Absolutismo e mercantilismo são modelos interdependentes de política e de economia, respectivamente, que vigoraram no decorrer da Idade Moderna (entre os séculos XV e XVIII). Enquanto o absolutismo era fundamentado na centralização do poder da monarquia nacional (um rei ou uma rainha que se fortalece pelo controle de um Estado moderno), o mercantilismo consistia em diversas práticas que consolidavam o poder econômico das classes dominantes, como o colonialismo, o metalismo, o protecionismo e o monopolismo.
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O absolutismo foi um modelo de governo monarquista centralizado, vigente no decorrer da Idade Moderna (séculos XV-XVIII), que controlava um Estado-nação. Para compreendermos melhor o que isso significa, é necessário voltar ainda mais no tempo, quando a Europa vivia o contexto da Idade Média (séculos V-XV).
As relações de poder que fundamentavam a Idade Média, no geral, eram baseadas em centenas de territórios controlados por vassalos que deviam juramentos a seus suseranos. Na prática, significava que não havia Estados centralizados, pois cada um dos inúmeros territórios europeus possuía suas próprias regras, geralmente estipuladas pelos seus senhores. Se observarmos um mapa da distribuição territorial europeia, veremos que ele se parecia com uma “colcha de retalhos”, termo usado por muitos estudiosos medievalistas, em alusão às centenas de reinos que se formaram no decorrer da Idade Média, os quais tinham suas fronteiras constantemente revisadas por conta de guerras ou pela prática de compra e de venda de porções de terras.
Porém, no decorrer da crise da Idade Média, ou o que chamamos de Baixa Idade Média (séculos X-XV), esse modelo complexo de distribuição territorial passou por uma profunda transformação. Nesse contexto, surgiram os primeiros reinos que, mais tarde, seriam consolidados como absolutistas na modernidade, como a monarquia francesa, que consolidou a forte dinastia capetiana quando o duque Hugo Capeto foi aclamado rei ao final do século X. Filipe II Augusto, rei capetiano entre os anos de 1180 a 1223, expulsou os britânicos da Normandia, Filipe IV, o Belo, que governou a França entre 1285 a 1314, passou a cobrar impostos da Igreja Católica, fortalecendo a relação da monarquia com a ascendente burguesia e com uma parcela da nobreza.
Com o advento da Guerra dos Cem Anos (1337-1453), o repúdio nutrido pelos franceses contra os ingleses auxiliou na construção de uma identidade comum, de cunho nacionalista, em grande parte incentivada pela liderança de Joana d’Arc. Mesmo antes da vitória francesa, construíram-se os primeiros preceitos do absolutismo, por sua vez apoiado pela cada vez mais influente burguesia, que havia sido beneficiada durante o período capetiano. A partir de 1589, com a ascensão de Henrique IV ao trono francês, iniciou-se a poderosa dinastia Bourbon, que descendia dos Capetos que se tornaria o apogeu do modelo absolutista.
Com o início da Idade Moderna, a Europa vivenciou outro grande conflito: a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), travada entre Estados católicos e protestantes. Parte desse período foi liderada pelo primeiro-ministro cardeal Richelieu, que defendia o princípio da Razão de Estado, preceito que estipulava quaisquer meios necessários para que os objetivos do Estado fossem atingidos. Mesmo oficialmente católica, a França aliou-se aos Estados protestantes (motivada pelo princípio da Razão de Estado, defendida pelo primeiro-ministro cardeal Richelieu) e auxiliou no desmantelamento do Império Habsburgo.
Apesar de a França consolidar-se como o maior Estado Absolutista da Europa, ela não foi necessariamente o primeiro: a primeira potência a utilizar esse modelo político foi Portugal, ainda no século XV, principalmente em decorrência da Reconquista Cristã sobre os muçulmanos da Península Ibérica. Mesmo assim, a maior representação do absolutismo consolidou-se pela figura do Rei Luís XIV, monarca que governou a França entre 1643 e 1715 e que ficou popularmente conhecido como o “Rei Sol”, pois ele autoafirmava-se como o centro do universo, de modo que o mundo deveria girar ao seu redor.
