Plano Cruzado

O Plano Cruzado foi um plano econômico lançado em 1986 para conter a hiperinflação no Brasil por meio de congelamento de preços, de uma nova moeda e do fim da indexação.

O Plano Cruzado foi um plano econômico lançado em 28 de fevereiro de 1986, durante o governo do presidente José Sarney, com o objetivo de controlar a hiperinflação que atingia o Brasil na década de 1980. O plano adotou medidas como congelamento de preços e salários e a criação de uma nova moeda, o cruzado. Embora tenha produzido resultados positivos nos primeiros meses, gerando grande entusiasmo popular, o plano fracassou logo depois. Mesmo assim, ele se tornou um episódio central da história econômica brasileira e influenciou os debates que levariam posteriormente ao Plano Real, de 1994.

Leia também: O que foi o Plano Real?

Resumo sobre Plano Cruzado

  • O Plano Cruzado foi um plano econômico de combate à hiperinflação na economia brasileira, lançado em 1986 pelo governo do presidente José Sarney.
  • Surgiu no contexto de redemocratização do país, após a ditadura, e de uma grave crise econômica.
  • O Brasil enfrentava um cenário de inflação extremamente elevada, baixo crescimento econômico e crise da dívida externa.
  • As principais medidas do plano foram o congelamento de preços e salários, a criação de uma nova moeda, o cruzado (Cr$), e a tentativa de eliminar os mecanismos de indexação que retroalimentavam a inflação.
  • Nos primeiros meses, o plano pareceu ter bons resultados, teve forte apoio popular e reduziu temporariamente a inflação.
  • O plano estimulou o consumo, gerando um clima de otimismo na sociedade.
  • No entanto, o aumento do consumo, a escassez de produtos, problemas fiscais do governo e dificuldades políticas de implantar medidas mais severas ou impopulares levaram ao fracasso do plano ainda no final de 1986.
  • A experiência do Plano Cruzado influenciou outros planos econômicos posteriores e contribuiu para o desenvolvimento de ideias que culminariam no Plano Real.
  • O Plano Real foi o responsável por, finalmente, estabilizar a moeda brasileira em 1994.

O que foi o Plano Cruzado?

Cédula de 100 cruzados, moeda adotada no Brasil durante o Plano Cruzado. [imagem_principal]
Cédula de 100 cruzados, moeda adotada no Brasil durante o Plano Cruzado.

O Plano Cruzado foi um plano econômico de estabilização lançado em fevereiro de 1986 durante o governo do presidente José Sarney. O objetivo desse plano era conter a hiperinflação que vigorava no Brasil durante essa década. O momento de implantação do plano coincide com o processo de redemocratização do país, após vinte anos de regime autoritário. Sarney era o primeiro presidente civil após cinco presidentes militares, o que torna esse contexto ainda mais delicado politica e historicamente.

Em meados dos anos de 1980, o cenário era de inflação muito alta e crescente. No ano anterior à implantação do plano, em 1985, a inflação oficial foi de 242,23% no ano|1|, o que significa, na prática, que as pessoas estavam sujeitas a aumentos contínuos de preços, nem sempre acompanhados pelo aumento dos salários e do poder de compra. Além disso, havia uma total desorientação em termos de referências de valor dos produtos e serviços por parte da população, sendo muito difícil para o cidadão comum identificar se um determinado produto ou serviço estava sendo oferecido barato ou caro, ou mesmo se os seus serviços prestados como trabalhador estavam sendo bem ou mal remunerados.

Tudo isso criava um ambiente que privilegiava as camadas sociais mais altas, com mais acesso a serviços bancários e com maior poder de barganha em termos de renda, o que ampliava a desigualdade social e tornava ainda mais precária a situação dos mais pobres. A espiral inflacionária desfavorecia o crescimento econômico, do emprego e da renda no país.

