O século XIX teve início no ano de 1801 e serviu de consolidação para as transformações causadas pelo advento da Idade Contemporânea. Guerras entre impérios, o avanço do capitalismo industrial e as novas descobertas da ciência e tecnologia, incentivadas pelo positivismo e empirismo, definiram o cotidiano das populações tanto ocidentais quanto orientais, frequentemente molestadas pelas mudanças e exigências demandadas pelas potências daquele período.
Das intensas revoluções de libertação da América até o ingênuo período de Belle Époque europeia, ou mesmo das Guerras Napoleônicas à invenção do automóvel, a compreensão da história do século XIX é uma das mais significativas no que diz respeito à compreensão da contemporaneidade.
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O século XIX (dezenove) por constituir o décimo nono século d.C. do calendário gregoriano, inicia-se no ano de 1801 e se encerra com o término do ano de 1900, correspondendo, portanto, às seguintes datas:
O século XIX constituiu um período de profundas mudanças em todo o mundo, principalmente em decorrência do início da Idade Contemporânea, em 1789 – que, apesar de se referir a um contexto da história ocidental, influenciou na trajetória de todas as sociedades. Observe a seguir os principais acontecimentos que permearam os anos entre 1801 e 1900.
De todos os tópicos que veremos a partir daqui, este é potencialmente o mais complexo. De 1801 a 1900, houve incontáveis eventos políticos que a longo prazo definiram novas nações, alianças, atritos e guerras. Por isso, vamos analisar os principais eventos políticos que definiram a história de cada continente do mundo.
No contexto político do século XIX, a Europa constituía o continente mais poderoso do mundo, mas as transformações pelas quais passou definiriam os anos seguintes da contemporaneidade. Por lá, os “anos 1800” se iniciaram com a expansão do Império Francês liderado por Napoleão Bonaparte, entre 1804 a 1815, cuja derrota levou à criação de duas instituições: a Aliança Conservadora entre Rússia, Áustria e Prússia, consolidada como reação à disseminação do Iluminismo; e o Congresso de Viena, que restaurou a monarquia francesa após a queda do imperador.
O que se seguiu no continente, por sua vez, foi uma série de novos atritos, muitos deles ocorridos apenas no ano de 1830:
Os anos de 1848 e 1849 foram particularmente importantes no que se refere às revoluções, que foram conduzidas dentro de dezenas de Estados europeus. Esse período, conhecido como Primavera dos Povos, foi provocado por diversas razões, como a primeira recessão industrial do mundo (1847), decorrente do aumento populacional desproporcional à produção e distribuição de alimentos pelo continente europeu, o descontentamento com os absolutismos, as questões nacionalistas, entre outros.
Além desses fatores, grande parte dos Estados era até então absolutista e excluía, com exceção da França e da Grã-Bretanha, a participação direta da burguesia na política. Como resultado, cerca de 50 mil pessoas morreram entre os protestos, tentativas de golpe ou resistência contra seus grupos de oposição, embora as revoltas em grande escala tenham resultado na extinção do absolutismo com resquícios do feudalismo, a instauração de diversas monarquias constitucionais ou repúblicas, entre outras consequências.
Na segunda metade do século, criaram-se dois Estados unificados na Europa: a Itália (1861-1871), consolidada após a vitória do rei de Piemonte-Sardenha Vítor Emanuel II (auxiliado por Giuseppe Garibaldi) sobre os demais estados da Península Itálica; e a Alemanha (1871), conduzida pelo prussiano Otto von Bismarck, que resultou na formação do II Reich liderado pelo rei Guilherme I.
A complexidade do cenário geopolítico permeada no século XIX não foi, por sua vez, exclusividade do continente europeu. Desde o advento da Revolução Francesa, em 1789, muitas nações ocidentais passaram a se inspirar nos valores do Iluminismo, total ou parcialmente, para se libertarem da opressão de seus colonizadores.
Na América Latina, o primeiro país a se tornar independente foi o Haiti (1804) — sua condução foi também resultado da revolta mais bem-sucedida da história dos povos africanos sobre os dominadores europeus —, seguido da libertação dos povos hispano-americanos (fundadores da Argentina, Bolívia, Colômbia, Paraguai, México, Venezuela, Chile, Equador e Peru) e dos diversos países situados na América Central (Costa Rica, Honduras, Guatemala, Nicarágua e El Salvador). No Brasil, a independência sobre Portugal foi declarada em 1822, mas ao contrário dos demais países da América Latina, que aderiram a repúblicas, o modelo de governo adotado por aqui foi a monarquia.
