Hipátia de Alexandria foi uma proeminente filósofa, matemática, astrônoma e inventora dos séculos IV e V. Ela nasceu de uma família grega em Alexandria, no Egito. Seus estudos matemáticos e filosóficos, suas criações e suas adaptações de obras complexas lhe angariaram grande renome como intelectual, tornando-se responsável pela escola neoplatônica de Alexandria. A sua relação com a ciência acabou lhe ocasionando a perseguição de religiosos cristãos.
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Hipátia (ou Hipácia) de Alexandria foi uma matemática, filósofa, astrônoma e inventora grega que nasceu e viveu na cidade de Alexandria, no Egito, entre os séculos IV e V. Naquele contexto, a cidade fundada pelo macedônico Alexandre, o Grande, no século IV a.C., estava dominada pelo Império Romano.
Filha de um matemático renomado de Alexandria, Téon, que também dirigia o Museu de Alexandria, Hipátia foi educada na escola neoplatônica da cidade. Realizou parte de seus estudos filosóficos e matemáticos em Atenas e, no regresso à cidade natal, passou a lecionar filosofia e matemática, ambas áreas indissociáveis do conhecimento platônico.
Suas primeiras contribuições como intelectual foram aplicadas a manuscritos matemáticos, como nos Comentários sobre a aritmética de Diofanto (reconhecido como um dos fundadores gregos da aritmética). Com o pai, lançou comentários em Elementos de Euclides e em edições de Almagesto e de Tábuas Úteis, ambas do cientista grego Cláudio Ptolomeu. O hábito de Téon de preservar e de expandir obras do passado foi mantido por Hipátia e assinalou a prática de esclarecer questões menos acessíveis da matemática e de atribuir novos conceitos a partir dessas questões.
Como professora, o renome de Hipátia lhe angariou a chefia da filosófica escola neoplatônica de Alexandria, tornando-se uma das mais notórias docentes do final da Idade Antiga, aplicando o seu conhecimento a aristocratas influentes da cidade, como o governador romano Orestes, a quem dava conselhos políticos, e Sinésio de Cirene, futuro bispo da cidade de Ptolemais, na Cirenaica. Apesar de sua trágica morte, Hipátia foi a primeira mulher matemática a ser registrada pela história.
Apesar de suas invenções não terem resistido ao tempo, muitos registros atribuem à sua autoria diversas contribuições científicas, principalmente nos ramos de conhecimento da matemática, da física e da astronomia. Grande parte desses registros sobreviveu aos milênios graças às cartas do ex-aluno e amigo de Hipátia, o bispo Sinésio de Cirene, enviadas para amigos — entre eles, a própria matemática.
Outras fontes como A História Escolástica do historiador Sócrates Escolástico e História Filosófica do filósofo Damáscio, ambos intelectuais do final da Idade Antiga, comprovam a relevância das contribuições da cientista grega.
Apesar de relativamente escassas, essas fontes registram contribuições científicas de Hipátia de Alexandria que eram utilizadas por ela para fins didáticos, entre elas, o hidrômetro, que consistia em um instrumento capaz de medir a densidade de líquidos, anteriormente teorizado por Arquimedes durante o século III a.C. e cujo modelo de Hipátia significou uma possibilidade cientifica na atribuição da matemática a invenções mecânicas.
Atribuem-se a ela também a correção e o aperfeiçoamento do astrolábio planisférico, que permitia medir a altura das estrelas, determinar a hora local e localizar estrelas e constelações com maior exatidão.
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No contexto da filosofia neoplatônica, a matemática era indissociável: ela não funcionava apenas como fundamento prático ou disciplina, mas como instrumento condutor da compreensão da metafísica (ramo clássico da Filosofia que procura compreender a existência humana e sua relação com o Universo). Como filósofa associada à educação neoplatônica desde a juventude, Hipátia desenvolveu um raciocínio lógico aguçado e o atribuiu a novos conceitos matemáticos.
A contribuição de Hipátia na matemática esteve relacionada à reinterpretação de obras complexas. Esse trabalho reflete especialmente sobre Aritmética, de Diofanto (um tomo sobre álgebra com equações indeterminadas), em que publicou treze volumes explicando os conceitos do matemático de forma didática e muito mais acessível, além de atribuir métodos mais práticos de cálculo. Destacou-se também na publicação de oito livros que facilitavam a compreensão da geometria analítica proposta em As Cônicas, de Apolônio, organizando os estudos voltados às curvas elípticas, parabólicas e hiperbólicas (que derivam da intersecção de um plano com um cone).