Com todos esses problemas gerados pela alta inflação, é natural que o primeiro governo civil do país em vinte anos elegesse o combate a ela como sua principal meta e foi isso que foi feito por meio da implantação do Plano Cruzado em 1986. Nos primeiros meses, o plano produziu resultados positivos: a inflação caiu rapidamente e houve uma sensação de melhora do poder de compra por parte da população, o que estimulou o consumo e gerou forte apoio popular ao governo.

No entanto, apesar do muito otimismo que inspirou seus primeiros momentos, o plano acabou fracassando em seu objetivo de estabilizar a economia, de colocar o país em patamares moderados de inflação, o que deu ensejo à implantação de diversos outros planos econômicos posteriormente (como o Plano Bresser, o Plano Verão e o Plano Collor) para tentar conter a escalada inflacionária, que continuou cada vez mais forte após cada plano que era implantado.

O fim dessa busca pela estabilidade monetária através de uma sequência de planos econômicos se deu no Plano Real, de julho de 1994, que conseguiu, finalmente, conter de forma permanente a alta inflação no país. De lá pra cá, tirando alguns anos atípicos em que a inflação chega nos dois dígitos (2002, 2015, 2021), a inflação brasileira se mantém em patamares moderados, o que é uma das maiores conquistas históricas da sociedade brasileira, realizada a duras penas e que deve ser preservada.

Veja também: Histórico da inflação no Brasil — os maiores e menores registros ao longo dos anos

Quem criou o Plano Cruzado?

O Plano Cruzado foi criado durante a administração do presidente José Sarney, que governou o país entre 1985 e 1990 e recebe os créditos pela implantação do plano em termos políticos, bem como seu ministro da fazenda, o empresário Dilson Funaro. No entanto, do ponto de vista técnico, o plano foi elaborado por uma equipe destacada e experiente de economistas brasileiros.

Dentro do governo, o primeiro dos economistas responsáveis por formular esse plano foi o ministro do Planejamento, João Sayad, que era professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP). Ele participou na formulação das diretrizes econômicas do governo e contribuiu para o desenho das medidas de estabilização que foram implementadas.

Os principais idealizadores e formuladores das ideias que fundamentaram o plano não estavam diretamente vinculados ao governo federal, não possuíam cargo oficial no governo Sarney, pelo menos no momento de sua implantação, mas contribuíram direta ou indiretamente para sua idealização. Entre eles, podemos citar economistas bastante destacados como:

  • André Franco Montoro, professor da USP e pesquisador da FIPE;
  • Edmar Bacha, professor da PUC-Rio;
  • Carlos Bresser Pereira, professor da FGV; e
  • Yoshiaki Nakano, professor da PUC-SP.

Além desses nomes mais próximos do governo, dois jovens economistas também se destacaram no debate sobre a questão da inflação que levou à implantação não só do Plano Cruzado como à do Plano Real, nove anos depois: estes foram Pérsio Arida e André Lara Resende. Ambos pertenciam a uma geração de economistas brasileiros formados por universidades internacionais.

Contexto histórico do Plano Cruzado

O Plano Cruzado foi lançado em 28 de fevereiro de 1986, período de transição política que marca o fim e vinte anos de regime autoritário no país e início da Nova República, com a redemocratização do país. Essa transição política começou com a eleição indireta de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, em 15 de janeiro de 1985, que seria o primeiro presidente civil do país desde 1964, após cinco presidentes militares.

No entanto, Tancredo faleceu antes de tomar posse, em 21 de abril de 1986, fazendo com que seu vice, José Sarney, que já havia assumido interinamente, continuasse no governo, agora de maneira permanente pelo resto do mandato.

Retrato oficial do presidente José Sarney, que lançou o Plano Cruzado.
Retrato oficial do presidente José Sarney, primeiro governo civil após a ditadura, que lançou o Plano Cruzado.[1]

Do ponto de vista econômico, o contexto histórico de implantação do plano foi de grave crise econômica. Desde 1979, com a segunda crise internacional do petróleo, que elevou exponencialmente o preço dessa importante commodity no mercado internacional, em um contexto em que o Brasil importava a maior parte do que consumia, o mundo ocidental como um todo, e o Brasil, em particular, vivenciaram um período de escalada inflacionária somada à queda do dinamismo econômico (recessão).

