Aspectos Afetivos da Alimentação Infantil

A fome é a primeira necessidade do bebê. Saciada pelo seio materno, cria, quase que instantaneamente, um vínculo importante na relação da criança com o mundo. Em razão disso, a alimentação infantil exige atenção.

É a partir da forma como o desejo da criança pela alimentação é saciado que ela estabelece suas primeiras relações com a vida fora do útero. A importância desse momento fez com que inúmeros autores se debruçassem sobre ele.

Alimentação e afetividade

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Suprir as necessidades de nutrientes não é a única tarefa da alimentação infantil. Nas fases iniciais do desenvolvimento é pela boca que a criança conhece o mundo. Através da alimentação a criança conhece sabores, texturas e sensações, mas também conhece emoções e sentimentos ligados a cada momento de alimentar-se. Quando a criança tem fome, é tomada por um forte desconforto. Ao ser alimentada, a criança sente não apenas o fim da fome, mas o prazer de encerrar o desconforto que a fome lhe causava.

Quais as consequências de uma amamentação problemática?

Muitos relatos clínicos atribuem às falhas na amamentação problemas posteriores, como transtornos alimentares. Mas não é só isso. É interessante notar que os mesmos artigos que propõem a importância da alimentação nas fases iniciais também tratam de problemas como sociabilidade e comprometimento social. Isso é significativo em mostrar a importância emocional da alimentação infantil, ou seja, não apenas como questão nutritiva, mas de relação com o outro.

Uma criança não amamentada ou cuja mãe apresentou sintomas de rejeição, depressão pós-parto, entre outros problemas, pode estabelecer formas problemáticas de se relacionar com o mundo. Ela pode entender, por exemplo, que sua alimentação tenha sido um fardo para a mãe e que, portanto, seu prazer implica no desprazer da mãe. Em outros casos, a apatia da mãe nos momentos da amamentação pode desvincular o prazer da relação com o outro. Nesses casos, podem ser gerados muitos problemas de relacionamento no futuro dessa criança.

Alimentação e Fase Oral

Para Freud, por exemplo, os momentos iniciais da relação com o mundo são tão importantes que ele denominou a fase inicial do desenvolvimento de Fase Oral. Como dissemos, esse momento delimita a fase em que a criança se relaciona com o mundo através da boca. Isso porque, nesse momento, a maior parte das necessidades da criança está concentrada na porção superior do trato digestivo. A boca se torna, portanto, o primeiro lugar de concentração de libido da criança. É pela boca que ela suga, chora, sorri e morde.

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Sugar e morder

A Fase Oral se divide em dois momentos: o primeiro de sucção e canibalismo. Para alguns autores, a criança, num primeiro momento, estabelece com o mundo uma relação de absorção dos estímulos. Nesse momento, o prazer é assegurado justamente pelo sugar.

Num segundo momento, a criança passa a morder, triturar antes de incorporar. Aqui a criança está desenvolvendo sentimentos negativos e está lidando com a insatisfação ou a demora na ligação entre desprazer e satisfação. Isso acontece no momento em que o tempo entre a fome e a satisfação vai aumentando.

A fase oral se prolonga por alguns anos. É comum, por exemplo, em berçários ou creches que as crianças mordam umas às outras. Isso porque essa ainda é a forma primordial de relacionamento dessas crianças com o outro, através da boca. Morder o outro implica muitas vezes em entrar em contato com o desprazer desse outro. O choro, o grito e o medo do outro, mostram à criança que existe um outro que ela não pode incorporar completamente através da via oral e então percebe que precisa de outras formas de relacionar-se com o mundo.

Alimentação Infantil e publicidade

É importante destacar que, assim como as relações familiares tem interferência afetiva nos hábitos alimentares das crianças, outras instituições também influenciam na relação que a criança estabelece com os alimentos. A cultura, por exemplo, define o cardápio de todos nós, desde os nossos primeiros anos de vida.

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Ao longo dos anos, estamos vendo surgir inúmeras crianças com problemas de alimentação. Recusam-se a comer determinados alimentos ou a estabelecer rotinas de alimentação adequadas. Isso tem relação com a forma como inicialmente foi estabelecida a relação com o alimento, mas não é só isso. Agem, sobre a criança, inúmeros outros educadores: os amigos, a mídia, a escola, a religião entre outros.

Nos dias atuais, as crianças têm sido bombardeadas pela publicidade em torno da questão alimentícia. Entre as estratégias mais perigosas está o hábito de relacionar alimentação infantil e diversão. O problema é que, na maioria das vezes, a diversão não está aliada a produtos saudáveis. É importante que os pais estejam atentos à influência da publicidade sobre a alimentação de seus filhos, para que eles não sejam “deseducados”. Atentar-se para a educação alimentar de seus filhos é garantir que a relação de alimentação e prazer construídas nos primeiros meses, pela relação mãe e filho, não perca espaço para a interferência violenta da mídia nos hábitos humanos.

Como saber mais?

Alguns filmes e documentários proporcionam discussões de qualidade acerca da questão da educação alimentar infantil. Entre eles, o filme “Maus Hábitos” (Malos Habitos, México, 2007), apresenta de forma extremamente interessante a relação entre alimentação e aspectos emocionais. Já o documentário “Muito Além do Peso”, lançado pela Maria Farinha Filmes, em parceria com o Instituto Alana, ilustra a relação que as crianças estabelecem com o alimento a partir da influência da mídia.


Juliana Spinelli Ferrari
Colaboradora Brasil Escola

A apatia da mãe nos momentos da amamentação pode gerar problemas de relacionamento no futuro da criança
A apatia da mãe nos momentos da amamentação pode gerar problemas de relacionamento no futuro da criança
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ESCOLA, Brasil. Aspectos Afetivos da Alimentação Infantil. Brasil Escola, 2026. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/psicologia/apectos-afetivos-alimentacao-infantil.htm. Acesso em 26 de setembro de 2026.