A paixão segundo G.H. de Clarice Lispector

A paixão segundo G.H. é um romance da escritora Clarice Lispector. Apresenta características do pós-modernismo brasileiro e mostra o monólogo interior da personagem G.H.

A paixão segundo G.H. é um romance da escritora brasileira Clarice Lispector. O livro é uma narrativa da terceira fase do modernismo brasileiro (ou pós-modernismo). De caráter existencial, a obra é marcada pelo tempo psicológico típico do fluxo de consciência, ou seja, o monólogo interior da narradora-personagem.

O livro relata as ações da personagem G.H. e evidencia seus pensamentos, em uma viagem interior ocorrida em certo dia, após a empregada da protagonista pedir demissão. Sozinha em casa, G.H. encontra uma barata no quarto de empregada, mata o inseto e decide provar o gosto da massa branca que sai dele.

Leia também: A hora da estrela — um dos romances mais importantes de Clarice Lispector

Resumo sobre A paixão segundo G.H.

  • A personagem e narradora G.H. está sozinha em seu apartamento após sua empregada pedir demissão.
  • G.H. entra no quarto de empregada, mata uma barata no guarda-roupa vazio e fica fascinada com a massa branca que sai do inseto.
  • A narradora faz uma viagem existencial para dentro de si mesma, em constante fluxo de consciência.
  • Por fim, ela prova o gosto da massa branca que sai da barata, de forma a simbolizar um momento de epifania.

Análise da obra A paixão segundo G.H.

Capa do livro A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, publicado pela editora Rocco. [imagem_principal]
Capa do livro A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, publicado pela editora Rocco.[1]
  • Personagens

    • A barata: inseto no guarda-roupa.
    • A empregada: Janair.
    • A narradora: G.H.
    • O interlocutor: um homem.
  • Tempo

A obra conta com tempo psicológico, pois o que predomina não é “o tempo do relógio”, mas o tempo interior da personagem. O tempo cronológico é mínimo: a narradora fala do dia anterior, ou seja, do ontem em relação ao tempo da narração. Quanto ao tempo da narrativa, não há especificação do ano. Mas é possível concluir que a ação se passa no início dos anos 1960, quando a obra foi escrita.

  • Espaço

A narrativa transcorre no apartamento da narradora, que fica, provavelmente, situado no Rio de Janeiro. A narradora menciona a cidade uma vez, mas não dá para saber se ela vive nessa cidade ou apenas está pensando nela.

  • Narrador

O romance apresenta narrador-personagem, pois quem narra a história é a protagonista da obra, G.H.

  • Enredo

A paixão segundo G.H. começa assim:

— — — — — — estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização pois não quero me confirmar no que vivi — na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro.

E por que estou fazendo tal citação? É que o enredo de A paixão segundo G.H. é mínimo. Grande parte da obra é composta pela viagem interior da personagem. Quando li esse livro pela primeira vez, cheguei à conclusão de que ele é um livro para ler mais de uma vez, infinitas vezes. Isso porque ele é profundo, o tipo de obra que não se esgota em apenas uma leitura.

Basicamente, o enredo do romance é o seguinte:

  • uma mulher (a narradora) entra no quarto vazio de sua ex-empregada;
  • no guarda-roupa, a narradora-personagem encontra uma barata;
  • ela mata a barata e sente o desejo de provar o gosto da massa branca que saiu da barata;
  • até realizar tal desejo, fica ali no quarto com seus pensamentos íntimos e profundos.

Apesar de o livro A hora da estrela ser o grande queridinho dos fãs de Clarice (E realmente é um livro magistral!), A paixão segundo G.H. é sua obra mais densa e fascinante. Como o enredo é mínimo, predomina na obra a profundidade existencial:

Não. Sei que ainda não estou sentindo livremente, que de novo penso porque tenho por objetivo achar — e que por segurança chamarei de achar o momento em que encontrar um meio de saída. Por que não tenho coragem de apenas achar um meio de entrada? Oh, sei que entrei, sim. Mas assustei-me porque não sei para onde dá essa entrada. E nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse para o quê.