O aumento do preço do petróleo leva ao aumento de muitos outros preços a ele atrelados, como os fretes (combustíveis mais caros), por exemplo. Isso fez com que recursos fossem desviados para cobrir os preços mais caros dessa matéria prima, retirando-os de áreas de investimentos, o que desacelerou as economias.

Além disso, muitos países, para conter a espiral inflacionária, aumentaram as taxas de juros, também com efeito de desacelerar as economias (recessão). Essa combinação de inflação com recessão é chamada de estagflação e reúne o pior desses dois indicadores econômicos. Essa é uma das piores situações que uma economia pode vivenciar num dado período.

Em 1982, soma-se ainda a crise da dívida externa dos países latino-americanos, que não conseguiram lidar com os altos juros internacionais pós-crise do petróleo e declararam moratória, o que abalou profundamente a confiança dos investidores internacionais nas economias do nosso subcontinente, inclusive do Brasil. Essa crise foi desencadeada pela moratória do México, em 1982, e atingiu fortemente o Brasil, que tinha acumulado uma grande dívida externa durante os anos de 1970.

As consequências para o Brasil foram terríveis: nossa economia entrou em um longo período de baixo crescimento econômico e inflação cada vez mais alta. É por isso que alguns economistas se referem a essa como a “década perdida”.

Por que o Plano Cruzado foi criado?

O Plano Cruzado foi criado principalmente para enfrentar o problema da inflação extremamente elevada que atingia a economia brasileira na década de 1980. A inflação alta é um problema da economia brasileira que remonta ao período do Império, mas taxas de inflação tão altas — que chegaram a mais de 100% ao ano e receberam dos economistas o nome de hiperinflação — se tornaram um problema no Brasil a partir de 1979, durante o regime militar.

Essas taxas só foram controladas de fato em 1994, com a implantação do último dos muitos planos de estabilização econômica e o primeiro que deu certo no longo prazo para o objetivo de reduzir as taxas de inflação: o Plano Real, de 1994. O Brasil, portanto, conviveu com 15 anos de hiperinflação, o que é um dos legados mais tristes e, ainda assim, mal compreendidos da história nacional.

→ Os efeitos da hiperinflação no Brasil

A inflação é algo muito ruim para uma sociedade porque é mais penosa para os pobres que para os ricos, ela gera uma espécie de imposto regressivo na prática, aquele em que os pobres pagam mais impostos que os ricos, o que contribui para o aumento progressivo da desigualdade social e o avanço da miséria, das pessoas abaixo da linha de pobreza.

Isso acontece por vários motivos, mas especialmente porque a população menos pobre costuma ser mais “bancarizada”, ter mais acesso a serviços bancários, que em contextos inflacionários ajudam o cliente a se defender dos efeitos da inflação por meio de aplicações financeiras que acompanham os índices inflacionários. Um exemplo muito comum dessas aplicações era o chamado overnight, que era basicamente um depósito bancário que ia sendo reajustado diariamente na conta do cliente de acordo com a variação da inflação do dia.

No entanto, a realidade da maioria da população brasileira era, nesse contexto, de estar fora do sistema bancário e ter que fazer todas suas transações em dinheiro vivo, que perdia valor, literalmente, de minuto a minuto. Era comum nesse contexto as pessoas mais pobres receberem seus salários e irem direto para o supermercado fazer todas as compras do mês, pois dinheiro na mão perdia valor rápido.

Outro fator que atrela as altas taxas de inflação ao seu resultado pernicioso em termos de distribuição de renda e avanço da miséria é a diferença do efeito da elevação dos preços sobre quem recebe salários, como os trabalhadores, e sobre quem aufere renda, como os empresários. A renda dos empresários, pelo próprio mecanismo de mercado, era atualizada diariamente por meio do reajuste dos preços dos bens e dos serviços que eles forneciam.