Na América do Norte, a Doutrina Monroe, de perfil imperialista, estipulou a soberania da América contra a influência europeia, mas ao mesmo tempo configurou o pretexto necessário para que os EUA passassem a colonizar os outros países americanos. Com a Guerra Mexicano-Estadunidense (1846-1848), mais da metade do território do México foi perdida para os EUA; entre 1861 e 1865, a Guerra da Secessão levou os estados confederados à derrota, tendo como principal consequência a abolição da escravidão no país. Até o final do século, os EUA expandiram o seu território até o Oceano Pacífico, incentivados pela doutrina do Destino Manifesto.
Os continentes da África, da Ásia e da Oceania foram igualmente afetados, de maneira negativa, pelas políticas imperialistas acordadas entre as potências europeias ao final do século XIX. A partilha da África, representada pela Conferência de Berlim (1884-1885), estipulou a possessão de todo o continente africano, ainda que em proporções desiguais, pela França, Reino Unido, Espanha, Alemanha, Bélgica, Itália e Portugal.
Na Ásia, os domínios territoriais passaram a ser exercidos principalmente por ingleses, franceses, holandeses e pelo Japão, que havia emergido como potência imperialista asiática e reivindicado seu domínio especialmente sobre a China. O Japão foi o único país asiático a se tornar imperialista.
O violento processo de neocolonização exercido pelas nações imperialistas resultou em milhões de mortes de povos nativos com o passar dos anos, muitas vezes por meio de extermínios em massa, como no massacre belga do Congo, no qual cerca de 10 milhões de africanos foram assassinados, entre 1885 e 1908, por ordens do rei Leopoldo II da Bélgica. Esse foi um dos maiores genocídios de toda a história. Na Oceania, a exploração territorial foi partilhada entre o Império Britânico, França, Alemanha e Estados Unidos (este, anexando o território do Havaí a seus domínios).
Como sugerimos no tópico anterior, os eventos políticos ocorridos por todo o mundo trouxeram diversas consequências violentas, refletidas por meio de guerras. Leia a seguir as mais impactantes delas, em ordem cronológica, no cenário global:
O brilhantismo de Napoleão Bonaparte não se ateve apenas a estratégias militares, conforme ele demonstrou com o Golpe de 18 Brumário, em 1799, aproveitando-se da fragilidade política da França pós-revolucionária. Na qualidade de imperador, passou a consolidar o Bloqueio Continental, que cercava as rotas marítimas da Europa para enfraquecer o comércio britânico, e a reivindicar territórios por todo o continente. Isso fez com que as potências rivais, entre as quais o Reino Unido, o Império Austríaco, o Império Russo, entre outros, designassem sete coalizões antifrancesas.
Após mais de uma década de guerra, a França foi derrotada e todo o mapa geopolítico da Europa foi redesenhado por meio do Congresso de Viena (1815), tendo como outras consequências cerca de 3,5 milhões de mortos, o fortalecimento dos movimentos de independência na América e a fuga da família real portuguesa para o Brasil.
As Guerras do Ópio foram travadas por interesses econômicos da Grã-Bretanha contra a China. O país asiático exportava seda, porcelana e chá para os ingleses, mas comprava muito pouco dos produtos europeus. A solução dos ingleses foi vender ópio trazido da Companhia das Índias Orientais para a população chinesa, que passava por críticos problemas de vício com a droga, mesmo com as medidas do governo asiático em proibir ou mesmo diminuir o seu tráfico.
A ação britânica passou a depreciar a economia nacional chinesa e a financiar graves casos de vício em ópio, sob o pretexto de exercerem o direito da economia liberal. Com a destruição de um lote de cerca de 20 mil caixas de ópio, por parte da China, a Grã-Bretanha declarou a Primeira Guerra do Ópio. Apesar de um período de trégua, cerca de catorze anos depois, a Segunda Guerra do Ópio ascendeu como pretexto para a Inglaterra revisar os termos do conflito anterior, sentindo-se lesada pelos acordos que ainda restringiam o comércio britânico de ópio no Oriente. Dessa vez, derrotada, a China foi obrigada a abrir mais portos para os europeus e a legalizar a droga.