Na França, além da centralização do poder nas mãos do monarca, a sua autoridade era justificada pela vontade de Deus e contava com o auxílio de um corpo administrativo de alta influência (a burocracia), assim como com a consolidação de exércitos nacionais profissionais e com uma sociedade estamental dividida entre clero (Primeiro Estado), nobreza (Segundo Estado) e o povo (Terceiro Estado).
Esse modelo de governo seria mais tarde chamado de “Antigo Regime” pelos estudiosos iluministas. No entanto, o modelo absolutista não se concentrou apenas nesse Estado-nação, tendo sido adotado também pela Inglaterra, pela Espanha, por Portugal, pela Rússia, entre outros, apesar de cada um desses Estados governarem conforme as necessidades e as possibilidades de suas respectivas classes dominantes: os ingleses, por exemplo, adotaram a monarquia constitucional que limitava os poderes totais da monarquia por conta do fortalecimento do Parlamento resultante das Revoluções Inglesas (1640-1688).
Por fim, é importante lembrarmos que as convenções que fundamentavam o absolutismo eram formuladas por influentes estudiosos políticos e filósofos, principalmente os que possuíam prestígio entre as classes dominantes. Entre os seus principais teóricos, podemos citar o italiano Nicolau Maquiavel, cuja obra principal foi O Príncipe (1513), em que propunha como um governo absolutista deveria ser administrado para se tornar bem-sucedido (de forma que, se não for possível ser amado, é melhor ser temido), o inglês Thomas Hobbes, autor do livro Leviatã (1651), no qual defendia a existência de um governo forte e autoritário, a fim de que a paz seja mantida por meio da contenção da maldade inerente ao ser humano, e o bispo francês Jacques-Bénigne Bossuet, que manifestou a associação do absolutismo ao direito divino em Política Tirada das Santas Escrituras (1709).
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O mercantilismo foi o modelo econômico utilizado pelos Estados absolutistas que consistia em diversos conceitos que auxiliariam a abrir caminho, na contemporaneidade, para a ascensão do capitalismo. Observe detalhadamente cada um desses conceitos a seguir:
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O absolutismo (modelo político) e o mercantilismo (modelo econômico) eram interdependentes, ou seja, dependiam um do outro para existirem.
No modelo absolutista de governo, era o poder centralizado que intervinha diretamente na economia de seu Estado, conforme as demandas criadas pelo monarca e pelo seu conselho. Com isso, as relações sociais comuns do decadente feudalismo entraram em crise, principalmente porque as taxas antes pagas aos senhores feudais, ocorridas em grande parte no campo, passaram a ser substituídas pelo pagamento de impostos nas áreas urbanas.
Porém, para que a intervenção do poder centralizado funcionasse corretamente, era necessário que a economia fluísse conforme definiam os conceitos do mercantilismo. Eles giravam em torno do colonialismo, do metalismo, do protecionismo, do monopolismo, entre outras características resultantes destas práticas econômicas. Foi graças a esse modelo econômico que, em diversos momentos, as mais poderosas figuras do absolutismo consolidaram o seu poder social, a exemplo de Luís XIV (França), de Filipe II (Espanha), de Elizabeth I (Inglaterra), de Dom João V (Portugal) e de Pedro, o Grande, (Rússia).
Essa relação de interdependência mostrou-se mais nítida na França sob a autoridade de Luís XIV: o seu ministro das finanças, Jean-Baptiste Colbert, propôs o colbertismo, que fiscalizava rigorosamente as manufaturas do Estado e privilegiava companhias de comércio para facilitar o processo de monopolização.
Quando uma prova do Enem insere em suas questões de História algum assunto relacionado ao absolutismo e ao mercantilismo, exige-se mais do candidato a sua interpretação sobre os símbolos do poder social do que definições precisas, pois as questões quase sempre surgem acompanhadas da exigência de interpretação de textos ou de figuras e demandam o conhecimento básico do estudante sobre o assunto. Não é incomum, também, a cobrança de conhecimentos relacionados aos teóricos do absolutismo.