Assim, antes de narrar os fatos do dia anterior, a personagem evidencia sua busca existencial. Mas também mostra seu desejo de interação: “Esse esforço que farei agora por deixar subir à tona um sentido, qualquer que seja, esse esforço seria facilitado se eu fingisse escrever para alguém”. É como se a narradora construísse sua reflexão como se constrói um texto com destinatário:

Mas receio começar a compor para poder ser entendida pelo alguém imaginário, receio começar a “fazer” um sentido, com a mesma mansa loucura que até ontem era o meu modo sadio de caber num sistema. Terei que ter a coragem de usar um coração desprotegido e de ir falando para o nada e para o ninguém? assim como uma criança pensa para o nada. E correr o risco de ser esmagada pelo acaso.

Nessa parte, ela se compara sutilmente a uma barata, pois também pode ser “esmagada”. Ao se igualar ao inseto, ela se integra a algo maior, a própria natureza. E também evidencia seu testemunho em relação à existência:

Eu vi. Sei que vi porque não dei ao que vi o meu sentido. Sei que vi — porque não entendo. Sei que vi — porque para nada serve o que vi. Escuta, vou ter que falar porque não sei o que fazer de ter vivido. Pior ainda: não quero o que vi. O que vi arrebenta a minha vida diária. Desculpa eu te dar isto, eu bem queria ter visto coisa melhor. Toma o que vi, livra-me de minha inútil visão, e de meu pecado inútil.

Ela reflete sobre quem ela é:

“Esse ela, G.H. no couro das valises, era eu; sou eu — ainda? Não. Desde já calculo que aquilo que de mais duro minha vaidade terá de enfrentar será o julgamento de mim mesma: terei toda a aparência de quem falhou, e só eu saberei se foi a falha necessária”.

A narradora começa com suas reflexões para enfim nos contar o que aconteceu no dia anterior: ontem de manhã ela foi até o quarto da empregada. Nessa ocasião, diz a narradora: “nada me fazia supor que eu estava a um passo da descoberta de um império. A um passo de mim”.

Eram quase dez horas da manhã. A empregada tinha pedido a demissão no dia anterior. G.H., a narradora, permaneceu por um tempo à mesa do café, enquanto arredondava com os dedos um miolo de pão. Por fim, levantou-se com o intuito de arrumar a casa, pois estava sem empregada.

Além disso, tirou o telefone do gancho para não ser perturbada em sua solidão. Decidiu começar pelo quarto da empregada: “atravessei a cozinha que dá para a área de serviço. No fim da área está o corredor onde se acha o quarto. Antes, porém, encostei-me à murada da área para acabar de fumar o cigarro”. A empregada chamava-se Janair, e sua ex-patroa evidencia a sua invisibilidade social:

Foi quando inesperadamente consegui rememorar seu rosto, mas é claro, como pudera esquecer? Revi o rosto preto e quieto, revi a pele inteiramente opaca que mais parecia um de seus modos de se calar, as sobrancelhas extremamente bem desenhadas, revi os traços finos e delicados que mal eram divisados no negror apagado da pele.

Os traços — descobri sem prazer — eram traços de rainha. E também a postura: o corpo erecto, delgado, duro, liso, quase sem carne, ausência de seios e de ancas. E sua roupa? Não era de surpreender que eu a tivesse usado como se ela não tivesse presença: sob o pequeno avental, vestia-se sempre de marrom escuro ou de preto, o que a tornava toda escura e invisível — arrepiei-me ao descobrir que até agora eu não havia percebido que aquela mulher era uma invisível. Janair tinha quase que apenas a forma exterior, os traços que ficavam dentro de sua forma eram tão apurados que mal existiam: ela era achatada como um baixo-relevo preso a uma tábua.

Dentro do guarda-roupa, G.H. encontrou uma barata:

De encontro ao rosto que eu pusera dentro da abertura, bem próximo de meus olhos, na meia escuridão, movera-se a barata grossa. Meu grito foi tão abafado que só pelo silêncio contrastante percebi que não havia gritado. O grito ficara me batendo dentro do peito.

G.H. foi tomada pelo medo, pois a barata representa algo mais profundo, ligado à ancestralidade:

Toda uma vida de atenção — há quinze séculos eu não lutava, há quinze séculos eu não matava, há quinze séculos eu não morria — toda uma vida de atenção acuada reunia-se agora em mim e batia como um sino mudo cujas vibrações eu não precisava ouvir, eu as reconhecia. Como se pela primeira vez enfim eu estivesse ao nível da Natureza.

