Ácidos e bases são espécies químicas que se comportam de maneira antagônica: ácidos aumentam a concentração dos íons H+, enquanto as bases aumentam a concentração dos íons OH−. Esse antagonismo é mais explícito quando se percebe que o efeito de um é capaz de neutralizar o efeito do outro, em uma reação conhecida como neutralização.
Ácidos e bases, entretanto, são conceitos muito antigos, já sendo definidos por diversos cientistas, os quais tornam tal definição difusa, variando a depender do sistema que está sendo analisado. O caráter ácido e básico de uma solução pode ser mensurado pela escala pH, a qual, a 25 °C, varia de 0 a 14. Em nosso cotidiano, os ácidos e bases estão muito presentes, como em alimentos, produtos de limpeza e medicamentos, por exemplo.
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Os termos “ácido” e “base” são muito antigos, os quais já sofreram diversas alterações ao longo da história da Química. Atualmente, ácidos e bases estão mais relacionados a um comportamento químico que uma substância desenvolve em um processo reacional. De modo simplório:
Porém, já existem teorias modernas de ácidos e bases que não associam essas substâncias com os íons H+ e OH−. É o caso da teoria de Lewis, que associa ácidos e bases com a transferência eletrônica em uma reação química, o que torna o conceito extremamente abrangente. As teorias modernas de ácidos e bases derivam dos trabalhos do químico sueco Svante Arrhenius, como parte da sua teoria da dissociação eletrolítica de 1887.
Uma das formas mais simples de se pensar em ácidos e bases é por meio do seu comportamento em solução. Enquanto ácidos possuem a capacidade de aumentar a concentração de íons H+ em solução, as bases possuem a capacidade de aumentar os íons OH−.
É a partir desse comportamento que se define uma reação de neutralização entre essas espécies:
H+ + OH− → H2O
Dessa forma, pode-se perceber que ácidos e bases possuem caráter antagônico, de modo que um é capaz de anular (ou neutralizar) quimicamente o outro. Esse antagonismo também fica explícito quando usamos a escala pH para definir comportamentos ácidos e básicos. O pH é uma escala logarítmica, inversamente proporcional à concentração de íons H+ em solução. Na temperatura de 25 °C, ela varia de 0 a 14, sendo que:
Isso deixa claro que quando o caráter ácido da solução aumenta, o caráter básico desta diminui e vice-versa.
Outro fator importante no estudo da Química é a definição de força de ácidos e bases. Essa grandeza está relacionada à extensão de produção de íons H+ e OH− em solução: quanto maior a produção desses íons, maior o caráter (força) do ácido ou da base. Um ácido é considerado forte quando a substância química é integralmente convertida em íons H+ (ionização completa). De maneira análoga, uma base é considerada forte quando a espécie substância química é integralmente convertida em íons OH− (dissociação completa).
Todas essas características anteriormente elencadas são baseadas na teoria de dissociação eletrolítica do químico sueco Svante Arrhenius, apresentada no ano de 1887. Contudo, desde sua concepção, o conceito de ácido e base foi se tornando mais abrangente, principalmente no século XX. Os trabalhos de Arrhenius, embora extremamente importantes, não contemplam toda a realidade dos sistemas químicos. Na verdade, a teoria de dissociação eletrolítica está restrita aos sistemas aquosos.
Dessa forma, deve-se entender que, a depender da realidade e do problema apresentado, os caráteres ácido e base devem ser observados e interpretados de maneira distinta. Como exemplo, trazemos duas teorias diferentes de ácidos e bases, que trazem uma visão mais ampla desse conceito.
A primeira delas é a teoria protônica, também conhecida como teoria de Brønsted e Lowry, desenvolvida, em 1923 e de maneira independente, pelo dinamarquês Johannes Nicolaus Bronsted e pelo inglês Thomas Martin Lowry. Segundo essa teoria, ácidos são espécies capazes de doar prótons (íons H+), enquanto bases são capazes de aceitar os prótons.
O mais interessante dessa teoria é que ela atrela a interdependência do ácido e da base, ou seja, o ácido só doa o próton porque há uma base para receber. Dessa forma, de maneira geral, a reação de neutralização poderia ser descrita como:
HA + B → A− + BH
Em que “A” representa o ácido e “B” representa a base.
Por mais que se utilize os termos “doar” e “aceitar”, o que pode tornar a definição mais simples e direta, vale dizer que, na verdade, quimicamente, a base é capaz de quebrar a ligação entre o hidrogênio e o ácido. Por isso, é quimicamente mais adequado citar que o ácido é uma espécie da qual um próton pode ser removido, enquanto a base é uma espécie capaz de remover o próton do ácido.
A teoria protônica ainda traz avanços importantes na compreensão química. Por exemplo, como o ácido precisa da base, a teoria de Brønsted-Lowry determina que o ácido precisa de um meio para se ionizar e não isoladamente. Dessa forma, a teoria protônica descreve o íon hidrônio (H3O+), pois:
HA + H2O → A− + H3O+
A água atua como base, removendo o próton do ácido. De fato, o íon H+ é muito pouco estável isoladamente. A teoria protônica também traz o conceito de par conjugado: um ácido, ao se ionizar, forma uma espécie aniônica de caráter básico (capaz de receber um próton). A base oriunda do ácido é chamada de base conjugada. Da mesma forma, uma base, ao receber um próton, forma uma espécie catiônica de caráter ácido (capaz de doar um próton). O ácido oriundo da base é chamado de ácido conjugado.