Vejamos alguns exemplos:




Os exemplos acima demonstram que, nas provas do Enem, absolutismo e mercantilismo tendem a ser cobrados por meio da leitura crítica de textos e de imagens, da associação aos seus teóricos ou em relação a outras áreas da História, como os estudos sobre o Brasil.
Questão 1
(UEM)
“As constantes lutas desse período [referente ao Absolutismo francês] inspiraram Alexandre Dumas, no século XIX, a escrever o romance Os três mosqueteiros. Num cenário de combates, duelos, masmorras, fugas e amores tumultuosos, seus personagens reproduzem a época de Richelieu.” (Adaptado de VICENTINO, C. História geral – ensino médio. São Paulo: Scipione, 2006, p. 213).
Sobre esse período, assinale o que for correto.
01) Na primeira metade do século XVII, o Cardeal Richelieu, ministro do rei da França, Luís XIII, adotou uma série de medidas visando ao fortalecimento do poder político dos trabalhadores livres e dos sans cullotes.
02) Buscando diminuir a influência política da nobreza, o Cardeal Richelieu cassou direitos dos que se opunham ao rei.
04) Os Estados Gerais, compostos por representantes da nobreza e do clero, reuniram-se com frequência e tiveram participação efetiva no governo de Luís XIII.
08) Os conflitos retratados, que ocorreram na França no século XVII, inserem-se no contexto das lutas políticas que conduziram ao fortalecimento do poder régio.
16) Esse período foi marcado pela ascensão política dos protestantes na França. Com essa ascensão, foram organizadas expedições colonizadoras, com a fundação da França Antártica, no Brasil.
Resolução:
Total: 10 (02+08)
O papel de Richelieu no absolutismo francês foi o de legitimar o poder absoluto do rei, tanto por meio da execução de nobres conspiradores quanto por meio da anulação de poderes políticos que contestassem o monarca. Igualmente importante foram os conflitos que levaram ao fortalecimento do poder do rei, que passou a ter como responsabilidade o controle do Estado para dissolver disputas entre antigos principados feudais.
Questão 2
(Fatec - Adaptado) Potosí e Vila Rica foram duas cidades economicamente importantes das Américas espanhola e portuguesa, respectivamente, uma vez que, do entorno delas, foram extraídos metais preciosos. A acumulação desses e de outros metais, o controle da balança comercial e o monopólio do comércio colonial foram parte de uma política econômica que fortaleceu Estados europeus e garantiu o seu desenvolvimento econômico posterior. Assinale a alternativa que apresenta, corretamente, os metais extraídos do entorno dessas duas cidades coloniais e a respectiva política econômica à qual o texto se refere.
A) Diamante e cobre – Monetarismo
B) Ouro e diamante – Monetarismo
C) Cobre e níquel – Metalismo
D) Prata e ouro – Mercantilismo
E) Níquel e prata – Mercantilismo
Resolução:
Alternativa D.
A prata e o ouro foram os metais extraídos com maior abundância pelos Estados Absolutistas, principalmente pelos espanhóis, que colonizaram a maior parte do continente americano. O mercantilismo foi o modelo de política econômica adotada pela Espanha, de forma que o metalismo consistia em apenas uma de suas características.
Créditos de imagem
[1] Basile Morin / Wikimedia Commons (reprodução)
[2] JFVP / Wikimedia Commons (reprodução)
Fontes
ANDERSON, Perry. Linhagens do Estado Absolutista. São Paulo: Editora Unesp, 2016.
CORVISIER, André. História Moderna. São Paulo: Difel, 1980.
FALCON, Francisco. Mercantilismo e transição. São Paulo: Brasiliense, 1981.
LOPES, Marcos A. O Absolutismo: política e sociedade na Europa moderna. São Paulo: Brasiliense, 1996.
NOVAIS, Fernando A. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808). São Paulo: Editora 34, 2019.
O LIVRO DA FILOSOFIA. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2016.
Fonte: Brasil Escola - https://brasilescola.uol.com.br/historiag/absolutismo-mercantilismo.htm