A história do teatro mostra que essa forma de expressão artística surgiu gradualmente na Pré-História, a partir de rituais coletivos e da necessidade humana de representação. O teatro foi sistematizado na Grécia Antiga, tornando-se um dos principais legados culturais da Grécia para o Ocidente. Ao longo da história, passou por transformações em diferentes períodos, como na Roma Antiga, na Idade Média, no Renascimento e na modernidade, assumindo diversas funções sociais, estéticas e políticas. Atualmente, reúne múltiplas linguagens e permanece como uma arte viva, baseada na interação direta entre atores e público.
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O teatro não foi inventado por uma pessoa específica, ele surgiu gradualmente a partir de práticas coletivas relacionadas a rituais religiosos e manifestações culturais das sociedades antigas. As fontes arqueológicas apontam para o fato de que as origens dos elementos presentes no teatro estão ligadas a cerimônias simbólicas realizadas por comunidades humanas muito antigas, anteriores ao surgimento da escrita (Pré-História), com grupos que encenavam mitos, caçadas e outros eventos importantes por meio de gestos, danças, cantos e uso de máscaras. Essas representações tinham funções religiosas, sociais e pedagógicas, sendo formas de transmitir conhecimentos e valores daquelas coletividades.
No entanto, o teatro como conhecemos foi sistematizado na Grécia Antiga, assumindo uma forma mais organizada e reconhecível como arte dramática específica, entre os séculos VI a.C. e V a.C. O teatro grego se desenvolveu a partir de festivais religiosos dedicados ao deus Dionísio, realizados na pólis de Atenas. Nessas celebrações, chamadas Dionisíacas, surgiram as primeiras formas estruturadas de drama, contando com atores, enredo, coro e espaço cênico definido. É por isso que se costuma dizer corretamente que o teatro é um dos legados gregos para a civilização ocidental, ao lado da democracia e da filosofia.
Os elementos do teatro, em suas formas mais incipientes, remontam ao período da Pré-História, muito antes do surgimento das primeiras civilizações organizadas e da escrita, que se consolidam por volta de 2.500 a.C. na Mesopotâmia. Nesse período, o teatro ainda não existia como uma arte estruturada, mas as fontes arqueológicas indicam que já estavam presentes práticas fundamentais que dariam origem à representação teatral.
Essas práticas estavam diretamente ligadas à vida cotidiana e à dimensão simbólica das comunidades humanas, que realizavam rituais coletivos associados à caça, à fertilidade, à morte e às forças da natureza. Nessas ocasiões, os membros dessas comunidades assumiam papéis, utilizavam máscaras, pinturas corporais e movimentos corporais codificados para representar animais, espíritos, divindades ou acontecimentos importantes.
No entanto, é importante ressaltar que essas encenações não tinham o caráter moderno dado ao teatro de entretenimento e sim desempenhavam funções sociais e religiosas essenciais para o cotidiano dessas comunidades. Elas serviam para transmitir conhecimentos entre gerações, para fortalecer a identidade do grupo e para compartilhar e reforçar valores daquela comunidade.
A repetição desses rituais contribuía para a formação de padrões de representação que formaram elementos fundamentais para o desenvolvimento posterior do teatro como arte dramática sistematizada, pois já apresentavam características como a presença de performers (aqueles que executam a ação), espectadores e um espaço simbólico de representação, com figurino (máscaras e alegorias) e locais preparados para a representação.
De qualquer forma, essas manifestações, nesse período, ainda estavam intimamente relacionadas à ideia de rituais místicos-religiosos, o que difere do teatro posteriormente consolidado no contexto da Grécia Antiga.
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O teatro, como forma artística estruturada, surgiu na Grécia Antiga, entre os séculos VI e V a.C., especialmente na pólis (cidade) de Atenas, sendo um dos mais destacados legados gregos para a civilização ocidental, ao lado de democracia e filosofia. As origens do teatro grego estão diretamente relacionadas aos cultos religiosos em homenagem ao deus Dionísio, divindade associada ao vinho, à fertilidade, ao êxtase e às artes.
Essas celebrações eram chamadas de Dionisíacas e aconteciam anualmente em Atenas, assim como em outras pólis gregas, e reuniam a população em grandes procissões combinadas com muita música e dança. Foi nesse contexto que surgiram as primeiras formas organizadas de teatro, com a introdução de seus principais elementos, como atores, textos dramáticos e espaços específicos para as apresentações.
