O bisfenol A (ou BPA) é um composto orgânico pertencente à classe dos bisfenóis, que são substâncias químicas usadas na fabricação de plásticos de policarbonato e resinas epóxi. Dessa forma, pode estar presente em diversos produtos de nosso cotidiano, como embalagens alimentícias, potes para armazenamento de alimentos, brinquedos, utensílios de cozinha, mamadeiras, entre outros.
O bisfenol A é concretamente um disruptor endócrino e já é sabido que ele pode migrar das embalagens para os alimentos, expondo os seres humanos a essa substância. Contudo, muito se debate acerca de outros efeitos nocivos que ele pode apresentar, como distúrbios neurológicos, problemas no sistema imunológico, diabetes, doenças cardíacas e, até mesmo, câncer. Dessa forma, agências de saúde por todo o mundo têm preferido bani-lo ou restringi-lo ao máximo.
Leia também: Microplásticos — o que são e efeitos para o ser humano
O bisfenol A (ou BPA), de nome sistemático 2,2-bis(4-hidroxifenil)propano, é um composto orgânico pertencente à classe dos bisfenóis, um grupo de substâncias químicas usadas como matéria-prima na fabricação do plástico de policarbonato e resinas epóxi. Foi o primeiro composto desta classe a ser descrito, em 1891, pelo químico russo Alexander Dianin. Em 1905, foi sintetizado pela primeira vez por Thomas Zincke.
É obtido por meio da condensação de acetona (propanona) com dois equivalentes de fenol utilizando-se um ácido (como o ácido clorídrico) como catalisador. É daí que vem o nome “bisfenol A”, já que “bis” indica que são utilizadas duas unidades de fenol na sua síntese, bem como a acetona (daí a letra A). Fisicamente, apresenta-se como um sólido branco e cristalino em temperatura ambiente. Possui um ponto de fusão de 156 °C, ao passo que seu ponto de ebulição é de 220 °C. Sua massa molar é de, aproximadamente, 228 g/mol.
O bisfenol A é amplamente empregado na fabricação de plásticos de policarbonato e de resinas epóxi. Isso porque ele apresenta caraterísticas físicas e químicas bem vantajosas, como transparência, resistência, leveza e durabilidade. Assim sendo, o BPA pode ser encontrado em uma grande variedade de produtos, dos quais podemos citar:
O bisfenol A é uma substância em profunda e constante discussão na comunidade científica acerca da sua segurança, toxicidade e efeitos nocivos à saúde humana. Há muitos estudos e debates, mas o que se sabe, de forma estrita e concreta por um conjunto de evidências científicas, é que o bisfenol A é um disruptor endócrino, o qual migra de embalagens para a comida.
Os disruptores endócrinos agem como “mimetizadores” hormonais, ou seja, “imitam” outros hormônios em nosso corpo dada a sua semelhança estrutural com hormônios naturais. No caso do BPA, ele mimetiza o estrogênio. Dessa forma, ao entrar no corpo, confunde a atividade celular e se encaixa nos receptores hormonais de maneira inadequada, como se fosse o hormônio original, ativando respostas não solicitadas pelo nosso corpo.
Além disso, disruptores endócrinos também podem bloquear receptores ou alterar a produção e o transporte de hormônios reais, levando a desequilíbrios no sistema endócrino como um todo. Vale lembrar que o sistema endócrino comanda desde o nosso metabolismo até o nosso desenvolvimento e reprodução.
Complementarmente, suspeita-se que a exposição a pequenas doses de BPA pode estar associada a diversos problemas de saúde, como alterações na fertilidade, distúrbios no sistema nervoso, diabetes, obesidade, puberdade precoce, alterações de comportamento e, até mesmo, doenças cardíacas e câncer. Também se avalia se a exposição ao bisfenol A pode trazer alterações ao sistema imunológico, o que poderia favorecer o surgimento de doenças autoimunes e inflamações crônicas nas vias áreas, como é o caso da asma.
Há também um consenso e uma preocupação por parte de agências de saúde, como é o caso da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em relação aos efeitos neurológicos e toxicológicos que essa substância, por conta da exposição precoce, pode causar em grupos mais vulneráveis, como é o caso de bebês, crianças pequenas, mulheres grávidas e lactantes. Algumas visões defendem que a exposição ao BPA durante a gravidez pode ocasionar problemas comportamentais futuros nas crianças, como quadros de hiperatividade e agressividade.
Mesmo com todas essas suspeitas nocivas acerca da substância, alguns efeitos ainda precisam de maior robustez para comprovação direta de relação de causa e efeito no organismo humano, como é o caso da correlação da presença de maiores níveis de BPA com uma propensão ao desenvolvimento de diabetes, doenças hepáticas ou cardíacas. As evidências para classificar o BPA como um agente carcinogênico clássico são também alvo de discussão na comunidade científica, uma vez que o câncer é uma condição multifatorial complexa.
