Queísmo é um desvio ligado ao uso da palavra “que” em dois sentidos principais: a repetição exagerada do termo numa mesma frase e o erro de regência, quando falta a preposição exigida antes de “que”.
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Tópicos deste artigo
- 1 - Resumo sobre queísmo
- 2 - O que é queísmo?
- 3 - Como evitar queísmo?
- 4 - Uso do “que”
- 5 - Queísmo na redação
- 6 - Exercícios resolvidos sobre queísmo
Resumo sobre queísmo
- O queísmo é um vício de linguagem, um desvio linguístico ligado ao uso da palavra “que”.
- Pode se referir à repetição exagerada da palavra “que” em uma mesma oração.
- Também se refere a um erro de regência, verbal ou nominal, que ocorre quando falta a preposição exigida antes do “que”.
O que é queísmo?
O queísmo é um termo que se refere a dois tipos de desvios gramaticais envolvendo a palavra “que”: o uso excessivo dessa palavra em uma mesma frase ou o desvio de regência em construções envolvendo o “que”.
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Queísmo como uso exagerado do “que”
Alguns gramáticos usam o termo “queísmo” para se referir aos casos em que, numa mesma frase, a palavra “que” é usada repetidamente. Observe estes exemplos:
Muitos moradores relataram que viram luzes que surgiam no morro que fica atrás do bairro que eles chamam de “Jaguaré”.
Vários clientes acharam que receberiam produtos que chegariam danificados na caixa que viria do depósito que a empresa terceirizou.
Perceba que, em ambos os casos, embora o uso de “que” esteja de acordo com a norma-padrão da língua portuguesa, a palavra é repetida tantas vezes que torna a leitura cansativa, sendo recomendada a substituição do termo onde for possível, para torná-la mais fluida. Mais adiante veremos como evitar essa repetição.
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Queísmo como desvio de regência com a palavra “que”
Outros gramáticos usam o termo “queísmo” para se referir ao desvio de regência envolvendo a ausência (ou presença desnecessária, dependendo do caso) de uma preposição que antecede a palavra “que”.
Veja os exemplos:
A mensagem que nós dois fomos feitos um para o outro não ficou clara?
Essa é a ideia que eu mais acredito!
Nos dois casos ocorre queísmo, devido a um desvio de regência que ocorreu quando foi colocado apenas o “que”, desconsiderando a necessidade de uma preposição antes dessa palavra.
Veja também: O que é considerado um vício de linguagem?
Como evitar queísmo?
Para evitar cada caso de queísmo, é preciso observar a estrutura das orações.
→ Como evitar o uso exagerado do “que”
No caso de uso exagerado, deve-se observar se é possível reestruturar a frase de modo a evitar o uso da palavra “que”. Por exemplo, no exemplo anterior:
Muitos moradores relataram que viram luzes...
Em vez de “relataram que viram”, seria possível usar uma locução verbal:
Muitos moradores relataram terem visto...
Outra observação importante a se fazer é analisar onde é possível substituir o “que” pelos sinônimos “o qual”, “a qual”, “os quais” e “as quais”, usados para evitar a repetição da palavra “que”.
Observe novamente as orações e veja como ficariam reescritas sem o uso excessivo de “que”:
- Exemplo 1:
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Muitos moradores relataram que viram luzes que surgiam no morro que fica atrás do bairro que eles chamam de “Jaguaré”. |
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Muitos moradores relataram terem visto luzes, as quais surgiam no morro que fica atrás do bairro chamado por eles de ‘Jaguaré’. |
- Exemplo 2:
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Vários clientes acharam que receberiam produtos que chegariam danificados na caixa que viria do depósito que a empresa terceirizou. |
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Vários clientes acharam que receberiam produtos danificados na caixa, a qual viria do depósito terceirizado pela empresa. |
→ Como evitar desvio de regência com “que”
Quando se trata de desvio de regência, é preciso prestar atenção ao termo regente, que pode exigir preposição.
Retomando as frases anteriores, veja como ficaria sua escrita correta:
- Exemplo 1:
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A mensagem que nós dois fomos feitos um para o outro não ficou clara? |
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A mensagem de que nós dois fomos feitos um para o outro não ficou clara? |
Observe que foi necessário incluir a preposição “de” antes de “que”, pois a regência nominal da palavra “mensagem” exige o uso dessa preposição, como pediria, por exemplo em “Passei uma mensagem de esperança a todos”.
- Exemplo 2:
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Essa é a ideia que eu mais acredito! |
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Essa é a ideia em que eu mais acredito! |
Aqui foi necessário incluir a preposição “em” antes de “que”, pois a regência verbal, ou seja, a regência do verbo “acreditar” exige essa preposição, como ocorre, por exemplo em “Acredito em poucas coisas”.
Uso do “que”
A palavra “que” pode ter diferentes funções, dependendo do uso.
- Advérbio de intensidade: modifica adjetivos (características) ou verbos (ações) em frases exclamativas. Sinônimo de “muito”.
Que lindo você está!
- Pronome indefinido: refere-se a substantivos de forma vaga ou imprecisa. Sinônimo de “algo”.
Não havia que fazer.
