Marco Polo foi um mercador veneziano que passou quase quatro anos viajando até a China, atravessando diversas paisagens orientais e conhecendo inúmeros povos do continente asiático durante o século XIII. A sua amizade com Kublai Khan, imperador mongol responsável pelo advento da Dinastia Yuan na China, permitiu ao viajante conhecer a cultura sino-mongol de perto, bem como os costumes e práticas desse povo.
Anos depois, Marco Polo retornou à Itália, mas acabou sendo preso por alguns meses durante uma guerra travada entre Veneza e Gênova. No entanto, esse evento permitiu a escrita de seu livro, “O Livro das Maravilhas”, já que passou o tempo preso na companhia de um escrivão que registrava as histórias narradas pelo viajante. O livro foi tão disseminado na época, que muitos europeus encararam sua narrativa como uma ficção, tamanha era a distância cultural entre os povos do Ocidente e do Oriente.
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Marco Polo foi um explorador italiano nascido em Veneza que se tornou reconhecido por registrar, de forma bem-sucedida, suas viagens pelo continente asiático durante parte do século XIII, tornando-se um dos principais responsáveis pela criação do imaginário europeu em relação ao Oriente durante a Idade Média. Nascido em 1254, ele era filho e sobrinho de ricos comerciantes venezianos, Niccolò Polo e Maffeo Polo, respectivamente, ou apenas os “irmãos Polo”. Marco entrou em contato com o mundo asiático pela primeira vez aos dezessete anos ao percorrer a longa Rota da Seda, que conectava, principalmente por terra, os continentes europeu e asiático.
Em 1295, depois de vinte e quatro anos de viagens por grande parte da Ásia, Marco Polo retornou a Veneza, que desde 1256 travava uma guerra contra Gênova, outra república italiana, pelo controle das rotas marítimas mediterrânicas. Quase imediatamente, Marco se voluntariou para o combate e se encarregou de um galeão (não se sabe com certeza, porém, de que forma isso foi possível; é possível que ele tenha voluntariamente adaptado um navio para combate). Durante uma batalha, foi feito prisioneiro pelos genoveses e acabou compartilhando cela com Rusticano de Pisa, um escriba; na prisão, ele narrou suas aventuras enquanto Rusticano as registrava.
No ano seguinte, libertado da prisão, cópias manuscritas do que seria “O Livro das Maravilhas” se disseminaram rapidamente pela Europa. Elas narravam o seu contato com culturas asiáticas distantes da Europa medieval, como as persas, as mongóis, as chinesas, as indianas, as tártaras, entre outras, influenciando no imaginário europeu em relação ao Oriente. No ano de 1324, Polo morreu com sessenta e nove anos de idade, deixando diversos leitores da época incrédulos com sua narrativa.
A primeira grande viagem de Marco Polo ocorreu por meio de um convite do pai e do tio que, na década de 1260, haviam estabelecido um contato amistoso com o grande conquistador Kublai Khan, neto do imperador Gengis Khan, que havia conduzido o Império Mongol a seu ápice e estabelecido o seu canato na China, tornando-se fundador da Dinastia Yuan. Naquela ocasião, o khan havia responsabilizado os irmãos Polo de entregarem pessoalmente uma carta ao papa, solicitando o envio de intelectuais católicos para o seu canato sino-mongol. Kublai era reconhecido por estimar a tolerância religiosa e o contato entre diferentes culturas.
Foi no retorno à Europa que Niccolò conheceu o seu filho, quando este tinha quinze anos de idade. Órfão de mãe, Marco tornou-se fascinado pelas histórias de viagens que o pai e o tio contavam. Decidido a incluir o filho nas próximas longas viagens, Niccolò e o irmão, Maffeo, partiram mais uma vez para a distante China. Mas ao invés da companhia de uma centena de intelectuais europeus solicitados por Kublai Khan, apenas dois frades dominicanos aceitaram viajar com Niccolò, Maffeo e Marco Polo, agora com dezessete anos. Nos primeiros sinais de perigo, porém, os frades desistiram da longa viagem.
