Casos de feminicídio geram discussões nos últimos dias; entenda o que é o termo

Especialistas explicam como debates sobre o feminicídio em sala de aula são capazes de identificar casos de violência.

Em 10/12/2025 12h59 , atualizado em 10/12/2025 12h59

Foto de manifestantes com faixa com escrita contra o feminicídio. Texto: título da matéria.
O feminicídio é caracterizado pelo homicídio de mulheres pela condição de gênero.
Crédito da Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Segundo dados da Segurança Pública, foram registrados 718 casos de feminicídio no Brasil, entre os meses de janeiro e junho de 2025, são quatro vítimas por dia nos seis primeiros meses do ano. Já o número de mulheres que declararam terem sofrido violência doméstica e familiar é de 23.632.380, apenas neste ano.

Apesar dos números alarmantes, esses dados não são absolutos. Existe uma subnotificação policial, a pesquisa aponta que 58% de mulheres que sofreram violência em 2025 não procuraram a polícia.

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Os números foram divulgados no Mapa Nacional de Violência de Gênero, uma plataforma com dados públicos oficiais sobre violência contra mulheres. São utilizadas bases do Senado Federal, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e do Sistema Único de Saúde (SUS).

Diante desse cenário, as escolas desempenham um papel fundamental na prevenção da violência ao abrir um espaço seguro para discussão e quebrar uma corrente de silêncio acerca da violência contra a mulher. A autora de História, Filosofia e Sociologia do Sistema de Ensino pH, Ana Paula Aguiar, destaca que essa violência atravessa famílias, bairros, relações afetivas e estruturas sociais e tende a ser visto como episódios “doméstico”, “privado” ou inevitável.

Por meio desse debate é possível identificar sinais de abusos e promover o desenvolvimento de habilidades socioemocionais essenciais. Clarissa Lima, assessora pedagógica da Plataforma Amplia, acrescenta que é por meio da abordagem sobre o feminicídio que são formadas novas gerações mais consciente e comprometidas com o respeito às mulheres e em romper ciclos de violência.

Leia também: Entenda a importância da educação como ferramenta para a equidade de gênero

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O que é feminicídio?

O conceito de feminicídio alcança diversas situações ligadas aos costumes da sociedade patriarcal vigente, que apresenta uma relação de poder entre os gêneros masculino e feminino. Logo, o feminicídio é entendido como a morte de mulheres dentro da ordem patriarcal, muitas vezes realizadas por homens próximos, em sua maioria companheiros, e motivadas por misoginia, desprezo às mulheres e sentimento de posse.

Segundo o Mapa Nacional de Violência do Gênero, 3.815 mulheres foram vítimas de tentativas homicídios, no Brasil, em 2025, enquanto as tentativas de feminicídio foram realizadas contra 1.197 mulheres. A partir dessa diferença de número é possível entender que o feminicídio está intrinsecamente relacionado ao fator do gênero, perpetuado por uma violência estrutural baseado em uma sociedade patriarcal.

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Assim como Clarissa aponta, a discussão em torno do assunto gera o desenvolvimento socioemocional que possibilita a identificação de abusos e violências que resultarão em um feminicídio. A partir da identificação desses abusos esse crime se torna anunciado, que quando bem combatido evita novas mortes.

Saiba mais sobre o Feminicídio.

Ana Paula Aguiar, Clarissa Lima e Isabella Colmanetti Abdalla
Ana Paula Aguiar, Clarissa Lima e Isabella Colmanetti Abdalla, respectivamente.
Crédito: Divulgação.

Combate ao feminicídio em sala de aula

Presentes como um dos principais ambientes de socialização e contato com a diferença, a sala de aula se torna um espaço rico e propulsor de debates. Segundo Isabella Colmanetti Abdalla, coordenadora de redação do Colégio Poliedro de São José dos Campos, é por meio do planejamento de dinâmicas que gerem esse debate que estudantes desenvolvem consciência crítica e contribuem para uma sociedade igualitária.

