O sonho americano, ou american dream, é um conceito disseminado pelo governo dos Estados Unidos a partir da primeira metade do século XX. Teoricamente, esse conceito propunha que todos os cidadãos do país teriam oportunidades idênticas de ascensão social e enriquecimento, desde que se comprometessem com o trabalho árduo e honesto. No entanto, essa premissa omitia os obstáculos dos diferentes grupos sociais do país e seus imigrantes em potencial, refletidos em suas diversas raças, gêneros, descendências, religiões, entre outros. As origens do sonho americano remontam ao processo de colonização britânica sobre a América, iniciado no século XVII.
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O chamado “sonho americano” (american dream), disseminado pelo governo dos Estados Unidos a seus cidadãos inicialmente na primeira metade do século XX, tratava-se da promessa meritocrática de prosperidade e ascensão social adquiridos por meio do trabalho honesto, justo e assíduo. Essas conquistas, teoricamente, seriam igualmente alcançadas por qualquer cidadão estadunidense, independentemente de sua origem.
Na prática, porém, características de igualdade do “sonho americano” não expunham as divergências estruturais refletidas na pluralidade de raças, gêneros, religiões, descendências, entre outros. Pelo contrário, mostrou-se uma ferramenta de propaganda política utilizada para angariar apoio popular perante o sistema econômico liberalista do país, beneficiando apenas grupos que já possuíam poder financeiro e aumentando a estratificação social de sua população.
O sonho americano representa os valores fundamentais da estrutura sociopolítica estadunidense, ou seja, a ideia de que o país representa o maior símbolo de prosperidade em toda a América graças às ofertas de sua economia liberal. Em outras palavras, representa a identidade de uma nação que oferece oportunidade de riquezas a todos os que se submetem ao trabalho árduo e se comprometem a ser honestos, cumprindo suas funções cívicas e obedecendo às suas leis.
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Apesar de o sonho americano ter se propagado principalmente no início do século XX, as suas raízes remontam ao período de invasão colonial britânica sobre a América, durante a sua ocupação em solo norte-americano, iniciada no século XVII.
Naquele contexto, a ocupação da colônia chamada de “Nova Inglaterra” — mais tarde, de Treze Colônias, e doravante, de Estados Unidos — foi fortemente exercida por religiosos protestantes que buscavam fugir da influência religiosa propagada por uma ala dissidente de anglicanos (da Inglaterra).
Os puritanos eram como uma vertente reformista inglesa do calvinismo, mas desde a fundação da Igreja Anglicana pelo rei Henrique VIII, o seu grupo passou a contestar cada vez mais a forma como o Estado mantinha relações com os costumes do catolicismo. Por isso, os puritanos migraram para a América, instigados a fundar uma nova nação longe dos preceitos impostos pelas Igrejas tanto anglicana, quanto católica.
Essa nova nação, futuro Estados Unidos, seria fundamentada por valores calvinistas radicalizados. Sua principal característica era a crença na predestinação, ou seja, a ideia de que as almas, no nascimento, já eram destinadas a irem para o céu, ou para o inferno. A insegurança dos calvinistas perante o seu destino só poderia ser aliviada de uma forma: o exercício do trabalho como vocação. Na concepção puritana, a conquista de riquezas por meio do trabalho honesto era sinal de que Deus estaria impelido a demonstrar que o indivíduo havia sido predestinado a ir para o céu após a morte.
Essa ideia de riqueza por meio do trabalho foi adaptada para atender aos interesses econômicos dos Estados Unidos da América quando de sua declaração de independência sobre o Reino Unido, em 1776, e serviu de pretexto para atrair não qualquer tipo de imigrante, mas os comprometidos com o trabalho incansável, principalmente vindos da Europa. Com a declaração de independência, foram atribuídos aos cidadãos conceitos iluministas baseados no trabalho, na liberdade e na busca pela felicidade.
Desde a fundação dos Estados norte-americanos, as ex-colônias que pertenciam ao Sul do país continuaram utilizando o trabalho escravo, além de o país, como um todo, ter financiado programas de expansão sobre o Oeste, e consequentemente, a eliminação de povos indígenas. Na prática, a ideia de “sonho americano” estava se expandindo, mas ela não valia para africanos, indígenas e seus descendentes. Com o advento do século XIX, teorias pseudocientíficas como a eugenia, o determinismo e o etnocentrismo tornaram o “sonho americano” um convite ainda mais exclusivo aos imigrantes europeus.