Parte do início da viagem foi feita pelos mares da costa italiana. Veneza, o ponto de partida, era uma das maiores potências marítimas e comerciais da Europa. Depois de atravessarem os mares Adriático, Jônico e Mediterrâneo, desembarcaram na cidade de Acre, no Oriente Médio, então ocupada pelos cruzados europeus. De lá, adentraram a Rota da Seda pela Pérsia e seguiram a sudeste, percorrendo cidades como Erzurum, na atual Turquia, e Tabriz, no atual Irã; ao chegarem em Kerman, voltaram-se para a direção nordeste, rumo à gélida região montanhosa de Pamir, que engloba atualmente partes do Tadjiquistão, Afeganistão, China e Quirguistão.
Chegaram ao vasto Deserto de Gobi, outrora parte do ponto de partida da expansão mongol liderada por Gengis Khan. Foi mais ou menos nessa altura da viagem que o khan concedeu aos viajantes uma escolta de sua própria horda, até que alcançassem o destino. Outra longa travessia os levou até a chinesa Yangshuo, e de lá, rumaram para finalmente para Pequim, naquele contexto nomeada Dadu por Kublai Khan e tornada a nova capital do Império Mongol. A viagem de ida havia levado entre três e quatro anos para ser finalizada.
Durante dezessete anos, enquanto praticava o comércio com o pai e o tio, Marco Polo se tornou amigo do imperador e se integrou parcialmente à cultura daquela sociedade. Seus registros identificavam costumes e práticas que mais tarde influenciariam o cotidiano europeu, como as cidades com ruas largas, o dinheiro de papel-moeda, as rondas policiais noturnas, as pontes arquitetadas com altura suficiente para que barcos passassem sem baixarem seus mastros, os serviços de transporte de carruagens semelhantes aos contemporâneos “táxis”, os canais de drenagem urbanos, os caminhos arborizados, entre outros. Enquanto isso, o pai e o tio de Marco continuaram a expandir suas fortunas na China por meio de transações comerciais.
Uma relutante oportunidade concedeu a Marco Polo outra viagem distante a partir da China: a grande Pérsia, que ele havia parcialmente atravessado em sua viagem de ida para a Ásia Oriental. O pedido pela presença dos Polo tinha como principal objetivo a escolta da princesa mongol Kököchin, que deveria se casar com Arghun Khan, chefe do canato persa (Ilcanato). No entanto, o caminho não seria apenas a rota de volta por onde os Polo haviam percorrido até chegar à China, dessa vez, a maior parte da viagem seria por mar, em uma frota de treze navios.
Apesar de a viagem se provar quase desastrosa, custando diversas vidas e navios — além de se descobrir, mais tarde, que o khan Arghun havia falecido — o pagamento dos Polo pelo deslocamento foi uma grande quantidade de ouro.
O ponto de partida do itinerário foi o porto de Quanzhou, ao leste da China, e de lá, contornaram a Ásia Meridional no sentido oeste. Passaram o Estreito de Malaca, entre as atuais Malásia e Singapura, e atravessaram o Golfo de Bengala até a Índia, navegando pelas bordas terrestres via Mar da Arábia. Foi apenas em Ormuz, no atual Irã, que se puseram a percorrer o itinerário por terra, através da Rota da Seda.
O caminho depois do cumprimento da escolta foi de volta a Veneza, cujo itinerário foi novamente em grande parte pelo mar. Viajaram pela costa sul do Mar Negro e atravessaram os estreitos de Bósforo e Dardanelos, na atual Turquia, contornando a imponente cidade de Constantinopla. Alcançaram o mar Jônico e por fim o Adriático, encerrando a viagem no ano de 1295, quando desembarcaram em Veneza.