A suposta morte da barata é assim narrada: “levantei a mão como para um juramento, e num só golpe fechei a porta sobre o corpo meio emergido da barata — — — — — — — — — — — — — — —”. G.H. ficou fascinada com a barata aparentemente morta: “A matéria da barata, que era o seu de dentro, a matéria grossa, esbranquiçada, lenta, crescia para fora como de uma bisnaga de pasta de dentes”.

Ilustração de uma barata morta em alusão ao personagem da obra A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector.
A conexão entre G.H. e a barata permeia toda a obra. G.H. mata a barata e deseja provar da massa que saiu de dentro dela.

Ela olhou a barata:

Vista de perto, a barata é um objeto de grande luxo. Uma noiva de pretas joias. É toda rara, parece um único exemplar. Prendendo-a pelo meio do corpo com a porta do armário, eu isolara o único exemplar. O que aparecia dela era apenas a metade do corpo. O resto, o que não se via, podia ser enorme, e dividia-se por milhares de casas, atrás de coisas e armários. Eu, porém, não queria a parte que me coubera. Atrás da superfície de casas — aquelas joias embaçadas andando de rojo?

Em seu fluxo de consciência (monólogo interior), de caráter existencial, a narradora não reflete sobre questões mundanas, seus pensamentos sugerem questionamentos acerca de quem ela é, quem somos, o que é a existência. É uma completa internalização, ela se volta para dentro de si para compreender a existência e o mundo. A narradora dirige-se a um interlocutor (não identificado) diversas vezes na obra, um “tu”:

Lembrei-me de ti, quando beijara teu rosto de homem, devagar, devagar beijara, e quando chegara o momento de beijar teus olhos — lembrei-me de que então eu havia sentido o sal na minha boca, e que o sal de lágrimas nos teus olhos era o meu amor por ti. Mas, o que mais me havia ligado em susto de amor, fora, no fundo do fundo do sal, tua substância insossa e inocente e infantil: ao meu beijo tua vida mais profundamente insípida me era dada, e beijar teu rosto era insosso e ocupado trabalho paciente de amor, era mulher tecendo um homem, assim como me havias tecido, neutro artesanato de vida.

G.H. continuou a olhar, fascinada, para a barata, que ainda resistia:

De vez em quando, por um leve átimo, a barata mexia as antenas. Seus olhos continuavam monotonamente a me olhar, os dois ovários neutros e férteis. Neles eu reconhecia meus dois anônimos ovários neutros. E eu não queria, ah, como eu não queria!.

Então G.H. lembrou-se

de mim mesma andando pelas ruas ao saber que faria o aborto, doutor, eu que de filho só conhecia e só conheceria que ia fazer um aborto. Mas eu pelo menos estava conhecendo a gravidez. Pelas ruas sentia dentro de mim o filho que ainda não se mexia, enquanto parava olhando nas vitrines os manequins de cera sorridentes. E quando entrara no restaurante e comera, os poros de um filho devoravam como uma boca de peixe à espera. Quando eu caminhava, quando eu caminhava eu o carregava.

Além do homem amado e do doutor, a narradora também apresenta outra interlocutora:

Mãe: matei uma vida, e não há braços que me recebam agora e na hora do nosso deserto, amém. Mãe, tudo agora tornou-se de ouro duro. Interrompi uma coisa organizada, mãe, e isso é pior que matar, isso me fez entrar por uma brecha que me mostrou, pior que a morte, que me mostrou a vida grossa e neutra amarelecendo. A barata está viva, e o olho dela é fertilizante, estou com medo de minha rouquidão, mãe.

Mas tais pessoas não estão presentes, é como se G.H. falasse sozinha com seus interlocutores, sem especificar quem são, pois o “eu” parece supremo em detrimento do “outro”. E essa “mãe”, tudo indica, é a Virgem Maria:

Mãe, eu só fiz querer matar, mas olha só o que eu quebrei: quebrei um invólucro! Matar também é proibido porque se quebra o invólucro duro, e fica-se com a vida pastosa. De dentro do invólucro está saindo um coração grosso e branco e vivo com pus, mãe, bendita sois entre as baratas, agora e na hora desta tua minha morte, barata e joia.

