Realismo mágico

O realismo mágico ou fantástico engloba obras da literatura, pintura e cinema caracterizadas por uma realidade marcada pelo absurdo, nonsense e mistério.

Realismo mágico ou fantástico é uma classificação atribuída a determinadas obras artísticas, como livros, pinturas e filmes que apresentam uma realidade mágica ou fantástica, devido a uma deformação da realidade capaz de gerar estranheza, nonsense e um clima de mistério. Teve o seu auge no século XX (marcado por duas guerras mundiais), apesar de já existirem obras com tais características no século XVIII e XIX.

Na literatura, livros assim caracterizados foram assinados por autores como Gabriel García Márquez (Cem anos de solidão), Franz Kafka (A metamorfose) e Machado de Assis (Memórias póstumas de Brás Cubas). Na pintura, nomes como Ernst Fuchs, da escola de realismo fantástico de Viena, buscaram retratar esse tipo de realismo em suas obras. Já no cinema, é possível apontar filmes como Asas do desejo, de Wim Wenders, O curioso caso de Benjamin Button, de David Fincher, além de O grande circo místico, de Cacá Diegues.

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Contexto histórico do realismo mágico

Primeira Guerra Mundial, França, 1918.
Primeira Guerra Mundial, França, 1918.

Não existe consenso entre os pesquisadores sobre quando surgiu o realismo mágico ou fantástico. A maioria deles defende que a sua origem está situada entre os séculos XVIII e XIX. No entanto, foi a partir do século XX que ele se mostrou mais atuante, pois refletia um mundo caracterizado pelo absurdo, pela falta de sentido, pelo vazio existencial e marcado pelo contexto mostrado a seguir.

Principais características do realismo mágico

O termo “realismo mágico” foi muito discutido nos anos 1940 e 1950, com o intuito de caracterizar obras onde a realidade era mostrada de forma mágica, fantástica, em oposição a um realismo científico. Esse realismo mágico ou fantástico, portanto, é caracterizado por uma forma estranha de conceber o real, ou mesmo uma deformação da realidade. O termo surgiu em 1925, quando o crítico de arte alemão Franz Roh (1890-1965) pretendia caracterizar a pintura pós-expressionista.

Nessa perspectiva, alguns críticos buscaram diferenciar o realismo mágico ou fantástico do chamado “realismo maravilhoso”, que está associado ao incomum, ao extraordinário, mas sem o estranhamento dos personagens diante da realidade maravilhosa, algo muito associado à cultura latino-americana. No realismo mágico ou fantástico, tudo não passa de uma criação; já no realismo maravilhoso, há uma representação do “maravilhoso” presente na realidade; portanto, o “maravilhoso” é expresso com naturalidade, como é possível observar nas lendas indígenas, por exemplo.

Contudo, é comum englobar, em uma mesma categoria, o realismo maravilhoso e o realismo mágico ou fantástico, que, de forma geral, apresenta as seguintes características:

Isso é o que podemos ver neste trecho do conto O pirotécnico Zacarias, de Murilo Rubião:

A única pessoa que poderia dar informações certas sobre o assunto sou eu. Porém estou impedido de fazê-lo porque os meus companheiros fogem de mim, tão logo me avistam pela frente. Quando apanhados de surpresa, ficam estarrecidos e não conseguem articular uma palavra.

Em verdade morri, o que vem ao encontro da versão dos que creem na minha morte. Por outro lado, também não estou morto, pois faço tudo o que antes fazia e, devo dizer, com mais agrado do que anteriormente.

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Principais autores do realismo mágico

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Principais obras do realismo mágico

Capa do livro Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, publicado pelo Grupo Editorial Record. [1]
Capa do livro Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, publicado pelo Grupo Editorial Record. [1]

Realismo fantástico no Brasil

Alguns escritores brasileiros utilizaram o realismo fantástico em suas obras:

Contudo, Murilo Rubião (1916-1991) é o principal representante da literatura fantástica brasileira. São trabalhos de sua autoria:

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Realismo fantástico na pintura

Foto de parte da obra Adam vor den Autoritäten (1994), de Rudolf Hausner.
Foto de parte da obra Adam vor den Autoritäten (1994), de Rudolf Hausner.