A Guerra da Crimeia foi travada pela aliança criada pelo Império Turco Otomano (incluindo a França, o Reino Unido e outros) para combater o avanço expansionista do Império Russo. O pretexto para o conflito se tornou rapidamente religioso, dada a exigência do Czar Nicolau I em se tornar o protetor dos cristãos ortodoxos em território otomano. A primeira invasão russa ocorreu nos Principados do Danúbio, no atual território da Romênia, e se estendeu principalmente pela Península da Crimeia, embora tenha sido contida pelos turcos otomanos e seus aliados.
A possessão britânica sobre grande parte da Índia trouxe imenso descontentamento entre a população colonizada. Os chamados “cipaios” eram combatentes indianos a serviço da Inglaterra que acumularam anos de frustrações vindas do tratamento etnocentrista dos europeus sobre o seu povo, refletido no racismo e em baixíssimos salários.
Seu estopim ocorreu quando os cipaios receberam um lote de fuzis ingleses Enfield, cujos cartuchos eram untados com graxa de vaca (sagrada para a cultura hindu) e porco (impuro para os religiosos muçulmanos) — era necessário mordê-los para munir a arma, algo que ofendeu profundamente os combatentes hindus e muçulmanos por questões religiosas.
A guerra iniciada pelos cipaios, que também ficou conhecida como “Revolta dos Cipaios”, foi rechaçada pelos britânicos, que passaram a impor sobre o país asiático ainda mais controle e violência; por outro lado, o conflito serviu de incentivo moral para a ascensão do nacionalismo indiano e a dissolução da Companhia das Índias Orientais.
A eleição presidencial que levou Abraham Lincoln à liderança dos Estados Unidos gerou insatisfação em grande parte dos estados ao sul do país que se negavam a abandonar a mão de obra escrava para gerar lucros em suas plantations. A proposta de industrialização do país, por parte de Lincoln, levou os representantes dos estados revoltosos a fundar uma confederação separatista, provocando uma guerra que resultou em cerca de 750 mil mortes. O resultado foi a derrota da confederação e a abolição oficial da escravidão no país, concedida em 1865.
Na segunda metade do século XIX, o Paraguai havia se tornado uma potência média do sul da América: era autossuficiente, moderno e adquiriu importantes relações diplomáticas com a França. O segundo presidente do país, Solano López, eleito em 1862, possuía ambições expansionistas para o Paraguai, principalmente na região economicamente influente da Bacia do Prata.
O atrito com os demais países pela região levou o Brasil, Argentina e Uruguai a fundarem a Tríplice Aliança, resultando em uma guerra que matou mais de 400 mil pessoas (inclusive, mais da metade da população masculina do Paraguai). Apesar da vitória brasileira no conflito, os custos com a guerra levaram D. Pedro II a solicitar caros empréstimos ao Reino Unido.
Na Europa do século XIX, a economia vigente passou a ser baseada no capitalismo industrial, que já havia evidenciado algumas de suas características no século anterior, tornando o capitalismo comercial e mercantilista obsoleto. Como resultado, o ocidente europeu passou pela Segunda Revolução Industrial em meados do século, iniciada na Era Vitoriana inglesa e disseminada para outros países em processo de modernização.
O capitalismo industrial era muito mais lucrativo para as classes burguesas do que a mão de obra escrava (pois dispunha de um maior número de público consumidor, permitindo que os trabalhadores agora comprassem o que eles mesmos produziam), e por isso, a escravidão passou a ser abolida em diversos lugares do mundo. Ao mesmo tempo, expandiram-se as linhas ferroviárias pelo mundo, conectando importantes centros urbanos e facilitando o fluxo de mercadorias.
A consolidação do capitalismo industrial no Ocidente gerou reações de filósofos e incentivou a criação da sociologia como disciplina que se dispôs a estudar as tensões sociais originadas do modelo econômico vigente. Filósofos e sociólogos como Émile Durkheim, Max Weber e Karl Marx se comprometeram a tais estudos, ao passo que outros pensadores se preocuparam com questões como o existencialismo (Søren Kierkegaard), o niilismo (Friedrich Nietzsche), o utilitarismo (John Stuart Mill) e o positivismo (Auguste Comte).
A sociedade novecentista da Europa, ao final do século, também passou pelo período da Belle Époque (“Bela Época”), especialmente na França. O fenômeno consistia em uma atmosfera de otimismo, prosperidade e progresso. O motivo para tal sentimento foi a ingênua sensação de segurança advinda do término da Guerra Franco-Prussiana, encerrada em 1871, e seria dissolvida nos primeiros anos do século XX, principalmente devido à eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914.