Um marco fundamental do desenvolvimento do teatro grego foi o surgimento de atores que se destacavam do coro (conjunto de atores/cantores), assumindo um papel individual nas cenas. Algumas fontes apontam Thepsis, no século VI a.C. como sendo o primeiro ator a fazer esse movimento. A partir daí, o teatro se desenvolveu rapidamente e ganhou grande popularidade, com a realização de competições (concursos) anuais de peças de teatro na cidade.
O auge do teatro grego se deu no século V a.C. quando se destacaram três grandes dramaturgos trágicos: Ésquilo, que introduziu a figura de um segundo ator destacado do coro e ampliou assim o diálogo dramático; Sófocles, que acrescentou um terceiro ator destacado do coro e com isso aprofundou o desenvolvimento psicológico dos personagens; e Eurípedes, que é lembrado por suas obras mais críticas e realistas.
O primeiro gênero dramático desenvolvido na Grécia foi a tragédia, que era focada em mitos, deuses e heróis, com final triste e linguagem elevada para provocar a catarse (uma espécie de purificação emocional) no espectador. Posteriormente, desenvolveu-se também a comédia grega, que usava o riso, sátira política e homens comuns para satirizar costumes sociais.
Enquanto a tragédia falava dos deuses para levar o homem a refletir sobre seus costumes humanos, a comédia criticava os costumes humanos diretamente e sem a reverência na linguagem e no tratamento que era dada aos deuses na tragédia. Enquanto o tom, na tragédia, era de deferência para com os deuses e seriedade com o tema grave que era relatado, na comédia, o tom era de crítica sarcástica ou irônica a seres imperfeitos, rasos e desimportantes, que são os seres humanos, expondo os ridículos de suas existências e comportamentos.
Uma característica do teatro grego é que tanto o coro quanto os atores destacados usavam máscaras que representavam as características essenciais dos personagens, fazendo da atuação dramática facial, tão cara aos atores contemporâneos do cinema, algo irrelevante no teatro helênico e de desenvolvimento muito posterior. Além disso, todos os personagens eram interpretados apenas por homens, mesmo os femininos, o que é mais um exemplo do salutar machismo da sociedade ateniense.
As apresentações ocorriam em teatros ao ar livre, escavados nas encostas dos morros pedregosos das cidades gregas, com capacidade que chegava a milhares de espectadores e que tinha uma excelente acústica, pois aproveitava a estrutura espacial naturalmente favorável à reverberação do som dessas encostas. O espaço cênico era dividido em três áreas principais:
O teatro grego ia além do entretenimento: ele era uma forma de reflexão coletiva sobre temas como justiça, destino, poder e moralidade para aquela coletividade. As peças frequentemente dialogavam com a vida política e social da cidade, contribuindo para a formação do pensamento crítico dos cidadãos. Além disso, o teatro na Grécia Antiga consolidou a linguagem dramática e estabeleceu as bases estruturais, estéticas e filosóficas que influenciam o teatro ocidental até os dias atuais.
As obras do teatro grego serviram de alicerce para algumas das principais teorias da mente, da filosofia e da narrativa no século XX. Um exemplo mais famoso dessa influência é a do pai da psicanálise, Sigmund Freud, que bebeu na peça de Sófocles, Édipo Rei, para formular seu conceito de complexo de Édipo.
O teatro na Roma Antiga, assim como diversos elementos culturais dessa civilização, recebeu enorme influência da cultura grega. Na verdade, os romanos não criaram um teatro independente estética e estruturalmente, mas adaptaram e transformaram modelos gregos conforme seus próprios interesses e valores culturais e políticos. Foi no séc. III a.C. que se desenvolveu o teatro romano, no contexto da expansão territorial de Roma, que levou a um intenso contato cultural com o mundo grego, especialmente após a conquista da Magna Grécia, que são as cidades gregas do sul da Península Itálica.
O marco inicial do teatro romano costuma ser apontando como os anos de 240 a.C., quando Lívio Andrônico, um grego escravizado que viveu em Roma, apresentou uma peça traduzida do grego nos jogos públicos da cidade. A partir de então, o teatro passou a integrar as festividades oficiais anuais do Estado romano.
