Afinal, o que é arte sacra? Arte sacra são as manifestações artísticas criadas com a finalidade específica de servir ao culto religioso, à liturgia e à vivência do sagrado. Diferentemente de outras formas de expressão artística que abordam temas espirituais de maneira mais livre, a arte sacra já nasce vinculada a uma função ritual concreta e a um sistema simbólico reconhecido por uma tradição religiosa.
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Arte sacra são todas as manifestações artísticas criadas com a finalidade específica de servir ao culto religioso, à liturgia e à vivência do sagrado. Diferentemente de outras formas de expressão artística que abordam temas espirituais de maneira mais livre, a arte sacra já nasce vinculada a uma função ritual concreta e a um sistema simbólico reconhecido por uma tradição religiosa.
O conceito de arte sacra está diretamente vinculado à noção de sagrado. Segundo o cientista das religiões Mircea Eliade, o “sagrado” é aquilo que se manifesta no mundo por meio de objetos, de imagens e de espaços que se diferenciam do cotidiano, do comum, do “profano”, e que funcionam como pontos de contato entre o humano e o divino, entre o profano e o sagrado. A arte sacra, nesse sentido, funciona como esse contato, como uma forma de materialização do sagrado em imagens, em esculturas, em arquiteturas, em objetos ritualísticos e em outras expressões artísticas realizadas com esse propósito.
No âmbito do patrimônio cultural, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) oferece uma definição técnica de arte sacra em seu Guia de identificação de arte sacra. |1| O instituto afirma que a arte sacra compreende obras produzidas para uso religioso direto, como imagens de culto, de retábulos, de altares, de paramentos litúrgicos e de objetos usados em cerimônias. O elemento central dessa definição técnica não é o tema religioso somente, mas a finalidade litúrgica da expressão artística.
A arte sacra possui características próprias que a distinguem de outras manifestações artísticas, mesmo daquelas que abordam temas religiosos.
A primeira característica fundamental da arte sacra é a sua função litúrgica e ritual. Essas obras são criadas para serem utilizadas em celebrações religiosas, em ritos, em procissões ou em práticas devocionais. Sua existência, portanto, está diretamente ligada a um uso específico dentro de uma tradição religiosa e não somente contemplação estética.
Outra característica central é o simbolismo codificado. A arte sacra utiliza símbolos, cores, gestos e formas que possuem significados específicos reconhecidos pelos sacerdotes e pelos praticantes de determinada tradição religiosa. Esses códigos não são arbitrários e seguem convenções estabelecidas ao longo do tempo. A cor de uma vestimenta, o gesto de uma mão e a posição de uma figura em uma pintura podem carregar sentidos teológicos precisos e profundos.
Outro traço recorrente na arte sacra é o caráter coletivo de sua produção e de sua recepção. Diferentemente da arte moderna, marcada pela valorização do artista individual, pela sua personalidade e pela sua originalidade, a arte sacra tradicional está inserida em uma tradição profunda e cheia de simbolismo em que o autor se insere e que frequentemente tem mais relevância nesse contexto do que o próprio autor. Muitas obras sequer eram assinadas, pois o foco, nesses âmbitos, estava na função religiosa daquela expressão artística e não na sua autoria, ainda que, para os estudiosos e para os pesquisadores dessas expressões artísticas, a autoria passa a ser, nesse outro contexto de compreensão daquela expressão, muito buscada, valorizada e reconhecida.
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Embora, no senso comum, os termos “arte sacra” e “arte religiosa” sejam frequentemente usados como sinônimos, a história da arte e as ciências da religião fazem uma distinção importante entre eles.
Exemplos de arte sacra podem ser encontrados em quase todos os lugares e tradições religiosas. No Brasil, onde a religião predominante é o catolicismo romano, podemos citar, como exemplo, as esculturas de santos, muito comuns na tradição católica, que são um exemplo claro de arte sacra. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), essas imagens de santos católicos foram produzidas para devoção pública e privada, utilizadas em altares, em procissões e celebrações específicas, o que as distingue pela sua função ritual e litúrgica. Esculturas em madeira policromada, por exemplo, são uma representação bastante típica da religiosidade católica popular brasileira.
Ainda no âmbito do catolicismo, objetos litúrgicos como cálices, ostensórios, relicários, custódias e paramentos não possuem apenas valor artístico, mas também finalidade ritualística, o que os caracteriza também como arte sacra.
