Laços de família é um famoso livro de contos da escritora brasileira Clarice Lispector. A obra apresenta personagens comuns, membros da classe média brasileira, e evidencia o cotidiano. No entanto, é marcada pela reflexão existencial, a qual transforma uma temática aparentemente banal em profundidade filosófica.
O livro é composto pelos seguintes contos: “Devaneio e embriaguez duma rapariga”, “Amor”, “Uma galinha”, “A imitação da rosa”, “Feliz aniversário”, “A menor mulher do mundo”, “O jantar”, “Preciosidade”, “Os laços de família”, “Começos de uma fortuna”, “Mistério em São Cristóvão”, “O crime do professor de matemática” e “O búfalo”.
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Nos contos do livro Laços de família, predomina o tempo cronológico, pois há uma sequência linear das ações narradas, associada à rotina das personagens. No entanto, as narrativas estão centradas no universo interior de certos personagens, característica típica de obras da autora. Portanto, em alguns momentos, o tempo psicológico (o tempo da mente do personagem) também é evidenciado.
Na maioria dos contos, o espaço da narrativa é a cidade do Rio de Janeiro. Outros contos apresentam diferentes cenários:
Os contos apresentam narrador onisciente (tem total conhecimento dos fatos e dos personagens). A exceção é o conto “O jantar”, que possui narrador-personagem, o qual participa da história narrada.
Ao ler o enredo dos contos, você observará que as ações das narrativas de Clarice Lispector são simples, parecem, mesmo, banais. Porém, elas sempre levam o protagonista a algum tipo de epifania (revelação). No meio do corriqueiro, algo sublime ou oculto parece querer se revelar.
Portanto, por trás da aparente superficialidade, existem elementos existenciais profundos. Nos contos, nada é óbvio. A leitora e o leitor precisam embarcar nessa viagem interior realizada pelo personagem e compartilhada com todos nós. A sensação que tenho é de que existe algo na realidade que não conseguimos perceber, e que as narrativas de Clarice Lispector deixam esse “algo” um pouco evidente.
Veja o enredo de cada conto:
O conto mostra a rotina de uma dona de casa, de classe média, e seu mundo interior, ou seja, seus pensamentos, emoções e incompreensões. Basicamente, as ações do conto são: a protagonista está diante do espelho da penteadeira do quarto, depois adormece, acorda quando marido chega do trabalho.
Depois desse dia em que a protagonista estava “esquisita”, ela retoma sua rotina doméstica, sai para jantar com o marido, em um restaurante, voltam para casa. A mulher segue sua rotina. O que sobressai no conto é o mundo interior da personagem e sua melancolia existencial.
A principal ação da narrativa é: a dona de casa Ana sobe no bonde, imersa em seus pensamentos. A personagem tem uma espécie de epifania quando vê o seguinte: “o cego mascava chicles… Um homem cego mascava chicles”. De alguma forma, Ana começa a sentir a vida intensamente e ter consciência da realidade.
Ela então percebe que passou do ponto de descida. Desce, sente-se perdida. À noite janta com a família: marido, irmãos etc. No fim da noite, aquele dia epifânico tem fim. O narrador sugere que a vida da protagonista voltará a ser como antes.
No texto, o narrador fala de uma galinha que, certo dia, experimenta a liberdade: “Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto voo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço”. A família empenha-se em capturar a galinha: “Estúpida, tímida e livre”.
Ao ser capturada, “de pura afobação”, a galinha põe um ovo. A menina da família, ao ver isso, pede que a mãe não mate a galinha. Ela escapa da morte e passa a morar com a família. Às vezes, parece reviver o episódio da liberdade. Até que “um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos”.
Em “A imitação da rosa”, Laura, uma dona de casa que, pronta, espera o marido Armando voltar do trabalho para saírem juntos. Eles jantarão com Carlota e João. Como a empregada Maria está prestes a ir embora, Laura pede-lhe que passe na Carlota e lhe entregue rosas de presente. Mas Laura debate-se com o desejo de ficar com as flores.
O conto narra a festa de aniversário de uma matriarca idosa, que mora com sua filha Zilda. Assim, uma grande família burguesa, com seus problemas, reúne-se, para comemorar os 89 anos da aniversariante. José agora é o filho mais velho, pois seu irmão Jonga já morreu.
Na festa, também estão: Manoel (sócio de José), a vizinha, além dos netos e bisnetos de d. Anita. Durante toda a festa, a aniversariante mantém-se calada e quieta. O narrador então revela que ela despreza todos de sua família. Só gosta do neto Rodrigo. Com asco, cospe no chão, cria uma situação constrangedora. E quebra o silêncio ao pedir um copo de vinho.