Assim, a narradora mistura o ancestral, o divino (que ela assim define: “o divino para mim é o real”) e o pessoal com a suprema existência de uma barata. A conexão entre G.H., humana, e a barata permeia toda a obra.

A narradora acabou adormecendo:

Então, com cuidado, como se já tivesse em mim partes paralisadas, fui-me deitando no colchão áspero e ali, toda crispada, adormeci tão imediatamente assim como uma barata adormece na parede vertical. Não havia estabilidade humana no meu sono: era o poder de equilíbrio de uma barata que adormece à superfície de cal de uma parede.

A barata é a ligação com o passado ancestral:

Olhando-a, eu via a vastidão do deserto da Líbia, nas proximidades de Elschele. A barata que lá me precedera de milênios, e também precedera aos dinossauros. Diante da barata, eu já era capaz de ver ao longe Damasco, a cidade mais velha da terra. No deserto da Líbia, baratas e crocodilos? Eu estivera o tempo todo sem querer pensar no que já realmente pensara: que a barata é comível como uma lagosta, a barata era um crustáceo.

Ela inspira G.H. a pensar sobre o que é ser humano:

Mas é que tornar-se humano pode se transformar em ideal e sufocar-se de acréscimos... Ser humano não deveria ser um ideal para o homem que é fatalmente humano, ser humano tem que ser o modo como eu, coisa viva, obedecendo por liberdade ao caminho do que é vivo, sou humana. E não preciso cuidar sequer de minha alma, ela cuidará fatalmente de mim, e não tenho que fazer para mim mesma uma alma: tenho apenas que escolher viver. Somos livres, e este é o inferno. Mas há tantas baratas que parece uma prece.

A obra apresenta referências bíblicas, tais como Cristo, o fruto proibido, além de algo que a narradora chama de “o Deus”. Mas não é uma obra religiosa no sentido banal do termo, não há defesa ou enaltecimento de crença, mas apenas transcendentalismo associado à reflexão existencial:

Escuta sem susto e sem sofrimento: o neutro do Deus é tão grande e vital que eu, não aguentando a célula do Deus, eu a tinha humanizado. Sei que é horrivelmente perigoso descobrir agora que o Deus tem a força do impessoal — porque sei, oh eu sei! que é como se isso significasse a destruição do pedido!

Tal transcendentalidade também se mostra em trechos como:

E eu não quero o reino dos céus, eu não o quero, só aguento a sua promessa! A notícia que estou recebendo de mim mesma me soa cataclísmica, e de novo perto do demoníaco. Mas é só por medo. É medo. Pois prescindir da esperança significa que eu tenho que passar a viver, e não apenas a me prometer a vida. E este é o maior susto que eu posso ter. Antes eu esperava. Mas o Deus é hoje: seu reino já começou.

E seu reino, meu amor, também é deste mundo. Eu não tinha coragem de deixar de ser uma promessa, e eu me prometia, assim como um adulto que não tem coragem de ver que já é adulto e continua a se prometer a maturidade.

G.H., após suas reflexões, volta-se de novo para a barata. Aliás, desde o momento em que a amassou com a porta do guarda-roupa, ela a menciona, às vezes com uma comparação, às vezes diretamente:

Não contei que, ali sentada e imóvel, eu ainda não parara de olhar com grande nojo, sim, ainda com nojo, a massa branca amarelecida por cima do pardacento da barata. E eu sabia que enquanto eu tivesse nojo, o mundo me escaparia e eu me escaparia. Eu sabia que o erro básico de viver era ter nojo de uma barata. Ter nojo de beijar o leproso era eu errando a primeira vida em mim — pois ter nojo me contradiz, contradiz em mim a minha matéria.

Assim, a obra aproxima-se de seu fim e seu ápice:

Mas eu sabia que não era assim que eu deveria fazer. Sabia que teria que comer a massa da barata, mas eu toda comer, e também o meu próprio medo comê-la. Só assim teria o que de repente me pareceu que seria o antipecado: comer a massa da barata é o antipecado, pecado seria a minha pureza fácil.