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Como vimos anteriormente, Marco Polo chegou à China por meio de uma viagem que durou entre três e quatro anos, em sua maior parte, percorrida através de estradas e perigosos caminhos sinuosos, embora seus primeiros momentos tenham sido pelo mar. O ponto de partida era a cidade de Veneza, conhecida por ser a maior potência marítima da Itália do século XIII.
A travessia pelos mares a leste da Península Itálica levou Marco, seu pai e seu tio a desembarcarem na cidade palestina de Acre, ao extremo leste do mar Mediterrâneo. De lá, rumaram para a Pérsia, onde passaram a percorrer a Rota da Seda, que conectava os continentes europeu e asiático. Alcançaram os perigosos caminhos das Montanhas de Pamir, na Ásia Central, e a partir de então atravessaram o vasto Deserto de Gobi e seus estepes, adentrando o território da China pelo noroeste do país, até alcançarem Pequim, à época, nomeada Dadu pela Dinastia Yuan.
A viagem de Marco Polo durou vinte e quatro anos. Desde o ponto de partida, em Veneza, até Pequim, na China, passaram-se entre três a quatro anos (não há dados explícitos que confirmem o tempo exato de viagem). Ele permaneceu em território mongol por cerca de dezessete anos, e da China até o seu retorno a Veneza, levou mais ou menos outros três anos.
Sim, Marco Polo esteve no Oriente, apesar de casos de ceticismo surgidos durante o tempo. Desde o lançamento de seus relatos, o viajante foi questionado sobre a veracidade de sua viagem ao Oriente. A primeira instituição a questionar os seus feitos foi a Igreja Católica, cuja lenda popular afirma ter pressionado Polo a “desmentir” suas aventuras para que sua alma fosse perdoada; em resposta, ele teria declarado que não descrevera sequer metade do que havia registrado. Porém, não há evidências históricas dessas palavras ditas por Polo, e o ceticismo relacionado às suas viagens foi bastante reforçado ao longo do tempo.
Uma das razões é que não há menções ao viajante italiano nos registros históricos da Dinastia Yuan; além disso, muitos dos relatos de Polo que deveriam ser óbvios em relação à cultura chinesa foram omitidos da narrativa de seu livro. No entanto, essas “falhas” na história têm justificativa: ele não era uma figura da nobreza mongol a ponto de ser referenciado em um documento real (e se foi, possivelmente teve o nome escrito de outra forma na respectiva língua).
Muitas das consideradas “omissões”, mais tarde, mostraram-se de fato importantes, porque olhares mais atentos descobriram que as discrepâncias relacionadas à cultura oriental tinham justificativa, como o fato de Polo ter ignorado a Grande Muralha da China, por exemplo, que à sua época estava defasada e antecedia à reforma conduzida pela Dinastia Ming, que a levaria ao auge apenas entre os séculos XIV e XVII.
A dúvida relacionada à viagem de Marco Polo foi significativamente refutada na primeira metade da década de 1940, quando o historiador chinês Yang Zhijiu descobriu um documento nativo que mencionava emissários persas em companhia de três membros da família Polo, em referência à viagem de Marco, o pai e o tio até o canato mongol da Pérsia.
Outra coisa que comprova a veracidade da narrativa de Polo é o fato de ele ter “previsto” características posteriormente comprovadas pela história da China, como a emissão do papel-moeda, as pontes altas para facilitar as navegações e até mesmo espécies de animais das quais praticamente não havia registros na Idade Média, como os rinocerontes encontrados nas ilhas de Sumatra, que foram interpretados como unicórnios de aparência desagradável.
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Créditos da imagem
Fontes
BERGREEN, Laurence. Marco Polo: de Veneza a Xanadu. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
IMDB. Disponível em: https://www.imdb.com/pt/
PEATTIE, Donald C. O primeiro viajante do mundo. Grandes vidas, grandes obras. Lisboa: Selecções do Reader’s Digest, 1980.
POLO, Marco. O Livro das Maravilhas. Porto Alegre: L&PM, 1999.
Fonte: Brasil Escola - https://brasilescola.uol.com.br/biografia/marco-polo.htm