A escola de realismo fantástico de Viena, fundada em 1946, é composta por um grupo de mais ou menos 30 pintores. A pintura desses artistas é caracterizada por um realismo alegórico ou simbólico. Os mais conhecidos são:

Realismo fantástico no cinema

Ainda existe muita controvérsia entre a crítica especializada sobre o que seria o realismo fantástico no cinema. Assim, não há um consenso a respeito de suas características definidoras. No entanto, grande parte da crítica associa o realismo fantástico cinematográfico a elementos folclóricos, sem, contudo, haver consonância entre as opiniões. Diante dessa realidade, vêm sendo colocadas, nessa categoria, de forma ampla, obras cinematográficas que, de alguma maneira, extrapolam o sentido do real, do concreto, e dialogam com elementos mágicos ou mesmo surreais, como, por exemplo:

Exercícios resolvidos

Questão 01 (Enem)

“Narizinho correu os olhos pela assistência. Não podia haver nada mais curioso. Besourinhos de fraque e flores na lapela conversavam com baratinhas de mantilha e miosótis nos cabelos. Abelhas douradas, verdes e azuis, falavam mal das vespas de cintura fina — achando que era exagero usarem coletes tão apertados. Sardinhas aos centos criticavam os cuidados excessivos que as borboletas de toucados de gaze tinham com o pó das suas asas. Mamangavas de ferrões amarrados para não morderem. E canários cantando, e beija-flores beijando flores, e camarões camaronando, e caranguejos caranguejando, tudo que é pequenino e não morde, pequeninando e não mordendo.”

LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. São Paulo: Brasiliense, 1947.

No último período do trecho, há uma série de verbos no gerúndio que contribuem para caracterizar o ambiente fantástico descrito.

Expressões como “camaronando”, “caranguejando” e “pequeninando e não mordendo” criam, principalmente, efeitos de

a) esvaziamento de sentido.

b) monotonia do ambiente.

c) estaticidade dos animais.

d) interrupção dos movimentos.

e) dinamicidade do cenário.

Resolução:

Alternativa “e”.

Os verbos no gerúndio caracterizam o ambiente fantástico, onde há “besourinhos de fraque” e “baratinhas de mantilha”, por exemplo. Esse ambiente é marcado pela ação, pelo movimento, pelo dinamismo dos canários, beija-flores, camarões e caranguejos.

Questão 02 (UEFS)

Eu era ainda muito criança, mas sabia uma infinidade de coisas que os adultos ignoravam. Sabia que não se deve responder aos cumprimentos dos glimerinos, aquela raça de anões que a gente encontra quando menos espera e que fazem tudo para nos distrair de nossa missão; sabia que nos lugares onde a mãe-do-ouro aparece à flor da terra não se deve abaixar nem para apertar os cordões dos sapatos, a cobiça está em toda parte e morde manso; sabia que ao ouvir passos atrás ninguém deve parar nem correr, mas manter a marcha normal, quem mostrar sinais de medo estará perdido na estrada.

A estrada é cheia de armadilhas, de alçapões, de mundéus perigosos, para não falar em desvios tentadores, mas eu podia percorrê-la na ida e na volta de olhos fechados sem cometer o mais leve deslize.

VEIGA, José J. Os cavalinhos de Platiplanto: contos. 18. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989. p. 61.

José J. Veiga é um escritor representativo da corrente denominada realismo mágico ou fantástico. Tal realismo, provocador de uma sensação de estranhamento, encontra-se presente no texto por meio de um narrador que

a) ironiza a sabedoria acumulada com os anos.

b) se nivela aos mais velhos em conhecimento acerca da vida.

c) se mostra inseguro diante dos desafios que a vida lhe oferece.

d) questiona as fronteiras estabelecidas entre o real e o imaginário.

e) se revela ao leitor através de uma inversão da ordem natural das coisas.

Resolução:

Alternativa “e”.

Quando o narrador diz que “era ainda muito criança, mas sabia uma infinidade de coisas que os adultos ignoravam”, é possível perceber a inversão da ordem natural das coisas, já que os adultos deveriam ter mais conhecimento do que uma criança.

Créditos da imagem:

[1] Reprodução: Editora Record 

 

Por Warley Souza
Professor de Literatura


Fonte: Brasil Escola - https://brasilescola.uol.com.br/literatura/realismo-magico.htm