Uma característica marcante do teatro romano é sua forte orientação pelo entretenimento. O público romano preferia espetáculos mais visuais e imediatos, como as mímicas (mimus), as pantomimas e as apresentações circenses. Esses gêneros valorizavam o gesto, a música e o espetáculo em detrimento do texto dramático, menos apreciado em sua profundidade pelo público romano que pelo público grego.
Do ponto de vista arquitetônico, os romanos inovaram ao construir teatros independentes, não mais aproveitando as encostas naturais (theatron), como faziam os gregos, e ampliando o espaço do público envolvendo completamente o palco central (a arena): eram os anfiteatros, que significa “teatro duplo” ou circular. Um exemplo importante é o Teatro de Pompeu, inaugurado em 55 a.C., em Roma, considerado o primeiro teatro permanente de pedra da cidade. Essas construções refletiam a engenharia avançada romana, com o uso do arco e da abóbada, recursos estruturais avançados e desconhecidos até então pelos gregos.
Para citar alguns dos principais autores do teatro romano, podemos começar por Sêneca, dramaturgo e filósofo estoico romano, possivelmente o mais célebre nome romano no campo da tragédia. Suas obras, muito inspiradas em modelos gregos, apresentavam características próprias do contexto romano, apresentando maior ênfase no discurso retórico e nos conflitos psicológicos.
Suas peças eram marcadas por monólogos longos e densos, cheios de sentenças filosóficas (sententiae) e violência em cena, descrevendo detalhes viscerais e sangrentos, ao contrário dos gregos, que preferiam esconder os detalhes das mortes. Sêneca foi o modelo principal dos dramaturgos do Renascimento (como Shakespeare e Marlowe), que preferiram seu estilo dramático e violento ao estilo mais contido dos gregos. Entre suas peças mais célebres, podemos citar Medeia, Tiestes, Fedra, Hércules Furioso e Agamemnon.
No âmbito da comédia romana, podemos destacar autores como Plauto e Terêncio. Enquanto Plauto produziu obras com forte apelo popular, humor físico e situações exageradas, Terêncio produziu peças mais refinadas, com maior atenção à construção dos personagens e ao diálogo.
Apesar de seu valor, influência e importância histórica, o teatro romano perdeu prestígio ao longo do Período Imperial de Roma (27 a.C. a 476 d.C.), especialmente a partir do avanço do cristianismo depois do século III d.C., quando as práticas teatrais passaram a ser associadas cada vez mais a valores vistos como imorais por esses novos cristãos.
O teatro medieval se desenvolveu na Europa num contexto marcado por forte influência do cristianismo na organização social, cultural e política. O teatro, nesse período, não desapareceu completamente, mas passou por uma crise profunda. Nos primeiros séculos da Idade Média, a Igreja Católica condenava as práticas teatrais herdadas da Antiguidade romana, associando-as a costumes pagãos, considerados moralmente negativos, “pecaminosos”.
Por conta disso, muitas formas teatrais entraram em declínio entre os séculos V e X. No entanto, os elementos performáticos do teatro continuaram presentes em festas populares, celebrações sazonais e tradições orais.
A partir do século X, houve uma retomada gradual do teatro, agora dentro do próprio contexto religioso. Esse ressurgimento ocorreu inicialmente dentro das igrejas, por meio de dramatizações litúrgicas em latim, conhecidas como dramas litúrgicos. Um exemplo clássico é o Quem Quaeritis? (“A quem procurais?”), diálogo encenado durante a celebração da Páscoa, que representava a visita das mulheres ao túmulo de Cristo, e que é considerado o marco zero do renascimento do teatro na Europa.
Com o tempo, especialmente a partir dos séculos XII e XIII, essas representações teatrais religiosas se tornaram mais complexas e passaram a acontecer inclusive fora das igrejas, em espaços públicos. Surgiram então diferentes formas de teatro religioso, como os mistérios, com episódios da Bíblia; os milagres, contando a vida dos santos; e as moralidades, com peças alegóricas representando vícios e virtudes.
Essas encenações frequentemente envolviam a participação das comunidades e eram organizadas por corporações de ofício nos burgos medievais. Era comum, nessa época, a utilização de palcos móveis, que percorriam as ruas durante festividades religiosas.