- Pronome interrogativo: fazendo perguntas diretas ou indiretas.
Que horas são?
- Pronome relativo: retomando um termo anterior e ligando orações.
A bolsa que eu comprei é muito bonita.
- Conjunção coordenativa explicativa: une orações independentes. Sinônimo de “porque”, “pois”.
Venha, que estamos esperando você!
- Partícula expletiva: elemento dispensável na frase, mas usado para dar ênfase.
É hoje que a gente resolve isso...
- Substantivo: sinônimo de “algo”, “alguma coisa”. Sempre acentuado.
Ele tinha um quê diferente dos outros...
- Interjeição: formando uma frase isolada que exprime uma emoção ou apelo. Sempre acentuado.
Quê?! Você perdeu a prova?
Queísmo na redação
O queísmo é um desvio considerado nas redações de vestibulares e concursos, e que deve ser evitado. Para isso, é preciso atentar-se às ocorrências da palavra “que”, relendo esses trechos do texto a fim de evitar o uso excessivo dessa palavra em uma mesma oração.
Caso você perceba que a palavra “que” é repetida muitas vezes, verifique a possibilidade de reestruturar a oração e de substituir algumas ocorrências de “que” por “o qual”, “a qual”, “os quais” e “as quais”, conforme o caso. Observe, ainda, se o termo anterior a “que” exige preposição.
Saiba mais: Como evitar a repetição de palavras no texto?
Exercícios resolvidos sobre queísmo
Questão 1 (We Do Serviços - adaptada)
Leia o texto abaixo para responder à questão.
A bola
O pai deu uma bola de presente ao filho. Lembrando o prazer que sentira ao ganhar sua primeira bola do pai. Uma número 5 oficial de couro. Agora não era mais de couro, era de plástico. Mas era uma bola. O garoto agradeceu, desembrulhou a bola e disse “legal”, ou o que os garotos dizem hoje em dia quando gostam do presente ou não querem magoar o velho. Depois começou a girar a bola, à procura de alguma coisa.
— Como é que liga? - Perguntou.
— Como, como é que liga? Não se liga.
O garoto procurou dentro do papel de embrulho.
— Não tem manual de instrução?
O pai começou a desanimar e pensar que os tempos são outros. Que os tempos são decididamente outros.
— Não precisa manual de instrução.
— O que é que ela faz?
— Ela não faz nada, você é que faz coisas com ela.
[...]
Veríssimo, Luis Fernando. A bola. Comédias da vida privada: edição especial para as escolas. Porto Alegre: L&PM, 1996. P. 96-7
Na oração “O que é que ela faz?”, há a repetição do pronome relativo “que”. Trata-se de um problema de coesão textual muito comum, chamado de queísmo.
Assinale a alternativa em que o uso desse pronome está correto e não ocorre problema de coesão textual.
A) Quando o encontrei pedi que me devolvesse o livro que trata de alimentos que são alergênicos que emprestei no dia em que nos vimos pela última vez.
B) A modelo que havia ganhado o concurso que ela tanto queria disse que estava feliz que realizou seu sonho.
C) Que vontade que eu tenho de tirar férias.
D) Viajar de avião é mais confortável do que viajar de carro.
E) Que ótima informação que você acaba de me dar.
Resposta:
Alternativa D. Nessa oração, o uso de “que” não é excessivo nem ocorre desvio de regência. Nas demais alternativas, há uso excessivo e desnecessário da palavra “que”, por isso estão incorretas.
Questão 2 (FURB – Adaptada)
Analise a seguinte manchete:

Disponível em: https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/noticias/2024/05/nao-ha-duvida-que-esses-eventos-extremos-sao-associados-a-mudanca-do-clima-afirma-cientista
A respeito da manchete, analise as afirmações a seguir:
I. Podemos afirmar que há um desvio de regência na manchete.
II. O fenômeno linguístico apresentado na manchete tem se tornado cada vez mais comum e pode ser nomeado como queísmo.
III. O fenômeno linguístico apresentado na manchete tem se tornado cada vez mais comum e pode ser nomeado como dequeísmo.
É correto o que se afirma em:
A) I, II e III.
B) I, apenas.
C) II, apenas.
D) I e II, apenas.
E) I e III, apenas.
Resposta:
Alternativa D. Na manchete, há um desvio de regência devido à falta da preposição “de” antes de “que”. A correção seria: “Não há dúvida de que...”. Assim, ocorre queísmo nesse caso.
Fontes
AZEREDO, José Carlos de. Gramática Houaiss da Língua Portuguesa. São Paulo: Parábola, 2021.
BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 38ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.
CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima Gramática da Língua Portuguesa. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2020.
CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova Gramática do Português Contemporâneo. 7ª ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2016.
MOLLICA, Maria Cecilia. (De)queísmo: variação em conexões intersentenciais. Organon, Porto Alegre, v. 5, n. 18, 1991.
VIBRANOVSKI, Betty. “Queísmo” – o uso exagerado da palavra QUE. Português sem Mistério. 9 nov. 2015. Disponível em: https://portuguessemmisterio.com.br/2015/11/09/queismo-o-uso-exagerado-da-palavra-que/.