A cultura emergente do século XIX pode ser atribuída a diversas sociedades do mundo, expressada por meio da música, da literatura, da pintura, entre outras. Na música, o romantismo foi o estilo mais evidente, prevalecendo ao classicismo por meio de composições que induziam a emoções e expressões pessoais, ao invés das formalidades até então convencionais à arte musical. O estilo foi demonstrado por diversos compositores renomados, como Beethoven, Chopin, Paganini, Schubert e Schumann, na Europa.
A ópera também recebeu destaque, dessa vez, a partir da segunda metade do século, popularizada principalmente na França (Bizet), na Alemanha (Wagner) e na Itália (Verdi). No Brasil, a miscigenação levou à criação de gêneros inspirados na música estrangeira: tivemos o surgimento da modinha, do maxixe e, mais tarde, do chorinho.
Na literatura, os estilos mais proeminentes do século XIX, no Ocidente, foram o romantismo, o realismo e o naturalismo. O romantismo priorizava a expressão sentimental, a exaltação à natureza e o nacionalismo, abrindo espaço para autores estrangeiros como Mary Shelley, Victor Hugo, Edgar Allan Poe e os Irmãos Grimm, enquanto no Brasil, destacaram-se Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Castro Alves, José de Alencar, entre outros. Vale também destacar a ascensão da ficção científica, com expoentes como Júlio Verne (“Vinte mil léguas submarinas”, “Viagem ao centro da Terra”, “Da Terra à Lua”) e H. G. Wells (“A Guerra dos Mundos”).
A pintura passou por diversas transformações no decorrer do século XIX, representada por movimentos como o neoclassicismo (que demonstrava eventos históricos), o romantismo (natureza e crítica social), o realismo (cotidiano e trabalho), o impressionismo (vida burguesa e urbana) e o pós-impressionismo (emoção por meio de cores e formas), cada um com a aplicação de suas próprias técnicas. Entre os expoentes de cada um desses gêneros, respectivamente, podemos citar Jacques-Louis David, Eugène Delacroix, Gustave Courbet, Claude Monet e Vincent van Gogh.
O positivismo conceituado por August Comte trouxe diversas consequências para o desenvolvimento científico do século XIX. Esse movimento intelectual buscava aplicar o empirismo em todos os campos do conhecimento, não apenas no âmbito das ciências, mas também dos estudos histórico-sociais. Apesar de incentivar o avanço científico em oposição ao dogmatismo religioso e às crenças populares, o positivismo trouxe diversas consequências negativas, como o surgimento de pseudociências como a eugenia, o determinismo e o etnocentrismo.
Por sua vez, muitas descobertas científicas importantes para a história da humanidade, associadas ou não ao positivismo, surgiram no decorrer do século XIX.
Veja a seguir uma lista das principais descobertas científicas, os responsáveis por elas e por que elas foram importantes:
Diversas invenções que impactaram diretamente em nossa história têm suas origens no século XIX. Observe a seguir as mais influentes delas, em ordem cronológica da data de invenção, seguidas de seus criadores e país de origem.
O século XIX no Brasil foi complexo em muitos aspectos: não é por acaso que o período seja considerado, por muitos, um dos mais difíceis de se compreender quanto à sua história, política e sociedade. Para facilitar os acontecimentos marcantes de nosso país no decorrer dos “anos 1800”, preparamos a lista cronológica a seguir:
Como resultado da expansão territorial promovida pelo imperador francês Napoleão Bonaparte sobre a Europa, o príncipe regente português D. João VI, então aliado da Inglaterra, decidiu fugir para o Brasil e elevar a cidade do Rio de Janeiro a capital do Império Português. A mudança permitiu a abertura dos portos a nações aliadas, mas a sociedade não passou por transformações estruturais.
Em 1815, o Brasil deixou de ser uma mera colônia portuguesa para se igualar às possessões imperiais da Coroa cujo Reino Unido foi governado por Maria I (1815-1816) e D. João VI (1816-1822).
Em 9 de janeiro de 1822, em resposta à exigência de retorno a Portugal, o príncipe regente do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, D. Pedro I, decretou sua recusa, consolidando o “Dia do Fico”. Naquele mesmo ano, Portugal passou a demandar a recolonização do Brasil, estimulando as elites a pressionarem a anulação do governo do príncipe, que como resposta, declarou a independência do país no dia 7 de setembro.