G.H. finalmente prova da massa branca da barata:

Crispei minhas unhas na parede: eu sentia agora o nojento na minha boca, e então comecei a cuspir, a cuspir furiosamente aquele gosto de coisa alguma, gosto de um nada que no entanto me parecia quase adocicado como o de certas pétalas de flor, gosto de mim mesma — eu cuspia a mim mesma, sem chegar jamais ao ponto de sentir que enfim tivesse cuspido minha alma toda. “— — — porque não és nem frio nem quente, porque és morno, eu te vomitarei da minha boca”, era Apocalipse segundo são João, e a frase que devia se referir a outras coisas das quais eu já não me lembrava mais, a frase me veio do fundo da memória, servindo para o insípido do que eu comera — e eu cuspia.

Ela explica: “Eu que pensara que a maior prova de transmutação de mim em mim mesma seria botar na boca a massa branca da barata. E que assim me aproximaria do... divino? do que é real? O divino para mim é o real”.

O significado do título da obra é sugerido por essas palavras de G.H.: “O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça — que se chama paixão”. Ou ainda:

É exatamente através do malogro da voz que se vai pela primeira vez ouvir a própria mudez e a dos outros e a das coisas, e aceitá-la como a possível linguagem. Só então minha natureza é aceita, aceita com o seu suplício espantado, onde a dor não é alguma coisa que nos acontece, mas o que somos. E é aceita a nossa condição como a única possível, já que ela é o que existe, e não outra. E já que vivê-la é a nossa paixão. A condição humana é a paixão de Cristo.

Provar da barata foi uma espécie de epifania, de revelação, de descoberta:

Oh Deus, eu me sentia batizada pelo mundo. Eu botara na boca a matéria de uma barata, e enfim realizara o ato ínfimo.

Não o ato máximo, como antes eu pensara, não o heroísmo e a santidade. Mas enfim o ato ínfimo que sempre me havia faltado. Eu sempre fora incapaz do ato ínfimo. E com o ato ínfimo, eu me havia deseroizado. Eu, que havia vivido do meio do caminho, dera enfim o primeiro passo de seu começo.

E assim G.H. conclui sua obra:

O mundo independia de mim — esta era a confiança a que eu tinha chegado: o mundo independia de mim, e não estou entendendo o que estou dizendo, nunca! nunca mais compreenderei o que eu disser. Pois como poderia eu dizer sem que a palavra mentisse por mim? como poderei dizer senão timidamente assim: a vida se me é. A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro.— — — — — —

Percebeu como A paixão segundo G.H. é uma obra profunda? Ela exige leitura atenta. E a experiência de cada leitora e de cada leitor é única. Então, aproveite!

Veja também: A metamorfose — obra de Kafka que narra sobre um homem que se transformou em uma barata

Características da obra A paixão segundo G.H.

  • Estrutura

A obra é divida em 33 capítulos ou fragmentos, sem numeração ou título. E cada capítulo começa com a última frase do capítulo anterior, evidenciando a continuação do pensamento.

  • Estilo literário

A obra de Clarice Lispector está inserida na terceira fase do modernismo brasileiro (ou pós-modernismo). Obras desse estilo apresentam uma estrutura não convencional (por exemplo, fragmentação textual), monólogo interior (o fluxo de pensamentos da protagonista), reflexões existenciais e temas universais (entendidos em qualquer tempo ou lugar).

Contexto histórico da obra A paixão segundo G.H.

O livro A paixão segundo G.H. foi publicado, pela primeira vez, em 1964. Como a narradora não especifica o ano em que a história se passa, somos levados a concluir que seria início dos anos 1960, ou seja, a época de sua produção. Assim, a obra foi publicada no ano em que ocorreu o golpe militar no Brasil, golpe que deu início a mais uma ditadura no país.

Precedeu o golpe o governo de João Goulart, marcado pela urbanização e pelo crescimento econômico. E também pelo fortalecimento dos sindicatos e pelo crescimento do movimento estudantil. Globalmente, o mundo estava sob a ameaça da Guerra Fria (disputa econômica e ideológica entre Estados Unidos e União Soviética).

Como A paixão segundo G.H. apresenta temática universal ou existencial, ela não parece refletir a agitação política do período em que foi produzida. Apesar disso, a narradora deixa transparecer a diferença de classe entre ela (membro da elite) e a empregada. Mas o que sobressai na obra é o caráter existencial, que pode ter sido impulsionado pela insegurança de existir no início dos anos 1960.

Frases de A paixão segundo G.H.