Já os salários, tradicionalmente pagos mensalmente no Brasil, precisavam ser renegociados mês após mês e, nesse processo, muitos trabalhadores, especialmente os mais pobres, menos escolarizados, menos especializados e, portanto, com menor poder de barganha, acabavam tendo, na prática, reduções reais de salário com o passar do tempo.

Levando em consideração esses efeitos perniciosos, do ponto de vista social, da inflação sobre uma sociedade, e somando-se a isso o fato de que o Brasil viveu 15 anos de hiperinflação, podemos concluir que o que ocorreu entre 1979 e 1994 foi uma verdadeira tragédia econômico-social, muito difícil de se estimar quanto à sua gravidade e efeitos de longo prazo, em termos não só econômicos, mas humanos e sociais.

Gráfico com taxas de inflação mensal no Brasil antes e durante o Plano Cruzado.
Taxa de inflação mensal no Brasil, de 1985 a 1995.[2]

Características do Plano Cruzado

  • Plano heterodoxo

O Plano Cruzado se baseou em um conjunto de medidas que buscavam interromper rapidamente a escalada inflacionária na economia brasileira. Como essas medidas iam além do método tradicional da economia de subir a taxa básica de juros e cortar gastos públicos (o que é chamado pelos economistas de método ortodoxo de combate à inflação), o plano implantado por Sarney em 1986 é chamado de plano econômico heterodoxo de combate à alta dos preços. E essa é a primeira característica importante desse plano: ser um plano heterodoxo.

  • Congelamento de preços

Uma característica que é possivelmente a mais marcante e mais lembrada do plano foi a de se realizar por meio do congelamento generalizado de preços e salários. A partir do anúncio do plano, em 28 de fevereiro, passou a vigorar um tabelamento oficial de preços dos produtos e serviços. Esse tabelamento era divulgado pelas célebres “tabelinhas da SUNAB”.

O governo incentivou a população a fiscalizar se os comerciantes estavam cumprindo com o tabelamento e surgiu a figura do “fiscal do Sarney”, cidadãos que levaram muito a sério essa incumbência e iam de tabela em punho verificar cada estabelecimento rigorosamente. Houve casos de cidadãos fechando estabelecimentos por descumprimento do tabelamento oficial, o que ilustra a euforia e a forte adesão da população ao plano.

  • Troca da moeda

Outra característica do plano foi a reforma monetária: a moeda do país mudou e o antigo e desvalorizado cruzeiro deu lugar ao cruzado (Cr$), que dá nome ao plano, com a paridade de 1.000 cruzeiros para 1 cruzado. No início, enquanto a Casa da Moeda produzia as notas novas de cruzados, as antigas notas de cruzeiros eram carimbadas para valerem como cruzados provisoriamente, como mostra a imagem abaixo:

Cédula de cruzeiro carimbada como cruzado no início do Plano Cruzado.
Cédula de 10000 cruzeiros com carimbo de 10 cruzados e o retrato de Ruy Barbosa.[3]
  • Eliminação da indexação monetária

Uma quarta característica importante é que o plano buscou eliminar (ou ao menos reduzir) os mecanismos de indexação da economia, a famosa “correção monetária”, que costumavam estar estabelecidos em contratos e que reajustavam automaticamente salários, tarifas e outros valores automaticamente, com base na inflação passada. Esses mecanismos surgiram como uma forma da população se defender dos efeitos da inflação, mas acabaram se tornando um dos principais mecanismo de reprodução da alta inflação no longo prazo, a chamada “inflação inercial”.

Por que o Plano Cruzado fracassou?

Apesar do entusiasmo inicial e da queda da inflação nos primeiros meses após a implementação do Plano Cruzado em fevereiro de 1986, o plano acabou fracassando ainda no mesmo ano. Diversos fatores econômicos e políticos contribuíram para seu colapso e para o retorno ainda mais acelerado da inflação na economia brasileira.

