Clara dos Anjos, de Lima Barreto

Clara dos Anjos é um livro do escritor brasileiro Lima Barreto. Ele conta a história de uma jovem negra e suburbana. Possui caráter realista e antirromântico.

Clara dos Anjos é um romance do escritor brasileiro Lima Barreto. Nessa narrativa, Clara dos Anjos, uma jovem negra do subúrbio carioca, é seduzida por Cassi Jones, branco e membro da classe média. O rapaz é mau-caráter, não tem profissão e tem por hábito abusar de jovens pobres para depois abandoná-las.

O livro foi escrito no início do século XX e está inserido no pré-modernismo. Assim, possui caráter realista e antirromântico, apresenta crítica sociopolítica, além de ser uma das primeiras obras de autores negros brasileiros a denunciarem o preconceito racial no país.

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Resumo sobre Clara dos Anjos

Videoaula com a análise de Clara dos Anjos

Análise da obra Clara dos Anjos

O tempo da narração é cronológico. Já o tempo da narrativa não está indicado no romance. No entanto, as características de seus personagens indicam que a ação transcorre no início do século XX.

A história se passa no subúrbio do Rio de Janeiro.

Os dois melhores amigos de Joaquim dos Anjos são Marramaque e Lafões. Eles são habituais frequentadores da casa do carteiro. É Lafões quem decide levar Cassi Jones (“mestre do violão e da modinha”) ao aniversário de Clara. Mas o poeta Marramaque, desde o início, se opõe, já que Cassi Jones, segundo ele, “não pode entrar em casa de família”.

Cassi é branco e de família burguesa. O rapaz, sem emprego e com deficiente instrução, já foi denunciado várias vezes por seduzir e abandonar moças virgens. Mas sempre conseguia se safar, pois tinha a proteção da mãe, que lhe arrumava advogados. E suas vítimas eram sempre “de humilde condição”.

Durante um jantar na casa do carteiro, Marramaque adverte o compadre sobre Cassi Jones. Clara, desde a primeira vez que ouviu o nome do rapaz, está atenta à conversa e cheia de curiosidade. Clara dos Anjos é negra, mas com uma pele um pouco mais clara, assim como a de seu pai.

Raramente sai de casa, a não ser para bordar na casa de dona Margarida. Foi criada cheia de cuidados e prevenções, o que fez dela uma jovem sonhadora. No entanto, os pais da moça acabam cometendo um erro ao permitirem que o violeiro compareça ao aniversário da jovem. Quando ela ouve Cassi Jones cantar uma modinha, logo se apaixona por ele.

Porém, na segunda visita que faz à casa da moça, Cassi não é bem tratado por Joaquim. Isso o faz querer ainda mais se aproximar dela. Mais tarde, descobre que Marramaque não gosta dele e que pode ser um grande obstáculo ao seu plano de seduzir Clara. Assim, Cassi suborna Menezes, o dentista, para que ele entregue cartas à jovem suburbana.

Dessa forma, os dois iniciam um namoro por correspondência. Quando ela conta esse segredo à dona Margarida, esta, para o bem da moça, conta tudo à mãe de Clara. A resistência dos pais e do padrinho faz Clara querer fugir e até se matar. Em carta, deixa Cassi ciente da influência de Marramaque.

Então, Cassi Jones planeja e executa (com Arnaldo) o assassinato de Marramaque. A morte do padrinho de Clara vira notícia no subúrbio onde mora o carteiro. A polícia começa a investigar o crime, mas sem sucesso. Logo o fato é esquecido. Clara, no entanto, suspeita que Cassi Jones está envolvido no assassinato.

Contudo, ela se convence de que as ameaças do rapaz a Marramaque não passaram de um ato de loucura, motivado pelo amor que sentia por ela. Cassi, por sua vez, decide ir embora do subúrbio e vai para a “cidade”, modo como ele se refere ao centro. Ali, ele encontra Inês, a sua primeira vítima, a qual está em total decadência.

Ele tenta fugir, mas a mulher pega-o pelo braço e faz um escândalo. Ele fica sabendo que o filho que teve com ela está preso, é um “pivete”. Por fim, Cassi consegue se desvencilhar e se afasta do tumulto causado pela mulher. Já Clara descobre que está grávida e pede ajuda à dona Margarida para fazer um aborto, assim sugere o narrador.

Então a vizinha convence Clara a contar tudo para dona Engrácia, que cai em lágrimas. Dona Margarida então decide ir, com Clara, à casa de Cassi para pedir providências à família do rapaz. A mãe de Cassi, como sempre, defende o filho, e, quando Clara exige que Cassi se case com ela, Salustina retruca: “Que é que você diz, sua negra?”.

Dona Margarida defende Clara, e dona Salustiana, fazendo-se de vítima, chama as filhas, que logo percebem que o motivo da confusão é Cassi. Dona Salustiana acha que Clara, por ser negra e pobre, é pouca coisa para o seu filho. No mais, o rapaz fugiu, como já relatamos. Então, Clara volta para casa e, finalmente, encara a realidade, ao dizer para sua mãe: “Nós não somos nada nesta vida”.|1|

A obra conta com um narrador onisciente, conhecedor de sentimentos e pensamentos íntimos dos personagens.

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Características da obra Clara dos Anjos

O livro Clara dos Anjos está dividido em 11 capítulos. Apesar de apresentar um final satisfatório, é um romance inacabado, segundo o próprio autor. A obra está inserida no contexto do pré-modernismo. Assim, é realista, antirromântica, apresenta crítica sociopolítica, mostra a realidade do subúrbio, denuncia o preconceito racial e utiliza linguagem coloquial.

Lima Barreto

Lima Barreto, em 1917.
Lima Barreto, em 1917.

Lima Barreto (Afonso Henriques de Lima Barreto) nasceu em 13 de maio de 1881, na cidade do Rio de Janeiro. Negro, filho de uma professora primária e de um tipógrafo, ficou órfão de mãe aos seis anos de idade. Mais tarde, começou a estudar Engenharia na Escola Politécnica, mas abandonou o curso, em 1902, devido a problemas familiares.

Após ser aprovado em um concurso, em 1903, passou a trabalhar como funcionário público. Anos depois, tornou-se alcoólatra e, por isso, foi internado mais de uma vez em um hospício. Em 1918, aposentou-se por invalidez, pois estava com a saúde bastante prejudicada. Faleceu em 1º de novembro de 1922, no Rio de Janeiro.

Contexto histórico de Clara dos Anjos

A República Velha, período histórico brasileiro, durou de 1889 a 1930. Essa época foi marcada pelo nacionalismo, fortalecido pelo fim da monarquia, mas também pela dominação econômica e política dos fazendeiros (ou coronéis), particularmente os dos estados de Minas Gerais e de São Paulo.

Se esses dois estados eram os mais ricos, devido à produção de café e do leite, estados do Nordeste enfrentavam a miséria, enquanto o Rio de Janeiro assistia ao aumento da exclusão social. Nesse contexto, o escritor Lima Barreto mostrava, em suas obras, a realidade dos subúrbios cariocas, que contribuíam para a formação de uma identidade nacional.

Nota

|1| LIMA BARRETO. Clara dos Anjos. Rio de Janeiro: Mérito, 1948.

Créditos da imagem

[1] Editora FTD (reprodução)

 

Por Warley Souza
Professor de Literatura


Fonte: Brasil Escola - https://brasilescola.uol.com.br/literatura/lima-barreto.htm