Em meio às constantes transformações na educação, em que medida o processo de ensino e aprendizagem é reconfigurado? Essa foi a pergunta que abriu a conversa exclusiva do Brasil Escola com Mario Sergio Cortella, filósofo contemporâneo de destaque nacional.
É preciso, para o professor de Filosofia, separar em educação aquilo que é novo daquilo que é mera novidade. Há elementos dentro do processo de escolarização que são mera novidade, o que chega, faz algum tipo de estrondo e depois se retira, sem introduzir mudanças que fossem significativas, afirma.
Segundo Cortella, o que é novo é o que vem e renova, reinventa, cria e permanece. Ele exemplifica, uma aula expositiva é nova, não é uma novidade. Tal como a atenção às alunas e aos alunos e atenção ao conteúdo (não o conteudismo).
Com isso, o filósofo enfatiza que é preciso separar aquilo que é tradicional do que é arcaico. Ele explica que o arcaico é o que não tem mais lugar, como é o caso de alguns tipos de metodologias, formas de avaliação e, muitas vezes, a relação com a comunidade escolar. Já o tradicional é aquilo que, tendo aparecido uma vez, permanece no tempo.
Mario Sergio Cortella é natural de Londrina (PR), formou-se em Filosofia e fez o Mestrado e Doutorado em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Publicou mais de 50 livros e conta com mais de 10 milhões de seguidores em suas redes sociais.
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Tópicos desta notícia
- 1 - Transformações na educação
- 2 - Como preservar o senso crítico em meio às IAs generativas?
- 3 - Como você quer ser lembrado?
Transformações na educação
Cortella menciona que a primeira forma de ensino a distância, de tecnologia que era desplugada do cotidiano, foi o livro, seja em forma de papel, de papiro ou de pergaminho. "Isto é uma forma de fazer com que as pessoas tivessem em mãos algo que, fazendo parte do processo, pudesse colaborar para que, fora daquela situação imediata, se pudesse ter ali um aprendizado."
Nos últimos anos, ocorreu uma mudança vultosa do tipo de plataforma e do tipo de suporte, considera o filósofo.
"Agora temos a chegada em cena de uma tecnologia que não é substitutiva, ela é complementar. Nós vivemos tempos de convergência, e não de exclusão."
Mario Sergio Cortella
Em relação à inserção das novas tecnologias no processo educacional, Mario Sergio Cortella afirma que a sedução das novas formas daquilo que chega até nós precisa ser olhada com um olhar crítico.
Nesse cenário, ele cita duas situações que acontecem. A informatolatria, que é adoração ao mundo digital, e a informatofobia, que é o pânico em relação àquilo que está chegando.
"Não é a tecnologia que moderniza a cabeça de uma pessoa; uma cabeça moderna é que não recusa a tecnologia quando ela é necessária. E ela não é necessária o tempo todo."
Mario Sergio Cortella
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Ele exemplificou no caso de uma palestra. Ele fala durante 40 minutos sem utilizar nenhuma tecnologia, "exceto a mais avançada forma da capacidade humana, que é o cérebro de cada pessoa".
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Como preservar o senso crítico em meio às IAs generativas?
Cortella lembra que René Descartes introduziu no século XVII a dúvida metódica, um princípio forte para o pensamento crítico.
Essa não é dúvida que duvida por insolência, por desprezo ou por mera negação, mas uma dúvida que busca uma certeza mais sólida, conta o filósofo.
Nesse sentido, ao responder como preservar o senso crítico em meio a tecnologias como as inteligências artificiais generativas, ele enfatiza que nós temos que andar no bolso, na cabeça e na mão com algo que, quando alguém nos diz alguma coisa, a gente pense: "será?". Não um 'será' por mera dúvida, mas um 'será' para consolidar a certeza.
"A tecnologia que hoje temos é extremamente sedutora, mas a gente não pode ter com ela uma relação ingênua, uma relação inocente. Afinal de contas, nenhum de nós esquece que, no cotidiano, há uma série de ilusionismos que a tecnologia também carrega. O quanto ela pode ser condutora de benefício ou de malefício?"
Anuncie aquiMario Sergio Cortella
Crédito: Alexandre Tsuneta.
O professor explica que o pensamento crítico é aquele que separa. A origem da palavra "crítica" vem da agricultura, kriterion, no grego antigo, era separar: o arroz da palha, ou o feijão da pedra, o trigo do joio". Ou seja, o pensamento crítico é aquele que separa o que serve e o que não serve, o que guarda veracidade e aquilo que precisa ser colocado sob suspeita.
"Evidentemente que o 'será' não pode ser permanente, senão não se age, mas ele tem que estar presente no cotidiano para que a gente não caia no que os gregos chamavam de Quimera, que era aquela fantasia monstruosa", completa.
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Como você quer ser lembrado?
"Como você quer ser lembrado?", essa foi a questão norteadora da fala de Mario Sergio Cortella durante o Arco Day, evento realizado pela Arco Educação, maior empresa do ramo educacional de educação básica da América Latina.
Para uma plateia com cerca de dois mil profissionais da educação, gestores e educadores, ele provocou ao questionar "quais escolhas você está fazendo hoje que vão fazer você ser lembrado?".
A palestra conduziu também a reflexão sobre as tecnologias no campo educacional. Para Cortella, as escolhas que fazemos agora moldam o legado que deixaremos para as próximas gerações."O futuro não é um lugar para onde vamos. É algo que começamos a construir hoje."
Segundo Cortella, em um mundo marcado por constantes transformações, educar exige coragem para renovar, aprender e seguir em frente.
"Afinal, os alunos mudaram, os desafios mudaram e a escola também precisa evoluir."
Mario Sergio Cortella
Crédito: Aline Ramos.
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Por Lucas Afonso
Jornalista