Um primeiro ponto foi a falta de tratamento adequado ao boom do consumo que ocorreu no momento imediato após implementação do plano. A queda abrupta da inflação, inicialmente, gerou um grande aumento do consumo, o que por si já é uma pressão inflacionária perigosa para os objetivos de um plano de estabilização. Em um contexto de hiperinflação, quando vem a estabilização de maneira abrupta, isso costuma gerar inicialmente um forte aumento do poder de compra da população, da mesma forma que a inflação em si retira poder de compra da população.

A falta de ações efetivas das autoridades para conter esse boom do consumo atrapalhou os resultados do plano e, com o tabelamento de preços evitando que a alta da demanda fosse equilibrada com aumento dos preços, o resultado foi a escassez de grande parte dos produtos tabelados. As prateleiras dos supermercados ficaram vazias e os gêneros mais valorizados pela população passaram a ser negociados clandestinamente, fora do mercado formal. Quando o governo finalmente encerrou o tabelamento de preços em 1987, os preços voltaram às alturas, e os produtos, às prateleiras.

Outro problema diz respeito à pouca atenção dada pelo governo à questão fiscal, ou seja, à pressão que os altos déficits públicos têm na alta dos preços, pois aquecem a economia injetando recursos no mercado. O governo fez pouco ou nenhum esforço para controlar os gastos públicos. A carência de legitimidade do presidente Sarney, que era vice do presidente eleito e ainda com uma trajetória política próxima aos militares, o colocava em uma situação de ter pouco poder de barganha com as forças políticas e sociais para implementar medidas fiscais severas, que são bastante impopulares.

Ainda no âmbito político, as eleições legislativas de novembro de 1986 também foram um forte incentivo para que o governo Sarney não adotasse nenhum remédio amargo nesse período, por mais necessário que ele fosse para o sucesso do plano. Nesse sentido, o sistema de “gatilho salarial” (reajuste automático do salário todas as vezes que a inflação atingisse 20%), que foi criado inicialmente para tentar preservar o poder de compra dos trabalhadores durante a implantação do plano, também contribuiu para o seu descontrole fiscal. Esse afrouxamento do lado fiscal foi outro ponto que ajudou a contribuir para o fracasso do plano.

Com o acúmulo desses problemas, a inflação voltou a crescer rapidamente já no final de 1986. O governo ainda tentou lançar medidas atrasadas e tímidas de ajuste, como o Plano Cruzado II, de novembro de 1986, que aumentava alguns impostos e reajustava alguns preços tabelados. No entanto, essas medidas não conseguiram restaurar a estabilidade econômica e o país logo voltou a enfrentar níveis elevados de inflação nos anos seguintes.

Consequências do Plano Cruzado

Apesar de uma euforia inicial de poucos meses, já em fins de 1986 já tinha ficado claro para os analistas e para a maior parte da população que o plano havia fracassado. A partir daí, o que resultou foi um retorno ainda mais forte da espiral inflacionária, com todos os problemas e mazelas que ela acarreta.

Houve tentativas de implementar novos planos, ainda durante o governo Sarney, como o Plano Bresser, de 1987, e o Plano Verão, de 1989, também sem sucesso. No entanto, cada plano novo que surgia e fracassava levava os economistas e analistas a revisar tanto seus fundamentos quanto sua execução, o que foi criando um corpo de conhecimentos e alguns consensos que foram vitais para o sucesso posterior do Plano Real, de 1994, durante o governo do presidente Itamar Franco.

Gráfico com dados da inflação no Brasil, de 1950 até 1997, em texto sobre Plano Cruzado.
 Inflação no Brasil, de 1950 até 1997. As taxas só foram controladas de fato em 1994, com a implantação do Plano Real.

O Plano Real, que foi finalmente bem-sucedido, ao menos no que concerne ao combate à inflação, bebe em diversos fundamentos e ensinamentos tirados das experiências dos planos heterodoxos fracassados dos anos de 1980, especialmente do Plano Cruzado, o pioneiro deles. Os fracassos sucessivos desses planos econômicos reforçou a percepção de que o combate à inflação exigia soluções mais complexas e duradouras.