As contribuições de Hipátia constituíram na flexibilização de métodos matemáticos complexos e na organização de materiais utilizados para fins didáticos, algo que também lhe permitiu utilizar instrumentos para o uso docente prático, o que resultou no aperfeiçoamento do astrolábio e na invenção do hidrômetro.
Alexandria era um centro cultural habitado por pessoas de diversas origens e, consequentemente, de diversas religiões, entre cristãos de diversas vertentes, judeus e adeptos das religiões tradicionais gregas. Quando Cirilo de Alexandria empossou o cargo de bispo da cidade, instituiu uma rígida perseguição àqueles que renegavam a religião cristã, os chamados pagãos, contradizendo a vontade de Orestes, também católico, mas adepto à tolerância religiosa (conforme demandava a autoridade secular romana).
Como filósofa alinhada às crenças helenísticas, Hipátia enquadrava-se como pagã, e, para atingir a moral de Orestes, Cirilo iniciou boatos entre o círculo de cristãos fanáticos que Hipátia usava de feitiçaria para manipular Orestes, sendo, por isso, responsável pela rivalidade entre o governador e o bispo.
O efeito foi quase imediato: no ano de 415, durante a Quaresma, Hipátia, com cerca de 60 anos de idade, foi emboscada por uma multidão fanática. O seu assassinato foi sistemático e cruel: possivelmente arrastada pelas ruas, ela foi levada a uma catedral cristã, onde a despiram e a esfolaram viva. Morta, ela foi esquartejada, e os restos foram queimados. A sua morte física e simbólica significou a destruição do prestígio científico e da intelectualidade pagã, enquanto Cirilo foi considerado santo pela Igreja Católica e pela Igreja Ortodoxa.
O legado de Hipátia de Alexandria não é único: ela se tornou referência intelectual, cultural e de gênero. Além de tornar obras densas mais acessíveis para estudantes iniciados nos estudos matemáticos e propor o uso mecânico de instrumentos para a compreensão da Física e da Astronomia, Hipátia se tornou um símbolo do orgulho feminino. Mesmo imersa em uma sociedade tradicionalmente patriarcal, conquistou o respeito e o prestígio de diversas camadas alexandrinas.
Como resultado deste legado, o imaginário acerca da vida brilhante e morte trágica de Hipátia inspiraram diversos artistas, especialmente da contemporaneidade.
Hipátia de Alexandria foi retratada em diversas produções artísticas, principalmente a partir do século XIX. Veja a seguir alguns de seus exemplos mais reconhecidos.
Fontes
BO, João L. Alexandria. Vertentes do Cinema, 2021. Disponível em https://vertentesdocinema.com/alexandria/.
DZIESLKA, Maria de. Hipátia de Alexandria. Lisboa: Relógio d’Água, 2009.
FERNANDEZ, Cecília de S.; AMARAL, Ana M. L. F. do; VIANA, Isabela V. A História de Hipátia e de muitas outras matemáticas. Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Matemática, 2019.
FERNANDEZ, José C. Viagem iniciática de Hipátia: Na demanda da alma dos números. Santos: Edições Nova Acrópole, 2010.
OLIVEIRA, Loraine; NEGREIROS, Emílio. Hipácia de Alexandria. In: Enciclopédia Mulheres na Filosofia. Campinas: Blogs de Ciência da Universidade Estadual de Campinas, v.7, n.4, p.1-13, 2023. Disponível em: https://www.blogs.unicamp.br/mulheresnafilosofia/wp-content/uploads/sites/178/2023/12/Hipacia-de-Alexandria-PDF.docx.pdf.
TEATRO B32. Ânima: Novo texto teatral da filósofa Lúcia Helena Galvão, 2024. Disponível em https://teatrob32.com.br/anima/.
WARSI, Karl [et al]. Uma estrela incomparável no céu da sabedoria – Hipácia. In: O Livro da Matemática. Rio de Janeiro: Globo Livros, p.82, 2020.
Fonte: Brasil Escola - https://brasilescola.uol.com.br/biografia/hipatia-de-alexandria.htm