Apesar do claro predomínio do teatro religioso, também havia nessa época formas populares e profanas de representações teatrais, que foram se tornando cada vez mais presentes e complexas, como as apresentações de jograis, trovadores e artistas itinerantes, que realizavam espetáculos de música, narrativa e humor. Essas manifestações ajudaram a preservar elementos cômicos e performáticos do teatro que seriam importantes para o desenvolvimento posterior do teatro renascentista.
O chamado Renascimento Cultural aconteceu na Europa entre os séculos XIV e XVI e foi marcado por profundas transformações culturais, intelectuais e artísticas associadas à redescoberta e valorização da cultura clássica greco-romana, o que teve impacto direto na renovação das práticas teatrais. Esse foi um período em que o teatro passou a se afastar do domínio exclusivo da Igreja, tornando-se uma atividade cada vez mais secular e ligada às cortes e às cidades. Autores desse período se inspiraram nos autores antigos, nas obras de autores da Antiguidade, como Plauto e Terêncio, buscando recriar modelos dramáticos baseados em regras de composição, estrutura narrativa e unidade de ação.
Na Itália desse período, surgiu e se destacou a commedia dell’arte, forma teatral surgida no século XVI e que deixou uma marca profunda na história da arte dramática. Caracterizada pelo uso de improvisação, personagens fixos (como Arlequim, Pantaleão e Colombina) e forte presença de humor físico, esse teatro era apresentado por companhias profissionais itinerantes, marcando uma mudança importante: a profissionalização dos atores.
Outro aspecto fundamental desse período do teatro renascentista foi o desenvolvimento da cenografia e da arquitetura teatral. Inspirados nos estudos de perspectiva dos célebres pintores desse período, artistas e arquitetos passaram a criar cenários mais realistas e bem elaborados. Um exemplo ilustrativo desse movimento é a inauguração do Teatro Olímpico de Vicenza, comuna italiana perto de Veneza, projetado pelo arquiteto renascentista Andrea Palladio e inaugurado em 1585, e que foi considerado um dos primeiros teatros permanentes da era moderna.
Esse é também o período de ouro do teatro inglês da Era Elisabetana (reinado de Elisabeth I, na segunda metade do século XVI), no qual se destaca o célebre William Shakespeare, considerado por muitos o maior dramaturgo da era moderna, e autor de obras icônicas como Hamlet, Romeu e Julieta e Macbeth. Suas peças exploravam temas universais, como poder, amor, traição e condição humana, combinando elementos trágicos e cômicos.
O teatro renascentista portanto consolidou mudanças importantes, como a valorização do texto dramático, o surgimento de companhias profissionais, a ampliação do público e o desenvolvimento técnico da encenação, estabelecendo bases fundamentais para o teatro moderno.
Diferentemente do teatro grego antigo, baseado em rituais coletivos e no destino fatal dos heróis frente aos deuses, e do teatro medieval, essencialmente religioso, o teatro moderno é profano, individualista e centrado na subjetividade humana, na crítica social e na experimentação técnica. A preocupação, no teatro moderno, desloca-se da salvação da alma para o conflito psicológico do indivíduo, utilizando o palco como laboratório da realidade humana. Esse modelo de teatro tomou corpo aos poucos, a partir do século XVII, mas se consolidou no final do século XIX, com o surgimento do realismo e do naturalismo, movimentos que buscaram transformar o palco em espelho fiel da vida cotidiana.
Alguns autores e obras foram fundamentais nessa transição para o teatro moderno, como o dramaturgo norueguês Henrik Ibsen e sua peça “Casa de Bonecas”, de 1879, que chocou a sociedade ao questionar o papel da mulher e os valores morais da família burguesa, estabelecendo o realismo psicológico como base da dramaturgia moderna; e a peça “A Gaivota”, de 1896, do dramaturgo russo Anton Tchekhov, que refinou essa estética ao focar não em grandes acontecimentos externos, mas na subjetividade e na estagnação emocional dos personagens, influenciando profundamente a atuação naturalista contemporânea.
No início do século XX, surgiram diversas correntes de vanguarda que romperam com os modelos tradicionais. O expressionismo buscava representar emoções intensas e subjetivas, enquanto o teatro épico, desenvolvido por Bertolt Brecht, propunha um teatro crítico, que estimulasse o espectador a refletir sobre questões sociais e políticas, rompendo com a identificação emocional típica do teatro tradicional.
