das cadeias produtivas globais e das empresas transnacionais reforçou a integração econômica entre países e continentes.
- Crises financeiras de 1994, 1997 e 1998: os anos 1990 também foram marcados por crises financeiras que demonstraram a vulnerabilidade da economia capitalista globalizada. Entre essas crises, destacaram-se a crise mexicana de 1994, a crise asiática de 1997 e a crise russa de 1998. Esses episódios mostraram que a crescente interdependência econômica podia acelerar tanto o crescimento quanto a propagação de instabilidades econômicas pelo mundo.
- Impeachment do presidente Fernando Collor de Mello, em 1992: no Brasil, um dos acontecimentos mais relevantes da década foi a destituição do primeiro presidente eleito pelo voto popular desde 1960, após graves denúncias de corrupção.
- Criação do Plano Real, em 1994: outro marco fundamental nacional nessa década foi a conquista da estabilidade monetária e de uma nova moeda, por meio de um conjunto de medidas econômicas adotadas que contribuíram para controlar a hiperinflação que afetava o país havia mais de 15 anos. A estabilização monetária transformou profundamente a economia brasileira e influenciou os rumos políticos dos anos seguintes, por mais que tenha deixado desafios em termos como promover um crescimento econômico sustentado, a desigualdade social e um processo crônico de desindustrialização da economia brasileira.
- Neoliberalismo e transformação do Estado brasileiro: durante os governos de Fernando Henrique Cardoso, que vão de 1995 a 2002, foram implementadas reformas econômicas voltadas à abertura dos mercados, às privatizações e à ampliação da participação do capital privado em setores antes controlados pelo Estado. Essas medidas fizeram parte de um contexto internacional de difusão das políticas neoliberais e geraram amplo debate e resistência nos âmbitos acadêmico, político e empresarial.
- Popularização da internet, da telefonia celular e dos computadores pessoais: no campo tecnológico, a expansão da internet representou uma das transformações mais significativas da década, bem como a ampliação do acesso à telefonia móvel e a difusão dos computadores pessoais. Esses recursos, combinados, marcariam uma verdadeira revolução nas comunicações nas décadas seguintes, mas têm suas sementes plantadas na década de 1990. Embora inicialmente restrita a universidades, empresas e grupos específicos de usuários, esses recursos se popularizaram continuamente ao longo do período.
Curiosidades sobre os anos 90
- Os celulares eram enormes e caríssimos: no início da década de 1990, os telefones celulares eram aparelhos grandes, pesados e caros. No Brasil, apenas uma pequena parcela da população possuía um, o que o tornava um símbolo de status social e um artigo de luxo. Ao longo da década, no entanto, os aparelhos foram ficando menores, mais leves e mais baratos, iniciando um processo que levaria à popularização massiva da telefonia móvel nos anos 2000.
- O primeiro smartphone já existia: muitas pessoas acreditam que os smartphones surgiram apenas após o lançamento do iPhone em 2007, por Steve Jobs, da Apple. No entanto, um aparelho considerado o primeiro smartphone comercial foi desenvolvido pela IBM em 1994, era o IBM Simon. Ele já tinha tela sensível ao toque e recursos que, para a época, pareciam extremamente futuristas.
- Havia menos de 3 mil sites no mundo em 1994: hoje em dia, existem bilhões de páginas na internet. Lá em 1994, havia pouco mais de dois mil sites ativos em todo o planeta. Isso significa que, na prática, era possível conhecer uma parcela significativa da internet em poucos dias de navegação.
- As pessoas ficaram morrendo de medo do ano 2000: a aproximação do ano 2000 provocou enorme apreensão porque muitas pessoas acreditavam que os computadores iriam falhar por não reconhecer a mudança de 1999 para 2000, fenômeno técnico conhecido como o "Bug do Milênio". Governos e empresas investiram bilhões para evitar possíveis problemas, que acabaram sendo muito menores do que se temia. Na prática, deu tudo certo e não foi o “apocalipse tecnológico” que muitos apregoaram.
- As locadoras faziam parte da rotina semanal: ir a uma locadora escolher filmes para assistir em casa era um hábito comum. Muitas famílias reservavam uma noite da semana para alugar fitas VHS ou, no fim da década, os DVDs. O atraso na devolução ou a devolução não rebobinada das fitas VHS geravam multas, e encontrar o filme desejado disponível era sempre uma questão de sorte. Levar um superlançamento para casa numa sexta-feira à noite era digno de comemoração.
- Assistir televisão era uma experiência coletiva: O televisor costumava ocupar posição central na vida familiar. Era comum que as casas possuíssem apenas um aparelho, que ficava na sala da casa, onde todos assistiam ao mesmo tempo. Por isso, era comum que toda a família assistisse juntos aos mesmos programas. Em muitos lares, discussões sobre qual programa assistir faziam parte da rotina doméstica e a posse do controle remoto era um ato de poder familiar.
