Código Militar do Exército Vermelho

Guerras

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Durante a Segunda Guerra Mundial, exércitos de variadas formações encontraram-se no fronte de batalha. Nos enfrentamentos, rendições, interrogatórios, alianças e todas as demais formas de relação entre um exército e outro, era possível constatar as diferenças de comportamento e disciplina militar. Nos exércitos dos países onde vigiam os regimes totalitários, como a Itália, a Alemanha, o Japão e a URSS, o código disciplinar, ao contrário do que ocorria nas forças armadas dos países das democracias ocidentais, não havia uma estrutura disciplinar baseada na confiança entre os soldados e os seus superiores. Havia o estímulo à competição predatória, à delação e ao medo.

No caso específico do Exército Vermelho – que, de “braço armado” (conduzido por Trótski) da Revolução Russa, de 1917, tornou-se a instituição militar da URSS –, o processo disciplinar derivado de seu Código Militar foi um dos mais rigorosos e desumanos da história do século XX. Quando a guerra teve início, a NKVD, polícia política da URSS, começou a supervisionar oficiais e soldados do Exército Vermelho nos campos de batalha. A função da NKVD consistia em promover uma disciplina baseada no medo da sentença de morte, sentença essa que era aplicada àqueles que se mostrassem pouco engajados e comprometidos com o ideário comunista ou, ainda, manifestassem inclinação à deserção.

Para promover esse modo disciplinar, a NKVD estimulava a prática da delação entre os próprios membros de um batalhão ou de uma companhia. Sendo assim, os soldados vigiavam-se uns aos outros na esperança de descobrir alguma falha do companheiro e denunciá-lo ao seu superior a fim de agradá-lo. Os soldados que possuíssem um histórico de tentativas de deserção ou algo semelhante ou que tivessem sido recrutados entre criminosos eram postos nas primeiras filas de combate. Geralmente, eram os primeiros a morrer e, morrendo, segundo a retórica da NKVD, eram “eximidos” da desonra de terem “cometido erros”.

O Código Militar soviético foi formalizado em 1939. Além da prática descrita no parágrafo anterior, somavam-se aos procedimentos do código as ordens acrescidas por Stalin ao longo da guerra. Uma das mais famosas foi a Ordem 227, que entrou em vigor em 1942, na ocasião da invasão nazista à União Soviética. Essa ordem previa a “inflexibilidade táctica”, isto é, os soldados não poderiam recuar das batalhas de forma alguma. Se o fizessem, eram mortos pelos oficiais de seus próprio exército. A Ordem 227 ficou conhecida também pela expressão “Nenhum passo atrás”. Houve ainda a Ordem 270, que se tornou também uma das mais emblemáticas. Essa ordem ficou conhecida como “Princípio de responsabilidade familiar” e tinha duas resoluções, segundo o historiador Norman Davis:

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1.Qualquer indivíduo que retire a sua insígnia durante a batalha e se rende deve ser encarado como um desertor desprezível, e a sua família deve ser detida como a família de uma pessoa que quebrou o seu juramente e traiu a sua Pátria. Tais desertores devem ser mortos no local.

2.Aqueles que se vejam cercados devem combater até ao fim e tentar regressar às suas linhas. Aqueles que preferirem render-se devem ser eliminados por quaisquer meios, e as suas famílias ver-se-ão privadas dos subsídios e da assistência e do Estado”. [1]

Como se percebe, a família do soldado que apresentasse um comportamento reticente ou incompatível com os padrões disciplinares soviéticos também sofria penalidades. A quantidade de soldados soviéticos que foram imolados pelos próprios membros do Exército Vermelho, sob ordens da NKVD e do próprio Stalin, foi altíssima, como destaca, também, o historiador Norman Davis:

Um relatório do período crítico de 1941-42 menciona 790.000 sentenças de mortes, das quais cerca de 200.000 foram cumpridas. Outro relatório de Estalinegrado afirma que 15.000 homens do Exército Vermelho foram executadas pela NKVD só nessa batalha. Ao que parece, as perdas autoinfligidas do Exército Vermelho excederam o número total de mortes em combates sofridas pelos exércitos britânico e americano juntos.[2]

NOTAS

[1] DAVIS, Norman. A Europa em Guerra (1939-145). Lisboa: Edições 70, 2008. p. 260-61.

[2] Idem. p. 261.


Por Me. Cláudio Fernandes

Insígnia do Exército Vermelho
Insígnia do Exército Vermelho

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FERNANDES, Cláudio. "Código Militar do Exército Vermelho"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/guerras/codigo-militar-exercito-vermelho.htm. Acesso em 28 de novembro de 2020.