A passagem de uma trama mais psicológica e individualista para um olhar mais político e de crítica social toma corpo nesse contexto em peças icônicas de Brecht como “Mãe Coragem e Seus Filhos”, de 1939, nas quais ele utiliza o teatro para analisar o capitalismo e a guerra, levando o espectador a se distanciar da emoção pura para exercer uma postura de julgamento crítico e racional sobre a narrativa apresentada.
Outro nome fundamental foi o do ator e diretor russo Konstantin Stanislavski, que desenvolveu um método de interpretação baseado na construção psicológica do personagem, influenciando profundamente a atuação no teatro e no cinema até os dias atuais. Esse aprofundamento nos métodos de atuação modernos marcou uma transição da interpretação puramente externa e declamada para uma abordagem centrada na verdade interna e na análise do comportamento humano.
Stanislavski propôs que o ator não deveria apenas “fingir” uma emoção, mas vivenciá-la através da memória afetiva, buscando em suas próprias experiências sentimentos semelhantes aos do personagem, e das circunstâncias dadas, ao entender o contexto da cena para reagir de forma orgânica. O foco era o “se mágico”: como eu reagiria se estivesse naquela situação? Essa semente russa plantada por Stanislavski floresceu posteriormente nos Estados Unidos e deu origem ao famoso Método, consolidado por Lee Strasberg no Actors Studio.
Em oposição ao realismo psicológico dos métodos advindos da proposta de Stanislavski, surgiram outros métodos focados no corpo e no distanciamento do ator, como Biomecânica, de Vsevolod Meyerhold e o método do Gestus, de Bertolt Brecht.
Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o sentimento de desolação e falta de sentido na vida que marcaram a sociedade europeia naquele período encontra sua expressão em obras como “Esperando Godot”, do dramaturgo irlandês Samuel Beckett. Ao apresentar dois personagens presos em um diálogo circular à espera de alguém que nunca chega, Beckett fundou o chamado “teatro do absurdo”, que rompeu definitivamente com a ideia de trama linear ou lógica tradicional na narrativa.
Mais recentemente, o teatro contemporâneo tem ampliado cada vez mais suas possibilidades, incorporando novas tecnologias, linguagens híbridas e influências de diferentes culturas e linguagens artísticas e as fronteiras entre teatro, dança, performance e audiovisual tornam-se cada vez mais fluidas.
O teatro no Brasil tem suas origens no período colonial, a partir do século XVI, com as primeiras manifestações estando ligadas à ação dos missionários jesuítas, com o objetivo de catequizar os povos nativos, o que se enquadra no caráter religioso do teatro medieval europeu. Um dos nomes mais destacados desse período é o padre jesuíta José de Anchieta, um dos fundadores da cidade de São Paulo, que escreveu e encenou peças religiosas em português, espanhol e tupi. Suas obras, como o “Auto de São Lourenço”, eram apresentadas em aldeias indígenas e colégios jesuítas, combinando elementos europeus com aspectos da cultura indígena, como música e dança.
Durante os sécs. XVII e XVIII, o teatro no Brasil permaneceu limitado e irregular, com apresentações esporádicas em festas religiosas e eventos públicos. Foi só no início do século XIX, a partir da transferência da família real portuguesa para o Rio de Janeiro, que ocorreu um importante impulso na atividade teatral. Nesse contexto, houve a criação de espaços dedicados ao teatro, como o Real Teatro São Joaquim, inaugurado em 1813, no Rio de Janeiro. É então que o teatro se estrutura de fato em território nacional, com a presença crescente de companhias de teatro, atores profissionais e peças criadas aqui, ainda que repertório inspirado no modelo europeu.
A partir de meados do século XIX, o teatro brasileiro passa a desenvolver mais claramente características próprias. Um nome importante nesse processo foi o dramaturgo e diplomata carioca Martins Pena, que é considerado o fundador da comédia de costumes no Brasil. Suas peças retratavam o cotidiano da sociedade brasileira com ironia, humor e alguma dose de crítica social.
No final do século XIX e início do século XX, destacaram-se autores como Artur Azevedo, que contribuiu para a consolidação do teatro popular. Ele lutou contra preconceito da elite, que considerava o teatro de entretenimento algo “menor”. Ele escrevia para o povo. Suas peças atraíam desde a alta burguesia até as camadas mais simples, criando um hábito cultural de massa. Para isso, ele abandonou o tom empolado e acadêmico em favor de um diálogo ágil, leve e cheio de gírias da época.