Apesar da ênfase que se dá ao catolicismo quando se trata da arte sacra no Brasil pela importância que essa tradição religiosa possui no país, não somente no presente como no passado que se estende ao passado colonial, a arte sacra está longe de se restringir a essa tradição. As expressões de arte sacra no Brasil são tão ricas e variadas quanto a própria formação histórica, étnica e cultural do país. No candomblé e na umbanda, por exemplo, arte sacra manifesta-se em esculturas e em imagens de orixás, nos assentamentos rituais, nos objetos litúrgicos, como as ferramentas simbólicas de Ogum ou de Oxossi, por exemplo, e nos trajes tradicionais carregados de profundo simbolismo dos praticantes. Os próprios terreiros (lugares de culto) são organizados segundo princípios cosmológicos específicos. Nessas tradições, os objetos não são meramente decorativos, mas considerados portadores de axé, isto é, de força sagrada.
No protestantismo e no pentecostalismo, tradições em que a doutrina impõe restrições ao uso de imagens figurativas, a arte sacra aparece em algumas manifestações mais ou menos explícitas como na música litúrgica, nos hinos dos protestantes e nos louvores dos pentecostais, que cumprem claro papel litúrgico.
No judaísmo, praticado no Brasil desde o período colonial, sendo que a primeira sinagoga das Américas, Kahal Zur Israel (Rocha de Israel), foi fundada em Recife, em Pernambuco, no ano de 1636, a arte sacra está presente em objetos como a menorá (candelabro de sete braços), o rolo da Torá (livro sagrado), o Aron Hakodesh (arca sagrada) e diversos elementos arquitetônicos, todos elementos regidos por normas litúrgicas e religiosas tradicionais específicas.
Esses exemplos mostram que, mesmo com linguagens visuais e materiais distintas, diferentes religiões no Brasil produzem arte sacra, cada uma a seu modo, o que marca a riqueza cultural e étnica de nosso país.
A arte sacra está profundamente ligada aos lugares de culto dentro das diferentes tradições religiosas, pois são criadas para funcionar dentro desses espaços considerados sagrados. Os principais locais onde a encontramos são, portanto, nas igrejas, nas capelas, nos mosteiros, nos santuários, nos terreiros, nas sinagogas e em outros lugares de culto em que essas obras cumprem sua função litúrgica e simbólica original.
Além dos espaços de culto em funcionamento, a arte sacra também pode ser encontrada em museus, em acervos e em centros de memória histórica, locais que concentram importantes produções artísticas, muitas delas ligadas à vida monástica ou à espiritualidade de diferentes tradições religiosas. O deslocamento de obras de arte sacra para museus ocorre, em geral, por razões de preservação, de segurança e de educação patrimonial. No entanto, esse processo altera a forma como o público se relaciona com essas obras, que passam a ser vistas prioritariamente como objetos artísticos ou históricos e não como objetos litúrgicos.
Também é possível encontrar arte sacra em coleções privadas, especialmente de imagens devocionais e de objetos litúrgicos antigos. Muitas dessas peças fazem parte do patrimônio histórico e cultural, de valor inestimável para a coletividade, estando por isso, sujeitas a regras específicas de proteção que, no Brasil, são definidos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A importância da arte sacra vai muito além de seu valor estético. Do ponto de vista da ciência histórica, ela desempenha um papel central na forma como diferentes sociedades, em diferentes épocas, cultuam suas divindades e realizam sua religiosidade, sendo um documento histórico que demonstra não só suas crenças, como também seus valores e suas visões de mundo, tanto na atualidade como em períodos históricos específicos.
De um ponto de vista mais antropológico, pode-se argumentar que a importância da arte sacra corrobora a busca do ser humano por referências simbólicas para dar sentido à existência e para organizar a experiência do sagrado. Nesse sentido, a arte sacra cumpre a função de tornar visível o invisível, oferecendo imagens, formas e representações que ajudam os indivíduos e as comunidades a se relacionarem com o transcendente e com o suprassensível.
Assim, a importância da arte sacra passa tanto pela sua capacidade de articular a espiritualidade de uma coletividade como meio de se acessar os valores, as referências e as características históricas e culturais de uma sociedade.