“Ao entender que homens e mulheres podem ser diferentes em experiências e vivências, mas possuem direitos iguais, os estudantes desenvolvem consciência crítica e podem contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.”  

Isabella Colmanetti Abdalla

Ana Paula ainda aponta que a promoção da educação sobre igualdade de gênero é parte do papel das escolas no combate ao feminicídio. “A escola ajuda a desconstruir estereótipos e contribui para que meninos e meninas desenvolvam valores de respeito, empatia e responsabilidade social”, comenta a autora.

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Para além do papel de produção de conhecimento, as escolas também contribuem na ruptura de padrões culturais que historicamente legitimam a desigualdade de gênero entre homens e mulheres, defende Clarissa. A assessora aponta que esses ambientes são espaços de acolhimento de proteção, “ educadores e educadoras podem observar sinais de sofrimento, orientar sobre redes de apoio e garantir que crianças e adolescentes saibam identificar canais de denúncia”.

Veja também: Especialistas refletem sobre a importância das mulheres na educação, cultura e cargos de liderança

O que estudar sobre feminicídio?

A compreensão das raízes históricas e sociais do feminicídio pode ser desenvolvida por meio das Ciências Humanas, a partir disso, Ana Paula aponta que é possível romper com a ideia de que o feminicídio é um problema isolado e individual. A autora acrescenta que estudar as ondas do feminismo é uma forma de compreender a luta das mulheres pelo reconhecimento das opressões que haviam sido naturalizadas ao longo do tempo.

“Falar sobre feminicídio, portanto, é dar continuidade a essa luta por direitos, reconhecimento e dignidade, reforçando que a educação tem papel central na construção de uma sociedade mais justa e igualitária.”

Ana Paula Aguiar

Clarissa defende a contextualização do feminicídio em diferentes áreas de conhecimento, estruturado em perspectivas interseccional e antirracista. “Isso significa compreender que o machismo, o racismo e o patriarcado se entrelaçam na produção da violência contra as mulheres”, explica ela.

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A pedagoga destaca a importância de debater também “desigualdades estruturais, racismo institucional e a forma como a sociedade historicamente desvaloriza vidas negras e femininas”. Já que ela apresenta que segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mulheres negras representam um maior percentual das vítimas de feminicídio.

Clarissa ainda apresenta propostas interdisciplinares de como trabalhar o tema em sala de aula, confira:

  • História: analisar a construção social da mulher ao longo do tempo, o legado do patriarcado, o impacto da escravização e a resistência de mulheres negras;

  • Geografia: estudar os territórios onde a violência é mais intensa, relações entre urbanização, pobreza e vulnerabilidade;

  • Sociologia: compreender a violência de gênero como fenômeno social, discutir papéis sociais e relações de poder;

  • Língua Portuguesa e Artes: analisar narrativas, obras literárias, músicas e produções culturais que abordam mulheres como sujeitas de direitos;

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  • Ciências e Matemática: trabalhar dados estatísticos sobre feminicídio, desigualdade salarial, representatividade nas áreas STEM, destacando trajetórias de cientistas mulheres frequentemente invisibilizadas.

É essencial que os estudantes estejam no centro do debate sobre o feminicídio, para estimular o desenvolvimento só senso crítico com os alunos, Isabella propõe três temas de redação que tratam problemas relacionados ao feminicídio:

  • A persistência da violência de gênero como entrave à igualdade no país;

  • Desafios para o enfrentamento ao feminicídio no Brasil;

  • A influência da machosfera na construção da masculinidade.

A plataforma de correção de redações do Brasil Escola, o Corrige Aqui também tem uma sufgestão de tema sobre o feminicídio. Ainda é possível enviar textos com essa proposta para correção na página da ferramenta. Confira o tema:

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  • Feminicídio no Brasil: um debate importante sobre a violência contra a mulher.

Entenda mais sobre as ondas do feminismo.

Assista ao episódio do podcast do Brasil Escola sobre feminismo:

 

Por Jade Vieira
Jornalista