Assim:
Ácido(X) + Base(Y) → Ácido(Y) + Base(X)
Isso demonstra, portanto, que as reações de neutralização são reversíveis. Contudo, ácidos/bases fortes produzem bases/ácidos fracos. Quanto mais fraco for o ácido ou a base, menor a capacidade de doação/recepção de prótons, ou seja, na prática, não se considera a reversibilidade das reações de neutralização de ácidos e bases fortes, pois seus pares conjugados não são capazes de doar e receber prótons.
A teoria de Brønsted-Lowry é muito eficiente para diversos sistemas químicos. Um exemplo é na descrição dos indicadores ácido-base, que são espécies ácidas e básicas fracas que são capazes de indicar o caráter predominante da solução por meio de apresentação de cores diferentes.
Vamos supor um indicador ácido, que será representado por HInd e sua base conjugada, Ind−. Em água, tal indicador descreve a seguinte reação:
HInd + H2O → Ind− + H3O+
Quando o meio está ácido (excesso de H3O+), o sistema se desloca para a produção de HInd. Quando o meio está básico (ausência de H3O+), o sistema se desloca para a produção de Ind−. Ocorre que HInd e Ind− apresentam cores diferentes e, dessa forma, a depender do caráter ácido ou básico do meio, permitirão uma indicação visual do meio.
A teoria de Bronsted e Lowry também auxilia na compreensão do caráter básico de espécies que não apresentam o íon hidróxido, OH−, na sua constituição. É o caso da amônia, NH3, que ao reagir com HCl, demonstra seu caráter básico, ocorrendo a reação em meio aquoso ou não:
HCl + NH3 → NH4+ + Cl−
Outra teoria, muito mais abrangente, é a teoria eletrônica, desenvolvida em 1923 por Gilbert Newton Lewis. A teoria de Lewis objetiva quebrar a dependência da existência do hidrogênio para espécies ácidas, ao afirmar que um ácido é qualquer espécie capaz de aceitar pares de elétrons de uma espécie doadora, que serão consideradas como bases. Assim, mediante os trabalhos de Lewis, o conceito de ácido e base se tornava algo universal, independentemente do ambiente químico em que as espécies estivessem presentes.
Assim, uma reação ácido base geral, segundo a teoria de Lewis, seria:
A + :B → A:B
A espécie A:B pode ser chamada de diversos nomes, como, por exemplo, sal, aduto ou complexo. A teoria de Lewis trouxe o conceito de eletrófilo e nucleófilo: os eletrófilos são ácidos de Lewis, ou seja, espécies positivas (E+) que buscam se ligar a espécies ricas em elétrons, enquanto nucleófilos são bases de Lewis, ou seja, espécies negativas (Nu−) que buscam espécies deficitárias em elétrons para se ligarem.
A teoria de Lewis também foi importante para consolidar ácidos e bases como catalisadores, além da teoria de ácidos e bases moles e duros e a aplicação de química quântica para reações ácido-base.
Veja também: Funções inorgânicas — tudo o que você precisa saber sobre ácidos, bases, sais e óxidos
As nomenclaturas de espécies ácidas e básicas seguem as regras de nomenclatura dispostas no Nomenclature of Inorganic Chemistry, o chamado Livro Vermelho da União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC), cuja última edição data de 2005.
Quanto aos ácidos, devemos entender que alguns (os mais tradicionais) apresentam nomes históricos, muito utilizados e difundidos, que fogem às regras gerais de nomenclatura inorgânica. Para esses ácidos, faz-se uma divisão em hidrácidos e oxiácidos.
Os hidrácidos são aqueles que não apresentam átomos de oxigênio na sua estrutura, enquanto os oxiácidos apresentam. Todos os hidrácidos terão a nomenclatura geral:
ácido (nome do elemento)ídrico
Dessa forma, temos, por exemplo:
Existe o caso específico do HCN, um composto ácido que apresenta o íon cianeto (CN−). Dessa forma, seu nome é ácido cianídrico.
Já os oxiácidos terão sua nomenclatura de acordo com a quantidade de átomos de oxigênio presentes na estrutura do ácido:
Para aqueles que apresentam menor teor de oxigênio: ácido (nome do elemento)oso
Para aqueles que apresentam maior teor de oxigênio: ácido (nome do elemento)ico
Dessa forma, temos, por exemplo:
Isso também vai se aplicar nos seguintes casos:
Alguns elementos formam apenas um único oxiácido. Nesse caso, terão o sufixo -ico apenas.