Outorgada em março de 1824, a nossa primeira Constituição decretava a formação de uma monarquia constitucional separada por quatro Poderes (Executivo, Legislativo, Judiciário e Moderado — este, representado unicamente por D. Pedro I), religião oficial católica, voto censitário e permanência da escravidão.
Os seis anos de Período Regencial no Brasil foram marcados por revoltas, conspirações e golpes. A impopularidade de D. Pedro I no país, somada à crise econômica, fizeram com que o líder abdicasse do trono e retornasse a Portugal, deixando o cargo para o filho em menoridade. A crise política incentivou a eclosão de diversas revoltas, como a Cabanagem no Pará, a Sabinada na Bahia, a Balaiada no Maranhão e a Revolução Farroupilha em Rio Grande do Sul e Santa Catarina, levando os regentes, temerosos com a oposição, a adiantar a coroação do herdeiro D. Pedro II por meio do “Golpe da Maioridade” (1840).
O Brasil governado por D. Pedro II, em aliança com a Argentina e o Uruguai, travou uma grande guerra contra o Paraguai, liderado por Solano López. Na época, o Paraguai era uma potência regional diplomaticamente alinhada à França, e seu líder possuía pretensões expansionistas sobre a Bacia do Prata e territórios brasileiros. A guerra terminou com um saldo de mais de 400 mil vidas, e apesar da vitória brasileira, o endividamento do país passou a se tornar o principal fator de crise do Período Imperial.
Pressionado pela Inglaterra para dissolver de vez a escravidão no país, por motivos mais econômicos que humanitários, o Brasil passou a decretar leis abolicionistas de maneira gradual a fim de não impactar negativamente os latifundiários e donos de escravos (além da lei britânica Bill Aberdeen, de 1845, que permitia a interceptação de navios tumbeiros brasileiros por parte da Marinha Britânica).
Entre os decretos brasileiros, as principais foram:
A Lei Áurea, assinada em 1888 pela Princesa Isabel, decretou oficialmente o fim da escravidão no Brasil, apoiada por diversos descendentes de africanos como José do Patrocínio e Luís Gama. No entanto, a abolição não garantiu a inclusão dos ex-escravizados na sociedade, nem no cotidiano das grandes cidades. Na imagem abaixo, o decreto original da abolição da escravatura, assinado pela princesa Isabel, que se encontra atualmente sob guarda do Arquivo do Senado Federal de Brasília.
Como em um efeito dominó, a libertação dos escravizados significou imediatamente a crise definitiva do Período Imperial, suscitando um golpe de Estado organizado por oficiais de alta patente que decretaram a primeira República do país. Apesar do decreto de uma república presidencialista e a promulgação de uma nova Constituição no ano seguinte, os problemas sociais se mantiveram e se expandiram, ao passo que as elites ligadas à produção do café passaram a liderar a política brasileira.
Ao final do século XIX, o religioso Antônio Conselheiro passou a protestar pelo descaso da Igreja Católica e do governo republicano em relação à comunidade baiana de Canudos, às margens do rio Vaza-Barris. A comunidade, organizada de maneira coletiva, autossuficiente e profundamente religiosa, passou a ser vista como uma afronta ao governo brasileiro, principalmente pelo fato de Antônio assumir uma posição de recusa e rebeldia ao movimento republicano recém-adotado.
Como resultado, o exército foi enviado a Canudos para conter a revolta, sofrendo uma humilhante derrota em luta contra os populares. A comunidade baiana sucumbiu apenas na quarta expedição militar, após meses de combate contra cerca de 8 mil soldados republicanos e bombardeios massivos de artilharia.
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Fontes
CHALINE, Eric. As piores invenções da história e os culpados por elas. Rio de Janeiro: Sextante, 2015.
CHANTERANNE, David; PAPOT, Emmanuelle. Napoleão: sua vida, suas batalhas, seu império. Londres: Carlton Books, 2010.
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HOBSBAWM, Eric. A era do capital: 1848-1875. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 2012.
HOBSBAWM, Eric. A era dos impérios: 1875-1914. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 2012.
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O LIVRO DA ARTE. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2020.
O LIVRO DA MÚSICA CLÁSSICA. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2019.
Fonte: Brasil Escola - https://brasilescola.uol.com.br/historiag/seculo-xix.htm