Dessa forma, o único fato científico consolidado, como já citado, é a capacidade de migração do bisfenol A de embalagens para os alimentos e, uma vez dentro de nosso corpo, atua como um disruptor endócrino, desregulando e interferindo nesse sistema. Porém, agências de saúde pública, como a própria Anvisa, convergem para o entendimento de que a exposição ao BPA é indesejada e possui riscos potenciais ao nosso organismo. Assim, muitos países decidiram proibir a presença do composto em mamadeiras e utensílios infantis, além de restrições mais severas em materiais que entram em contato com alimentos.
Leia também: Tudo o que você precisa saber sobre o plástico PET
É importante dizer que nem todo plástico apresenta BPA. Polímeros de grande escala do cotidiano, como o polietileno (PE), polipropileno (PP), o poliestireno (PS) e o policloreto de vinila (PVC) não utilizam o bisfenol A em sua síntese principal. Também é importante verificar algumas informações que podem estar contidas nas embalagens, como é o caso do selo “BPA free”, que, em tradução livre, significa “livre de BPA”: alguns produtos deixam de maneira explícita a presença desse selo na embalagem, assim o consumidor pode ter uma garantia, por parte do fabricante, da ausência dessa substância.
Embalagens plásticas também apresentam o símbolo de reciclagem com a presença de códigos numéricos, os quais variam de 1 a 7. O número 7 indica a categoria mais genérica, que é conhecida como “outros plásticos”. Obviamente nem todos os plásticos dessa categoria possuem bisfenol A, mas é justamente nessa categoria que se encontram o policarbonato (PC) e as resinas que carregam na sua composição o BPA.
Geralmente, os plásticos livres de bisfenol A são os de código numérico 2 (PEAD, polietileno de alta densidade), 4 (PEBD, polietileno de baixa densidade) e 5 (PP, polipropileno), pois esses, como dito, não utilizam essa substância na sua síntese.
Assim sendo, a melhor forma é observar a embalagem para perceber se o fabricante atesta a ausência do bisfenol A na sua composição.
Fontes
ANVISA - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Bisfenol A. Brasília: Anvisa, [2020?]. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/setorregulado/regularizacao/alimentos/bisfenol-a.
BUIL, Alícia Ramos; PASTOR, Sandra Fernández; BARRADO, Ana Guerrero. Bisfenol A en la industria alimentaria. Análisis comparativo entre carne y productos cárnicos enlatados y no enlatados. Revisión. Pubvet, [S. l.], v. 18, n. 09, e1655, p. 1-14, 2024. DOI: https://doi.org/10.31533/pubvet.v18n09e1655. Disponível em: https://ojs.pubvet.com.br/index.php/revista/pt_BR/article/view/3832/3739.
TUA SAÚDE. Bisfenol A: o que é, onde é encontrado e riscos à saúde. Disponível em: https://www.tuasaude.com/bisfenol-a/.
USP. Temido por efeitos à saúde, bisfenol não está presente na produção dos principais plásticos. São Paulo: Jornal da USP, 20 ago. 2026. Disponível em: https://jornal.usp.br/ciencias/temido-por-efeitos-a-saude-bisfenol-nao-esta-presente-na-producao-dos-principais-plasticos/.
LAMPE, Liz Lanne Vargas; CABRAL, Sandy Poliana Almeida; CARVALHO, Patrícia de Oliveira. Bisfenol A: um potencial risco à saúde oriundo do aquecimento de alimentos em recipientes plásticos. Ensaios USF, [S. l.], v. 7, n. 2, 2023. DOI: https://doi.org/10.24933/e-usf.v7i2.353. Disponível em: https://ensaios.usf.edu.br/ensaios/article/view/353/166.
BESERRA, Marli Rocha et al. O Bisfenol A: sua utilização e a atual polêmica em relação aos possíveis danos à saúde humana. Revista Eletrônica TECCEN, Vassouras, v. 5, n. 1, p. 37-46, jan./abr. 2012.
BERNARDO, Paulo Eduardo Masselli et al. Bisfenol A: o uso em embalagens para alimentos, exposição e toxicidade - Uma Revisão. Revista do Instituto Adolfo Lutz, São Paulo, v. 74, n. 1, p. 1-11, 2015. Disponível em: https://docs.bvsalud.org/biblioref/ses-sp/2015/ses-32088/ses-32088-5946.pdf.
Fonte: Brasil Escola - https://brasilescola.uol.com.br/quimica/bisfenol-ou-bpa.htm