Os halogênios (elementos do grupo 17) possuem a capacidade de formar até quatro oxiácidos. Nesse caso, são utilizados os prefixos hipo-, para teores de oxigênio menores que os ácidos terminados em -oso, e per-, para teores de oxigênio maiores que os ácidos terminados em -ico. Vejamos exemplos:
As bases inorgânicas, entretanto, já seguem um sistema de nomenclatura mais simples, de modo que sua nomenclatura geral é:
hidróxido de (nome do elemento) (carga do cátion em algarismo romano)
Dessa forma, temos:
Alguns cátions adquirem sempre a mesma carga, como no caso dos cátions de metais alcalinos, alcalino-terrosos, prata, zinco e alumínio, além do cátion composto amônio. Dessa forma, o indicativo de carga é desnecessário, uma vez que não há variação possível:
Os ácidos e as bases estão presentes em diversos produtos que fazemos uso em nosso cotidiano. Em alimentos, por exemplo, é comum a presença do ácido cítrico, que está presente no limão e na laranja, além de ser usado como conservante e acidulante em outros alimentos. O ácido fosfórico é muito utilizado na indústria de bebidas refrigerantes, principalmente os de sabor cola. Além de atuar como acidulante e conservante, seu sabor ácido ajuda a equilibrar a doçura da bebida.
O ácido etanoico, comercializado sobre o nome de ácido acético, é o principal constituinte do vinagre, o qual é empregado como tempero para saladas e vem sendo explorado também como produto de limpeza.
Outro ácido muito importante para nós é o ácido clorídrico, o qual está presente em nosso estômago, propiciando um pH ideal para a digestão de alguns alimentos. Já o ácido hipocloroso possui grande poder desinfetante, o qual pode ser produzido durante o manuseio adequado da água sanitária. A aspirina, um dos fármacos mais antigos sintetizados pelo ser humano, a qual atua para dor e febre, é, na verdade, o ácido acetilsalicílico.
Dentre as bases, destaca-se o hidróxido de sódio, comercializado sob o nome de soda cáustica. É empregado como desentupidor de encanamentos, além de ser usada na fabricação de sabão. As bases hidróxido de magnésio e hidróxido de alumínio são utilizadas como medicamentos antiácidos, para aliviar o excesso de acidez em nosso estômago.
Já a amônia, que quando hidratada forma o hidróxido de amônio, é empregada na fabricação de fertilizantes nitrogenados, além de ser empregada como gás refrigerante e na indústria têxtil, provendo um bom acabamento aos tecidos de algodão. É aplicada também no tratamento de cabelos, aumentando o pH dos cabelos durante o processo de coloração, auxiliando na abertura das cutículas, facilitando a deposição da tintura no córtex (camada interna do cabelo). Por fim, também se destaca os compostos de amônia em soluções de limpeza doméstica e industrial.
Saiba mais: Qual a diferença entre pH e pOH?
Questão 1. (UNIFOR – Demais cursos/2025.1) As teorias ácido-base são amplamente utilizadas na indústria química e farmacêutica, permitindo o desenvolvimento de novos produtos e processos mais eficientes e sustentáveis. Por exemplo, a compreensão das reações ácido-base permite o controle preciso de pH em processos de produção de alimentos e bebidas, garantindo a segurança alimentar e a qualidade dos produtos.
Disponível em: https://crqsp.org.br/a-importancia-das-teorias-acido-base/. Acesso em: 08 out. 2024. (Adaptado)
Considerando as teorias ácido e base, qual das substâncias listadas representa uma base de Brönsted-Lowry, mas não representa uma base de Arrhenius?
Resposta: Letra B
Arrhenius determinava que bases eram compostos que, em solução aquosa, produziam o íon OH−. Contudo, isso não conseguiria prever NH3 como sendo uma base, sendo possível apenas com a teoria de Bronsted-Lowry, a qual indica que a amônia reage com a água, de modo a retirar um próton desta (a qual atua como ácido), formando a espécie NH4+ e, consequentemente, o íon OH−.
Questão 2. (USS – Univassouras – Medicina/2024.2) A substância de fórmula molecular HI é um ácido empregado como agente esterilizante em aplicações hospitalares.
Esse ácido é nomeado:
Resposta: Letra C.
O ácido HI é considerado como um hidrácido (não possui oxigênio na estrutura) e, dessa forma, apresenta o sufixo -ídrico. Por isso, seu nome é ácido iodídrico.
Fontes
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AVANZI QUÍMICA. Ácido fosfórico como agente acidificante em alimentos: regulamentações e limites essenciais. Blog Avanzi Química, [s. l.], [202-?]. Disponível em: https://avanziquimica.com.br/blog/blog-p/cuidados-produtos-quimicos/acido-fosforico-como-agente-acidificante-em-alimentos-regulamentacoes-e-limites-essenciais.
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SOUZA, Cleuzane R.; SILVA, Fernando C. Discutindo o contexto das definições de ácido e base. Química Nova na Escola, [s. l.], v. 40, n. 1, p. 14-18, fev. 2018. Disponível em: https://qnesc.sbq.org.br/online/qnesc40_1/04-CCD-52-17.pdf.
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Fonte: Brasil Escola - https://brasilescola.uol.com.br/quimica/comparacao-entre-acidos-bases.htm