Revolta das Barcas em Niterói, 1959

Deflagrada contra a péssima situação dos transportes na Baía de Guanabara, a Revolta das Barcas levou à destruição das embarcações, das estações e sede da empresa.

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Em uma sociedade urbanizada, os transportes públicos exercem uma função fundamental no deslocamento da população (principalmente trabalhadora) pela cidade para acessar os locais de trabalho e moradia, bem como os espaços onde são oferecidos serviços públicos, como os educacionais, de saúde e de lazer. Porém, o controle exercido por empresas sobre esse tipo de transporte levou constantemente à irrupção de revoltas tanto contra os preços cobrados quanto contra a qualidade oferecida pelos serviços. Nesse contexto ocorreu na cidade de Niterói, em 1959, a Revolta das Barcas.

Com a crescente urbanização da antiga capital da República – o Rio de Janeiro, cada vez mais se fazia necessário o transporte pela Baía de Guanabara da população trabalhadora que habitava Niterói, mas trabalhava na capital. O transporte pelas barcas na Baía de Guanabara era controlado por empresas privadas desde meados do século XIX. A partir de 1953, as empresas Companhia Cantareira e Viação Fluminense, que controlavam o transporte aquaviário, passaram a ser administradas pela Frota Barreto S/A, pertencente ao Grupo Carreteiro.

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Apesar de conseguir diminuir o tempo de travessia entre as duas cidades com a modernização dos serviços, o Grupo Carreteiro passou a cobrar um valor cada vez maior pela tarifa do transporte. Também eram constantes os atrasos e a superlotação nas barcas. Ao mesmo tempo, o Grupo Carreteiro pedia constantemente o aumento de subsídios por parte das instituições estatais para poder manter viável economicamente a prestação do serviço de transporte coletivo. Porém, para a população era visível o enriquecimento da família Carreteiro através da exploração do transporte na Baía da Guanabara. A construção de uma mansão em Niterói, a posse de fazendas na região, além da ostentação da riqueza, deixaram a população com uma crescente indignação.

A situação chegou ao ápice em maio de 1959. Em um contexto de inúmeras greves que ocorriam nos principais centros urbanos do Brasil contra as péssimas condições de vida e de trabalho, os marítimos (trabalhadores do transporte aquaviário) estavam em conflito com o Grupo Carreteiro, pois o grupo não queria pagar o aumento salarial estipulado pelo governo. Em início de maio, o Grupo Carreteiro recusou-se a pagar os salários dos marítimos. Frente a essa situação, o sindicato dos marítimos deflagrou uma greve na madrugada do dia 22 de maio de 1959. Os fuzileiros navais foram solicitados para organizar o embarque da população nas barcas que estavam sendo disponibilizadas pela Marinha.

Como as barcas não comportavam a população que necessitava do transporte (cerca de 100 mil pessoas por dia), uma grande aglomeração de pessoas formou-se na estação Cantareira, em Niterói. Ao tentar organizar as filas de embarque, os fuzileiros navais passaram a usar da truculência com as pessoas que estavam na estação. Algumas pedras foram arremessadas contra os fuzileiros que responderam com rajadas de metralhadoras.

A partir daí, a revolta da população alastrou-se. As barcas foram atacadas e depredadas, a Estação Cantareira foi incendiada. De lá os manifestantes deslocaram-se para a sede da empresa, onde móveis e documentos foram incendiados na rua. Mas a revolta popular não se conteve nesse local. A três quilômetros do escritório da empresa, ficava a mansão da família Carreteiro. Os manifestantes deslocaram-se para o local e invadiram a mansão. Móveis de luxo foram arremessados à rua e destruídos. Objetos de valor da família foram saqueados. Por fim, a mansão foi incendiada. Mesmo com a destruição, ainda foi possível encontrar em uma das paredes da mansão a seguinte inscrição: “aqui jaz as fortunas do Grupo Carreteiro, acumuladas com o sacrifício do povo”. ²

Segundo Maria da Conceição Vicente de Almeida, utilizando a análise de Roberto DaMatta, o que houve também foi uma espécie de carnavalização da revolta, pois ao adentrarem na residência dos Carreteiros, os manifestantes usaram as joias, roupas e perfumes das mulheres dos empresários, carregando na atitude um simbolismo da luta contra o grupo que, naquele momento, representava ser o inimigo do povo. Nessa carnavalização, o povo ridicularizou e usufruiu, mesmo que momentaneamente, do luxo adquirido em um curto período de tempo pelos empresários das barcas.

Após esse episódio, o sistema de transporte pela Baía de Guanabara foi transferido para o controle estatal. O saldo da revolta teve, além dos danos materiais, seis mortos e mais de 100 feridos.

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¹ Crédito da Imagem: Odyr Amorim / Agência JB, publicada em “Testemunha Ocular", editado em 1981 pelo Círculo do Livro.

² ALMEIDA, M. C. V. de. Cidade, política e memória. O quebra-quebra das barcas em Niterói. ANPUH – XXIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Londrina, 2005. Disponível em: http://anpuh.org/anais/wpcontent/uploads/mp/pdf/ANPUH.S23.0697.pdf


Por Tales Pinto
Graduado em História

Incêndio na Estação das Barcas em Niterói.¹
Incêndio na Estação das Barcas em Niterói.¹
Escritor do artigo
Escrito por: Tales dos Santos Pinto Professor de História.
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PINTO, Tales dos Santos. "Revolta das Barcas em Niterói, 1959"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historiab/revolta-das-barcas-niteroi-1959.htm. Acesso em 13 de maio de 2026.
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