O conto conta que o explorador francês Marcel Pretre “topou com uma tribo de pigmeus de uma pequenez surpreendente”, nas “profundezas da África Equatorial”. Ele se depara com uma mulher de 45 centímetros, grávida, e a chama de Pequena Flor. A fotografia dela ganha o mundo, pois é publicada em jornal.
A partir daí, o narrador mostra diversas reações das pessoas que veem essa foto. É importante mencionar que Pequena Flor é tratada pelo narrador e por todos como uma espécie de bicho raro, quase desumanizada. Por fim, Marcel Pretre percebe que ela está rindo.
Um homem (o narrador) está em um restaurante e passa a observar outro homem, um velho. Assim, ele mostra cada uma das ações desse homem desconhecido.
Conta a história de uma moça de 15 anos: a ida para o colégio, as aulas, a volta para casa. Em certa ocasião, ela cruza com dois rapazes na rua, os quais a tocam, ou seja, ela sofre um abuso. Ela fica paralisada, depois retoma sua rotina, mas aquela agressão a perturba profundamente. No final do conto, o narrador declara: “Até que, assim como uma pessoa engorda, ela deixou, sem saber por que processo, de ser preciosa”. Ou seja, ela perde a ingenuidade.
Em “Os laços de família”, Catarina e sua mãe entram em um táxi. Na estação, esperam pela partida do trem. A mãe embarca, Catarina volta para casa. Avisa o marido Antônio que ela vai passear com o filho.
No conto, o estudante Artur sente vontade de ter dinheiro, ele mora com a mãe e o pai. E sonha com o futuro. Na escola, seu melhor amigo é Carlinhos, a quem pede dinheiro emprestado para ir ao cinema com Glorinha.
No conto, o narrador mostra a rotina noturna de uma família. Três homens mascarados a caminho de uma festa, invadem o jardim da família em busca de um jacinto. São surpreendidos pela moça, que os vê pela janela. Susto de ambos os lados.
Um homem (o professor) carrega um saco nas costas. No alto de uma colina, observa a cidade lá embaixo. No saco, leva um cachorro morto, encontrado na rua. O professor de matemática enterra o corpo do cão, como se isso tirasse a culpa de ter abandonado, há pouco tempo, outro cão, chamado José, quando se mudou com a família.
Por fim, em “O búfalo”, uma mulher visita um jardim zoológico. Ela foi rejeitada por alguém. Depara-se com diversos animais. Anda em uma montanha-russa. Por fim, ela encontra um búfalo e troca olhares reveladores com ele. No mais, assim como os outros contos, este também é marcado pela profundidade.
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Laços de família é um livro composto por 13 contos:
A obra de Clarice Lispector faz parte da terceira fase do modernismo brasileiro (ou pós-modernismo). Predominam nos contos o monólogo interior dos personagens, as reflexões existenciais e a temática universal (compreensível em qualquer época ou cultura).
O livro Laços de família foi publicado, pela primeira vez, em 1960. Os contos da obra não especificam o ano em que transcorrem as tramas. Tudo indica que as histórias são ambientadas no final dos anos 1950. O Brasil dessa década foi governado por Juscelino Kubitschek. Seu governo foi marcado pela política desenvolvimentista e pela construção de Brasília.
No cenário internacional, a Guerra Fria (disputa entre Estados Unidos e União Soviética) deixava o mundo em alerta, pois havia ameaça de guerra nuclear. No entanto, não é característica das obras de Clarice Lispector a temática política. A autora trabalha com temas universais, o que torna suas obras atemporais.
Não existe adaptação dessa obra de Clarice Lispector para o cinema.
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A escritora brasileira Clarice Lispector nasceu em Tchetchelnik, na Ucrânia, em 10 de dezembro de 1920. Integrante de uma família judia, chegou ao Brasil em 1922 e foi morar em Maceió. Em 1925, fixou residência em Recife. Dez anos depois, morava no Rio de Janeiro, onde fez faculdade de Direito.
Casou-se em 1943, com Maury Gurgel Valente. Como o marido era cônsul, a escritora viveu na Itália, Suíça, Inglaterra e Estados Unidos. Em 1959, seu casamento chegou ao fim. Já reconhecida como romancista e contista, faleceu em 9 de dezembro de 1977, no Rio de Janeiro.
Créditos das imagens
[1] Editora Rocco (reprodução)
Fontes
ABAURRE, Maria Luiza M.; PONTARA, Marcela. Literatura brasileira: tempos, leitores e leituras. 3. ed. São Paulo: Editora Moderna, 2015.
CLARICE LISPECTOR. Vida. Disponível em: https://site.claricelispector.ims.com.br.
LISPECTOR, Clarice. Laços de família. Rio de Janeiro: Rocco, 2013.
Fonte: Brasil Escola - https://brasilescola.uol.com.br/literatura/lacos-de-familia-clarice-lispector.htm