- A TV (e a audiência) era muito menos conservadora e séria que a de hoje: É dessa época a cena de famílias inteiras, de crianças a avós, assistindo juntos ao programa Domingo Legal, no SBT, comandado por Gugu Liberato, que liderava a audiência com a atração “banheira do Gugu”, em que os artistas mais famosos do país ficavam de calção de banho e biquíni numa banheira de espumas competindo por sabonetes. Não raro, essa cena ocorria ao som dos cantos de louvor do Padre Marcelo Rossi, que fazia muito sucesso na época.
- Enciclopédias impressas eram fundamentais para os estudos: Antes da popularização da internet, estudantes recorriam a coleções de enciclopédias para realizar trabalhos escolares. Obras como a Barsa, a Delta e a Mirador, com dezenas de volumes e assuntos catalogados em ordem alfabética, eram vistas como importantes fontes de conhecimento e ocupavam lugar de destaque em muitas residências. Para o leitor da geração Z entender, é como se fosse uma Wikipedia física, impressa em papel. Era comum que as casas tivessem, como livros, apenas uma bíblia, uma lista telefônica e uma coleção da Barsa.
- Revelar fotografias era uma surpresa: as câmeras utilizavam filmes fotográficos. Depois de tirar as fotos, era necessário levar o filme para revelação, um processo que custava caro e que podia demorar dias. Só depois dessa espera, ao recolher os álbuns de fotografias impressas na loja da Kodak ou do Fujioka, que as pessoas descobriam se as imagens tinham ficado boas ou não. Fotos desfocadas, cortadas, mal iluminadas e com os olhos vermelhos por causa do flash eram muito comuns. Por outro lado, as pessoas costumavam ter registros de cada acontecimento importante e cada fase da vida em álbuns bem catalogados e guardados com esmero no fundo do armário, coisa que hoje é bastante raro.
- Esperar uma música tocar no rádio era algo comum: quem gostava de uma música precisava esperar que ela fosse transmitida por uma emissora de rádio ou exibida em programas de televisão. Muitas pessoas deixavam fitas cassete preparadas para gravar suas músicas favoritas quando elas finalmente tocassem na rádio. Isso porque não existiam plataformas de streaming nem a possibilidade de ouvir qualquer música instantaneamente como hoje. Para ter acesso livre às músicas, o ouvinte tinha que comprar o disco, a fita cassete, copiar a fita de um amigo que a tinha, ou esperar pacientemente na rádio ou na MTV a música passar.
- As pessoas decoravam dezenas de números de telefone: hoje em dia, a maioria das pessoas não se lembra de nem um número além do próprio. Hoje normalmente dependemos da agenda do celular para encontrar nossa lista de contatos, até das pessoas mais próximas. Nos anos 1990, era comum memorizar os telefones de familiares, amigos, escola, trabalho e serviços importantes. Muitas pessoas sabiam de cor mais de dez números diferentes. Isso porque era necessário discar número por número nos aparelhos da época e, caso a memória não bastasse, eles eram anotados a lápis ou caneta em uma pequena agenda de telefones que quase todo mundo tinha.
- A internet fazia a linha telefônica ficar ocupada: quem acessava a internet nessa década dependia da linha de telefone física, que era o meio pelo qual a conexão de internet acontecia. Era a famosa internet discada: porque tinha literalmente que discar para o número da provedora de internet. Não havia ainda a infraestrutura de fibras ópticas e cabos exclusivos para a internet que se formou nas duas décadas seguintes. Por isso, enquanto alguém navegava na internet, ninguém mais podia fazer ou receber ligações na casa por aquela linha. Em muitas famílias, isso gerava disputas entre quem queria usar o telefone e quem queria entrar na internet.
- Uma linha de telefone fixo custava o preço de um automóvel: as linhas telefônicas físicas no início dessa década eram caríssimas, custando entre 2.500 e 5.000 dólares. As linhas móveis (telefonia celular), que estavam surgindo nessa época, eram ainda mais caras. Por isso, era comum, em bairros mais pobres, que as pessoas dessem o número do bar da esquina, da padaria ou da casa de um amigo um pouco mais abastado, que se comprometia a anotar os recados de quem ligasse. Com a privatização do sistema Telebrás em julho de 1998 e a abertura de mercado, uma linha de telefone deixou de ser um investimento societário e passou a ser apenas um serviço. Assim, a taxa de instalação despencou para cerca de 20 dólares. Na década seguinte, a instalação se tornou gratuita.
Créditos das imagens
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Fontes
FREIXO, Adriano de; ALVES, Vágner Camilo; ESPOSITO NETO, Tomaz (org.). Os anos 1990: um mundo em transformação. Rio de Janeiro: Autografia, 2016.
GARTON ASH, Timothy. História do presente: ensaios, retratos e despachos da Europa nos anos 1990. Rio de Janeiro: Record, 2001.
REYNOLDS, David. One World Divisible: A Global History Since 1945. 3. ed. New York: W. W. Norton, 2013.