O Plano Cruzado ajudou a entender não somente as dificuldades históricas do Brasil na luta contra a inflação crônica como também os desafios enfrentados durante a consolidação da recém-implantada democracia da Nova República nos anos 80.

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Exercícios resolvidos sobre o Plano Cruzado

Questão 1

O Plano Cruzado foi lançado no Brasil em 28 de fevereiro de 1986, durante o governo do presidente José Sarney, como uma tentativa de controlar a forte inflação que atingia o país na década de 1980. Entre as medidas adotadas estavam o congelamento de preços e salários, a criação de uma nova moeda e mudanças nas regras de reajuste salarial.

Uma das ideias centrais que inspiraram o plano foi a teoria da inflação inercial, segundo a qual a inflação brasileira era mantida por mecanismos automáticos de reajuste de preços e salários.

Considerando esse contexto, o Plano Cruzado buscava controlar a inflação principalmente por meio da

A) redução imediata dos gastos públicos e corte de investimentos estatais.
B) liberalização total dos preços e eliminação da intervenção estatal na economia.
C) interrupção dos reajustes automáticos da economia por meio do congelamento de preços e salários.
D) substituição do sistema capitalista por um modelo de economia planificada.
E) adoção de uma política de aumento acelerado da emissão de moeda.

Gabarito: C.

O Plano Cruzado foi baseado na ideia de que a inflação brasileira era sustentada pela indexação da economia, ou seja, pela prática de reajustar automaticamente preços, salários e contratos com base na inflação passada. Para interromper esse mecanismo, o governo adotou um congelamento geral de preços e salários, tentando quebrar a dinâmica da inflação inercial. As outras alternativas não correspondem às medidas adotadas pelo plano.

Questão 2

Nos primeiros meses após o lançamento do Plano Cruzado, em 1986, houve grande entusiasmo entre a população brasileira. A inflação caiu rapidamente e o consumo aumentou. Entretanto, o plano entrou em crise ainda naquele mesmo ano.

Entre os fatores que contribuíram para o fracasso do Plano Cruzado, destaca-se:

A) a queda abrupta da produção agrícola e a crise climática que afetou o país.
B) o desequilíbrio entre o aumento do consumo e a dificuldade de manter preços congelados diante dos custos de produção.
C) a redução excessiva do crédito e do consumo interno.
D) a interrupção completa da produção industrial brasileira.
E) a adoção de uma política de câmbio flutuante que desvalorizou a moeda.

Gabarito: B.

Com os preços congelados e a inflação aparentemente controlada, o consumo aumentou rapidamente. No entanto, muitos produtores passaram a enfrentar custos crescentes sem poder reajustar os preços, o que provocou escassez de produtos, desabastecimento e mercados paralelos. Esse desequilíbrio entre oferta e demanda foi um dos principais fatores que levaram ao colapso do Plano Cruzado e ao retorno da inflação ainda em 1986.

Nota

|1| INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA). IPCA - taxa de variação (% a.a.). Brasília: Ipeadata, 2024. Disponível em: https://www.ipeadata.gov.br/ExibeSerie.aspx?module=m&serid=1410807112&oper=view

Créditos das imagens

[1] Wikimedia Commons

[2] Wikimedia Commons

[3] Wikimedia Commons

Fontes

FAUSTO, Boris. História do Brasil. 14. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo (EDUSP), 2015.

GREMAUD, Amaury Patrick; VASCONCELLOS, Marco Antonio Sandoval de; TONETO JÚNIOR, Rudinei. Economia brasileira contemporânea. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2017.

MACARINI, José Pedro. A política econômica do governo Sarney: os Planos Cruzado (1986) e Bresser (1987). Campinas: Instituto de Economia da UNICAMP, 2009. (Texto para Discussão n. 157).


Fonte: Brasil Escola - https://brasilescola.uol.com.br/historiab/plano-cruzado.htm