É difícil precisar a origem exata da arte sacra porque ela está diretamente ligada ao surgimento das experiências religiosas organizadas, algo que aconteceu conjuntamente ou muito próximo da origem do ser humano em si. Desde as organizações sociais humanas mais antigas, o ser humano buscou materializar o sagrado em símbolos e em imagens que tornassem o transcendente acessível à experiência profana, ou como explica o cientista das religiões Mircea Eliade: que aproxima o sagrado e o profano.
Exemplos de arte sacra remontam ao Período Paleolítico (2,5 milhões de anos a.C a 10.000 a.C.), como as vênus esteatopígicas, estatuetas femininas datadas entre 30.000 e 20.000 a.C., relacionadas possivelmente a cultos de fertilidade. Alguns exemplares célebres dessas estatuetas são a Vênus de Willendorf, a Vênus de Hohle Fels e a Vênus de Lespugue. Ainda nesse grande período da história humana, encontramos inúmeros artefatos portáteis que indicam rituais, como o homem-leão (Lowenmensch), escultura de marfim de mamute, encontrada na Alemanha, que representa uma figura híbrida (humano-animal), sugerindo crenças em uma divindade antropozoomórfica.
No Período Neolítico (10.000 a.C. a 5.000/3.000 a.C.), podemos citar os célebres monumentos megalíticos, que são estruturas gigantescas de pedra que indicam cultos organizados, astronomia sagrada e enterros coletivos, como o complexo de Stonehenge, na Inglaterra.
De qualquer forma, apesar dos exemplos citados acima, a origem da arte sacra não pode ser atribuída a um único momento ou a uma única cultura, já que ela nasce da necessidade humana de dar forma ao sagrado, desenvolvendo-se historicamente conforme as religiões organizaram-se, expandiram-se e transformaram-se.
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A arte sacra no Brasil é tão rica e variada quanto a composição étnica e cultural desse enorme país, estando profundamente ligada ao processo de colonização portuguesa e à expansão do catolicismo a partir do século XVI e da resistência das tradições religiosas afro-brasileiras e indígenas.
Desde os primeiros momentos da ocupação europeia, imagens, igrejas e objetos litúrgicos católicos foram utilizados como instrumentos de evangelização e de organização da vida religiosa. Nesse âmbito, destacam-se igrejas, capelas, esculturas (imagens de santos), pinturas e objetos de culto. Um período muito reconhecido da arte sacra brasileira católica ocorre entre os séculos XVII e XVIII, com o desenvolvimento do barroco colonial brasileiro, especialmente nas regiões auríferas de Minas Gerais, da Bahia, de Goiás, do Rio de Janeiro e de Pernambuco. Um dos mais emblemáticos nomes da arte sacra no Brasil desse período é Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.
Nas religiões afro-brasileiras, como o candomblé e a umbanda, a arte sacra está profundamente integrada à prática ritual e à cosmologia dessas tradições. No candomblé, por exemplo, a arte sacra manifesta-se nos assentamentos dos orixás, nos objetos simbólicos, como recipientes e ferramentas rituais, nas esculturas dos orixás, nos paramentos rituais, nos instrumentos musicais sagrados (como atabaques consagrados) e a própria organização arquitetônica dos terreiros, que obedecem a princípios religiosos específicos. Na umbanda, além dos assentamentos, destacam-se as imagens de entidades como caboclos, pretos-velhos, entre outras, usadas em contextos rituais e em devocionais, vinculadas diretamente ao culto e à comunicação espiritual e não somente como representação figurativa.
Os museus de arte sacra surgem como resultado de um processo histórico de preservação do patrimônio religioso e artístico. Muitas obras que originalmente pertenciam a igrejas, a conventos e a irmandades religiosas católicas foram, com o tempo, sendo transferidas para museus por razões de conservação, de segurança e de estudo histórico e artístico. Esses museus desempenham um papel fundamental na proteção e na difusão do conhecimento da arte sacra.
A primeira instituição dedicada a coleções especificamente de arte sacra no mundo foi o que hoje é o Museu de Arte Sacra de Funchal, na região de Madeira, em Portugal. Estabelecido no antigo Palácio Episcopal da cidade de Funchal, passou a colecionar e a conservar sistematicamente arte sacra a partir de fins do século XVI, sendo, portanto, um precursor institucional dos museus de arte sacra. Essa instituição pioneira abriga coleções de pinturas, de esculturas e de ourivesaria sacra europeia e atlântica reunidas ao longo de séculos.