No século XX, após a subsequente Crise de 1929, que resultou principalmente da superprodução e da concentração de renda (fenômenos possíveis em Estados capitalistas liberais), os EUA passaram por um colapso identitário que permeou dúvidas acerca de seu modelo econômico. No decorrer da década de 1930, a fim de reverter a impressão negativa, o governo passou a adotar novas medidas que soassem atraentes tanto para os seus cidadãos, quanto para os estrangeiros; a principal delas foi o New Deal, que previa a intensa intervenção do Estado sobre a economia para evitar novas crises.
Nessa política econômica, adotada pelo presidente Franklin D. Roosevelt, foi mencionada a importância do “sonho americano” como sinônimo de fé na reascensão da prosperidade estadunidense, desde que todos se concentrassem em colaborar com a nação. Como consequência, todos, sem discriminação, teriam oportunidades de ascender socialmente.
O american dream, conceito cunhado pelo historiador norte-americano James Truslow no livro The Epic of America (algo como “A epopeia da América”) em 1931, foi rapidamente difundido por meios midiáticos como rádio, televisão e jornais; no entanto, o “sonho americano” se tornou parte do imaginário popular graças à indústria cultural. Filmes, novelas e mesmo músicas passaram a transmitir a ideia de que era possível enriquecer, nos Estados Unidos, mesmo que a pessoa comprometida “viesse de baixo” na pirâmide social.
Com o advento da Guerra Fria, em meados da década de 1940, o modelo de american dream serviu de propaganda política pró-capitalista para se opor ao modelo socialista soviético. Nesse contexto, o american dream se aliou a outro conceito ideológico poderoso do governo norte-americano: o american way of life, ou “estilo de vida americano”, que previa um meio de vida consumista, confortável e economicamente seguro para os seus cidadãos da classe média urbana.
O sonho americano é atrativo porque se apropria do conceito de meritocracia. Na teoria, a premissa da meritocracia oferece ascensão social a todos os que se comprometerem com o trabalho, sem importar as suas origens; ou seja, qualquer pessoa poderia enriquecer, mesmo que iniciasse seu trabalho “do zero”. Além disso, o sonho americano propunha o individualismo e o direito de aquisição a riquezas, bens de consumo e propriedades individuais, devido aos valores liberalistas de não intervenção do Estado na economia.
O sonho americano, apesar de se basear em conceitos otimistas de ascensão social, funcionava de maneira diferente, na prática. O fundamento de igualdade, independentemente das origens, ignorava as diversas nuances de aspectos raciais, de gênero, religiosos, entre outros, ao mesmo tempo em que sugeria que o fracasso financeiro individual seria resultado da falta de esforço do indivíduo, e não do sistema econômico vigente. Atualmente, centenas de milhares de pessoas moram nas ruas, nos EUA. De acordo com o “sonho americano”, o motivo seria da falta de esforço desses cidadãos, que teriam as mesmas oportunidades dos demais.
Além disso, o sonho americano fomenta a ideia de que a felicidade só provém da riqueza, do consumo e dos bens materiais; e, no contexto em que foi disseminado, o custo de vida no país norte-americano era extremamente elevado, principalmente em decorrência da Crise de 1929, dificultando a ascensão social para as gerações que vieram após o colapso econômico. Não coincidentemente, os níveis de criminalidade aumentaram no país, provenientes em grande parte de cidadãos frustrados com as perspectivas do sonho americano.
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O sonho americano se tornou um dos temas mais explorados pela indústria cultural, representado em grande parte pelo cinema hollywoodiano, nem sempre de forma direta, mas contextualizado em situações de desilusão e confronto ao american dream. Confira nossas recomendações:
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Fontes
BARBOSA, Kelly de S.; COELHO, Nuno M. M. dos S. A questão étnico-social do sonho americano: o encarceramento dos pobres e negros no Estado policial. Revista Brasileira de Segurança Pública. São Paulo: RIBSP, v.11, n.1, p.164-182, 2017.
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Fonte: Brasil Escola - https://brasilescola.uol.com.br/historiag/sonho-americano.htm