Em meio ao Cerrado, pesquisador percorre mais de mil quilômetros para estudar trilhas no bioma

O geógrafo Diego Mendonça mostrou que é possível fazer ciência em movimento e fora do espaço convencional

Em 21/05/2026 18h17 , atualizado em 21/05/2026 18h31

Diego pedalando em estrada de chão acena para motorista de ônibus escolar
Geógrafo pedala por 15 dias para fazer pesquisa de doutorado sobre trilhas no Cerrado.
Crédito da Imagem: Foto - Arquivo Pessoal
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Já imaginou fazer uma pesquisa científica enquanto anda de bicicleta em meio ao Cerrado? Essa aventura faz parte do estudo realizado pelo geógrafo Diego Mendonça.

Ao longo de 15 dias, o pesquisador que cursa o Doutorado em Geografia pela Universidade Federal de Goiás (UFG), percorreu 1.060 quilômetros de bicicleta entre a histórica Cidade de Goiás e o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.

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Sua intenção foi investigar como as trilhas de longo curso podem contribuir para a conservação do Cerrado e a permanência de povos tradicionais.

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Laboratório de pesquisa em movimento e ao ar livre

A aventura de Diego foi realizada entre os dias 8 e 22 de dezembro de 2025. O trajeto que ele fez conecta quatro importantes tilhas: o Caminho dos Veadeiros, a Rota do Rio Areias, os Caminhos do Planalto Central e o Caminho de Cora Coralina.

Segundo o geógrafo, foi preciso muito planejamento para a logística do percurso. Ele precisou se organizar para camping, alimentação, água, manunteção da bicicleta, equipamentos eletrônicos, além dos equipamentos utilizados no trabalho de campo, tais como drone, GPS e o bom e velho caderno de anotações.

Em seu mestrado, o estudante pesquisou o Caminho de Cora Coralina, fazendo quatro cicloviagens pela trilha. Sua maior cicloviagem resultou no documentário intitulado 456 dias: Uma viagem de bicicleta pelo Brasil.

Sobre o trecho do Caminho de Cora, Diego conta que é o trajeto é muito técnico para a bicicleta, "tem muita serra, muito single track, locais onde passa somente uma bicicleta por vez, os famosos trieiros de vaca, o terreno também exige muito do ciclista, com muitos trechos de cascalho".

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Chapada dos Veadeiros
A Chapada dos Veadeiros foi uma das regiões visitadas no estudo de trilhas do geógrafo.
Crédito: Marcelo Camargo / Agência Brasil.

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Velocidade da percepção

O pesquisador enfatiza que a bicicleta é um meio de locomoção que permite a chamada "velocidade da percepção". Enquanto o carro provoca um isolamento entre o viajante e a realidade local, ou a caminha que limita o alcance geográfico, com a bicicleta é possível fazer grandes distâncias e ao mesmo tempo permitir a permeabilidade social.

"O carro passa rápido demais, ignorando paisagens e pessoas. A bicicleta tem o ritmo ideal. Ela desperta curiosidade e um encantamento nas comunidades, o que facilita o contato e as entrevistas necessárias para a pesquisa"

Além disso, para Diego, o viajante de bike tem uma boa aceitação ao passar pelos lugares. O fato do ciclista passar pelos locais desperta a curiosidade das pessoas que vivem por ali e a recepção costuma ser positiva. A aceitação pela figura do cicloviajante permite o contato com as pessoas, proporcionando trocas.

Com isso, durante o trajeto, a interação com os moradores locais marcou sua percepção sobre a utilidade da trilha.

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No povoado de Capela, distrito de Cavalcante, foi recebido por Adriana, que é uma moradora acostumada a receber ciclistas e caminhantes em sua casa. "Ela tem um espaço para camping na frente de sua casa, mas como estava chovendo muito, ela deixou montarmos as barracas na sua varanda", conta.

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Diego pedalando durante pesquisa
Diego Mendonça pedalando durante pesquisa de doutorado.
Crédito: Arquivo Pessoal.

Trilha e a conservação da biodiversidade

Segundo Diego, trilhas como a do Caminho dos Goyazes são um instrumento de conservação da biodiversidade e da conectividade de paisagens. O trajeto possibilita uma integração institucional, que envolve gestores, voluntários, entusiastas, pesquisadores e diferentes intituições permitindo o intercâmbio de experiências entre as unidades de conservação. 

Para o pesquisador, é possível visualizar a criação de corredores ecológicos a partir da ligação entre as trilhas, incentivando ações e parceiras com as unidades de conservação.

"A agropecuária intensiva é bastante presente por todo o caminho, vemos também o impacto da mineração em alguns pontos, a urbanização também preocupa em alguns lugares, assim como os empreendimentos turísticos, especialmente na Chapada dos Veadeiros e em Pirenópolis"

A trilha se destaca como uma alternativa, quando planejada e pensando em conjunto de forma coletiva com as pessoas que vivem ao longo do percurso, pode auxiliar para reduzir os impactos ambientais na região. No entanto, se não for planejada, pode se somar às problemáticas.

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"As pessoas que percorrem o caminho precisam, principalmente, de alimentação e hospedagem, utilizando também serviços como transporte, guias de turismo e diversos outros serviços relacionados ao turismo. Isso faz com que exista a possibilidade de geração de renda em outros locais menos conhecidos"

Segundo Diego, o Caminho dos Goyazes tem capácidade de se tornar uma referência internacional como é o caso dos percursos de Appalachian Trail (Estados Unidos) e o Caminho de Santiago (Espanha).

Ele justifica a afirmação levando em consideração que a trilha goiana contempla locais de significativa importância natural e cultural, como dois Patrimônios Culturais da Humanidade (Cidade de Goiás e Brasília) e um Patrimônio Natural da Humanidade (Chapada dos Veadeiros).

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