No Brasil, o primeiro museu de arte sacra formalmente instituído foi o Museu de Arte Sacra de Goiana, em Pernambuco, inaugurado em 19 de março de 1950, instalado na Igreja de Nossa Senhora do Amparo, reunindo um acervo oriundo de práticas religiosas advindas do período colonial.
Outros importantes museus de arte sacra no Brasil incluem o Museu de Arte Sacra da Bahia, em Salvador, o Museu de Arte Sacra de São Paulo, situado na capital, e o Museu de Arte Sacra da Boa Morte, na cidade de Goiás, entre muitos outros espalhados pelo país.
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Questão 1
A arte sacra costuma ser confundida com arte religiosa, já que ambas mobilizam temas e símbolos vinculados à religião. No entanto, existem diversos critérios usados por historiadores da arte, por museólogos e por estudiosos das religiões para diferenciar esses conceitos.
Nesse sentido, a característica que melhor define a arte sacra, em contraste com a arte religiosa, é:
A) a presença de imagens de divindades, de santos e de narrativas bíblicas.
B) a intenção de provocar emoção estética e impacto visual no observador.
C) a finalidade litúrgica e o uso ritual no contexto de uma tradição religiosa.
D) o emprego de materiais nobres, como ouro, prata e pedras preciosas.
E) a exposição em museus e em instituições patrimoniais reconhecidas.
Resolução:
Alternativa C.
Com base no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e em estudos de museologia e da história da arte, o ponto decisivo não é apenas o “tema religioso”, mas o uso e a finalidade. A arte sacra é produzida para funcionar em práticas de culto (liturgia, devoção, procissões), dentro de códigos e de reconhecimentos institucionais de uma tradição religiosa. Já a arte religiosa pode abordar o sagrado como tema, mas sem servir diretamente ao ritual.
Questão 2
Museus de arte sacra preservam imagens, objetos litúrgicos e obras que, por séculos, estiveram inseridas em igrejas e em espaços de culto. Ao serem transferidas para museus, essas peças passam a ser vistas sob outras lentes — artísticas, históricas e patrimoniais — gerando debates sobre sua interpretação.
O principal efeito desse deslocamento para o museu é:
A) a eliminação completa do valor religioso da obra, que se torna apenas decorativa.
B) a manutenção integral da função ritual, já que o museu substitui o espaço sagrado.
C) a proibição de qualquer apreciação estética, para evitar “profanação” do objeto.
D) a transformação do modo de leitura da obra, que tende a ser percebida mais como patrimônio e como arte do que como objeto de culto.
E) a perda inevitável de autenticidade histórica, pois o museu altera fisicamente as peças.
Resolução:
Alternativa D.
Ao sair do espaço litúrgico a obra deixa de atuar diretamente no ritual e passa a ser interpretada sobretudo como objeto artístico e histórico, ganhando camadas de leitura patrimonial e educativa. Isso não apaga totalmente sua origem sagrada, mas muda o enquadramento e o tipo de relação do público com a peça.
Notas
|1| FABRINO, Raphael João Hallack. Guia de identificação de arte sacra. Rio de Janeiro: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), 2012. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/uploads/publicacao/guia_arte_sacra.pdf.
Créditos de imagem
[1] Paul R. Burley / Wikimedia Commons (reprodução)
[2] Wellington Da Costa Gomez / Wikimedia Commons (reprodução)
[3] Dornicke / Wikimedia Commons (reprodução)
[4] MatthiasKabel / Wikimedia Commons (reprodução)
[5] Jorge Colares / Wikimedia Commons (reprodução)
[6] Wellington Da Costa Gomez / Wikimedia Commons (reprodução)
Fontes
BERTO, João Paulo. A arte a serviço do sagrado: a arte sacra de Cláudio Pastro (1948-) e o Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Encontro de História da Arte, Campinas, n. 8, p. 277–286, 2012. Disponível em: https://doi.org/10.20396/eha.8.2012.4220.
DŽALTO, Davor. The aesthetic face of the sacred. Religions, Basel, v. 10, n. 5, p. 302, 2019. DOI: 10.3390/rel10050302. Disponível em: https://www.mdpi.com/2077-1444/10/5/302.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. Tradução de Rogério Fernandes. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
FABRINO, Raphael João Hallack. Guia de identificação de arte sacra. Rio de Janeiro: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), 2012. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/uploads/publicacao/guia_arte_sacra.pdf.
Fonte: Brasil Escola - https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/historia/o-que-e-arte-sacra.htm