Ao lado de seu irmão, o celebrado romancista Aluísio Azevedo, ele mapeou a alma do brasileiro. Suas comédias de costumes serviram de base para o que viria a ser o teatro de revista e, depois, nossas chanchadas cinematográficas e telenovelas.
Ao longo do século XX, o teatro brasileiro passou por um processo de modernização e profissionalização. Um marco importante nesse processo foi a criação do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), em São Paulo, em 1948, que introduziu novas técnicas de encenação e valorizou a formação de atores e diretores. Seria impossível listar os nomes dos dramaturgos que contribuíram para a consolidação, modernização e popularização do teatro brasileiro no século XX, mas trazemos aqui alguns nomes que foram fundamentais:
O teatro é uma forma de arte que envolve a combinação de diferentes elementos que constituem a base da linguagem teatral e permitem a comunicação entre atores e público, por meio de uma representação cênica. Os elementos centrais do teatro moderno são:
Além destes, há também os elementos técnicos como cenografia, figurino, iluminação e sonoplastia. Segue abaixo um pequeno glossário desses elementos citados:
Ao longo da história, o teatro desenvolveu diferentes tipos, ou gêneros — melhor dizendo — que variam conforme o contexto histórico, cultural e estético. Esses gêneros ajudam a organizar e compreender as diversas formas de expressão teatral.
Um dos tipos mais antigos é a tragédia, gênero que surgiu na Grécia Antiga, especialmente em Atenas, no século V a.C. As tragédias abordam temas como destino, sofrimento e conflitos humanos, frequentemente relacionados aos deuses e à moral. Autores como Ésquilo, Sófocles e Eurípides foram fundamentais para a consolidação desse gênero.
Outro gênero clássico, também originado na Grécia Antiga, é a comédia, com destaque para o autor grego Aristófanes. A comédia utiliza o humor, a sátira e a crítica social para tratar de temas do cotidiano, muitas vezes de forma irônica ou sarcástica.
O gênero mais amplo é o drama, que se desenvolveu principalmente a partir do século XIX, combinando elementos trágicos e cômicos. Ele busca representar conflitos humanos de uma forma mais próxima da realidade, sendo muito associado ao realismo teatral, como nas obras do dramaturgo norueguêsde Henrik Ibsen.
Outro gênero moderno relevante é o teatro épico, desenvolvido no início do século XX por Bertolt Brecht. Esse modelo rompe com a ideia de envolvimento emocional total do espectador, propondo uma experiência crítica, que leve à reflexão sobre questões sociais e políticas.
Outro gênero que também se destaca modernamente é o teatro do absurdo, associado a autores como Samuel Beckett. Esse tipo de teatro explora situações aparentemente sem sentido, refletindo sobre a condição humana e a falta de lógica na existência.
Além desses, existem diversas outras formas de representação teatral, como o teatro musical, o teatro de rua e o teatro experimental, e nada impede que outras surjam. A diversidade de tipos de teatro reflete a capacidade dessa arte de se adaptar às diferentes sociedades e momentos históricos. Além disso, essas classificações não são rígidas, e muitas peças combinam elementos de vários gêneros.
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Créditos das imagens
[2] yiannisscheidt/ Shutterstock
[3] Obra derivada de um modelo 3D de Lasha Tskhondia – L.VII.C./ Wikimedia Commons
[4] Tristan Jeanne-Valès/ Wikimedia Commons
[6] Acervo Arquivo Nacional/ Wikimedia Commons
Fontes
BERTHOLD, Margot. História mundial do teatro. São Paulo: Perspectiva, 2004. (Coleção Debates).
BROCKETT, Oscar G.; HILDY, Franklin J. History of the theatre. 10th ed. Boston: Allyn and Bacon, 2007.
CSAPO, Eric; MILLER, Margaret C. (ed.). The origins of theater in ancient Greece and beyond: from ritual to drama. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.
ZARRILLI, Phillip B. et al. Theatre histories: an introduction. 3rd ed. New York: Routledge, 2016.
Fonte: Brasil Escola - https://brasilescola.uol.com.br/artes/teatro.htm