  • “Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais.”
  • “É difícil perder-se.”
  • “A visão de uma carne infinita é a visão dos loucos.”
  • “É proibido dizer o nome da vida.”
  • “Toda compreensão súbita é finalmente a revelação de uma aguda incompreensão.” 
  • “A verdade não faz sentido, a grandeza do mundo me encolhe.”
  • “Só ao me reviver é que vou viver.”
  • “Há um mau gosto na desordem de viver.”
  • “A barata é pura sedução.”
  • “A vida é tão contínua que nós a dividimos em etapas, e a uma delas chamamos de morte.”
  • “De nascer até morrer é o que eu me chamo de humana, e nunca propriamente morrerei.”
  • “A hora de viver é tão infernalmente inexpressiva que é o nada.”
  • “A liberdade é um segredo.” 
  • “O mundo só não me amedrontaria se eu passasse a ser o mundo.”
  • “Eu estava vivendo a pré-história de um futuro.”
  • “O erro é um dos meus modos fatais de trabalho.”
  • “Eu sou mansa mas minha função de viver é feroz.”
  • “A dor não é o nome verdadeiro disso que a gente chama de dor.”
  • “Piedade é ser filho de alguém ou de alguma coisa.”
  • “Ser o mundo é a crueldade.”
  • “O nome da coisa é um intervalo para a coisa.”
  • “A esperança é um filho ainda não nascido, só prometido, e isso machuca.”
  • “Eu preferia continuar pedindo, sem ter a coragem de já ter.” 
  • “O grande vazio em mim será o meu lugar de existir; minha pobreza extrema será uma grande vontade.”
  • “Também se pode violentar Deus diretamente, através de um amor cheio de raiva.”
  • “Solidão é ter apenas o destino humano.”
  • “Solidão é não precisar.”
  • “O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem.”
  • “Desistir é o verdadeiro instante humano.”
  • “A desistência é uma revelação.”

Filme A paixão segundo G.H.

O filme A paixão segundo G.H. é um longa-metragem de 2023, dirigido por Luiz Fernando Carvalho. E protagonizado pela atriz brasileira Maria Fernanda Cândido, como G.H., além de Samira Nancassa, como Janair. É, portanto, uma adaptação do romance de mesmo nome de Clarice Lispector. Em 2026, o filme está disponível em streaming na plataforma MUBI.

Saiba mais: Quarto de despejo: diário de uma favelada — análise e contexto da obra de Carolina Maria de Jesus

Clarice Lispector, autora de A paixão segundo G.H.

A escritora Clarice Lispector, autora de A paixão segundo G.H.
A escritora Clarice Lispector, autora de A paixão segundo G.H.

Clarice Lispector nasceu em 10 de dezembro de 1920, em Tchetchelnik, na Ucrânia. Seus pais, judeus, vieram para o Brasil em 1922, onde passaram a residir em Maceió e, depois, Recife. Já em 1935, mudaram-se para a cidade do Rio de Janeiro, onde Clarice fez faculdade de Direito, enquanto trabalhava como redatora na Agência Nacional. 

Ela se casou com Maury Gurgel Valente em 1943, ano em que a autora publicou seu primeiro romance: Perto do coração selvagem. Seu marido era cônsul, por isso a escritora estava na Itália no final da Segunda Guerra Mundial, quando atuou como voluntária para cuidar de feridos de guerra. Também morou na Suíça, Inglaterra e Estados Unidos.

Voltou a viver definitivamente no Brasil em 1959, quando se separou do marido. Em 1966, sofreu queimaduras quando houve um incêndio em sua casa. Autora consagrada, faleceu em 9 de dezembro de 1977, no Rio de Janeiro, em decorrência de um câncer de ovário.

→ Videoaula sobre Clarice Lispector

Créditos da imagem

[1] Editora Rocco (reprodução)

Fontes

ABAURRE, Maria Luiza M.; PONTARA, Marcela. Literatura: tempos, leitores e leituras. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2021.

INSTITUTO MOREIRA SALLES. Clarice Lispector: vida. Disponível em: https://site.claricelispector.ims.com.br.

LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2020.

SILVA, Daniel Neves. Governo João Goulart. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historiab/governo-joao-goulart.htm.


Fonte: Brasil Escola - https://brasilescola.uol.com.br/literatura/a-paixao-segundo-gh-de-clarice-lispector.htm