Tutancâmon é um dos faraós mais famosos da história, que reinou no Egito desde a sua infância, por volta dos nove anos, até a sua precoce morte, aos 19 anos de idade. Ele se tornou mundialmente conhecido em 1922, quando sua tumba e seu tesouro com mais de cinco mil objetos foram encontrados no Vale dos Reis. Eles se tornaram uma espécie de portal para o passado, nos dando preciosas pistas sobre como os antigos egípcios se vestiam e se alimentavam, quais eram seus passatempos, meios de transportes, como se relacionavam com a morte, entre diversas outras informações.
A descoberta da tumba de Tutancâmon deu início a uma verdadeira febre pela egiptologia que perdura ainda hoje. Ao longo do último século, foram feitos diversos filmes, documentários, espetáculos, exposições e jogos que usam como referência o rei menino e sua maldição. Na atualidade, seu tesouro é uma das principais fontes de renda do Egito, atraindo todos os anos ao país milhões de turistas ávidos por conhecer sua famosa máscara mortuária, múmia e sarcófago.
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Tutancâmon foi um faraó da 18ª dinastia egípcia (1550 a.C. – 1292 a.C.). Ele se tornou faraó quando ainda era uma criança e governou por apenas uma década, por isso ganhou a alcunha de “faraó menino”. Por mais de três mil anos, Tutancâmon foi um faraó pouco conhecido e pouco estudado pelos egiptólogos, alguns chegaram a duvidar de sua existência. Mas, em 1922, ele se tornou mundialmente conhecido quando a sua múmia e seu tesouro foram descobertos pelo arqueólogo Howard Carter, no Vale dos Reis.
Tutancâmon nasceu por volta de 1341 a.C., em um período conturbado da história do antigo Egito. Seu pai, o faraó Aquenáton, havia instituído o monoteísmo em todo Egito, proclamando Aton, o Sol, o único deus de sua religião. Por esse motivo, Tutancâmon foi nomeado como Tutancáton, ou “a imagem viva de Aton”. Foi somente quando se tornou faraó que esse nome foi abandonado e o faraó se rebatizou como Tutancâmon, ou “a imagem viva de Amon”.
A revolução religiosa promovida por Aquenáton gerou revoltas, a maior parte delas comandadas pelos sacerdotes da antiga religião. Aquenáton faleceu por volta de 1335 a.C., e a causa de sua morte é desconhecida.
Aos nove anos, Tutancâmon foi coroado faraó, sendo assessorado por Ay, um general do exército. Logo após sua coroação, Tutancâmon se casou com a sua meia-irmã, Anquesenamon. Nenhum filho do rei menino chegou à vida adulta. Análises realizadas na múmia do faraó mostraram que ele era um jovem frágil quando morreu e que sofreu durante a vida com a malária.
Diferentes cepas da malária foram encontradas em seu corpo, o que indica que ele foi contaminado diversas vezes. Ele tinha o pé esquerdo torto, andava mancando e contava com o auxílio de uma bengala, dezenas delas foram encontradas em sua tumba. A endogamia, ou seja, a reprodução entre pessoas aparentadas, é considerada a responsável pelas deficiências do faraó.
Também sabemos que, como toda criança, Tutancâmon gostava de jogar. Em sua tumba foram encontrados diversos tabuleiros de Senet, considerado um dos jogos mais antigos da história. Alguns deles eram pequenos e provavelmente eram levados pelo faraó em suas viagens e campanhas militares. Outros eram grandes, do tamanho de uma mesa — estes, provavelmente, ficavam nos palácios reais.
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Tutancâmon se tornou famoso em todo o mundo em 1922, quando sua tumba foi descoberta no Vale dos Reis. Muitas outras tumbas de faraós haviam sido descobertas ao longo da história, mas todas elas haviam sido violadas por ladrões. A tumba de Tutancâmon foi a primeira na qual o tesouro do faraó foi encontrado intacto, da mesma forma em que estava quando foi selada há mais de 3,3 mil anos.
A descoberta da tumba, da múmia do faraó e de seu tesouro se tornaram manchete nos principais jornais do mundo. Atualmente os tesouros de Tut estão espalhados em museus de todo o mundo, mas a maior parte deles se encontra no Grande Museu Egípcio do Cairo.
O reinado de Tutancâmon durou quase uma década, ele chegou ao poder com apenas nove anos de idade e se tornou o governante de um grande império. Uma das primeiras medidas tomadas pelo menino governante foi mudar seu nome, de Tutancáton (“imagem viva de Aton”) para Tutancâmon (“imagem viva de Amon”). A medida deixou claro para todos os sacerdotes que o pequeno faraó desejava restabelecer a antiga religião egípcia.
Três anos após se tornar faraó, Tutancâmon aboliu por decreto a religião criada por seu pai e reestabeleceu a antiga religião egípcia. Ele também devolveu os direitos dos sacerdotes e seus antigos salários e abandonou a capital fundada por seu pai, Akethaton, retornado a administração estatal para a antiga capital, Memphis.
Muitos egiptólogos afirmam que Ay, o comandante do exército egípcio, teve grande influência sobre Tutancâmon, influenciando em suas decisões ou mesmo governando por ele. Ainda hoje não sabemos a causa da morte de Tutancâmon, mas ele faleceu por volta dos 19 anos, sem deixar herdeiros. Após a morte do faraó menino, Ay assumiu o posto de faraó, o que mostra sua importância política durante o governo de Tutancâmon.
Existem diversas teorias sobre o motivo da morte de Tutancâmon, a primeira delas defendia que ele morreu em decorrência de um ferimento no fêmur. Análises em sua múmia feitas nas décadas de 1960 e 1970 indicaram que ele teve uma fratura exposta na coxa, provavelmente pela queda de uma biga.
Vale lembrar que, no Egito Antigo, não existiam remédios como antibióticos e anti-inflamatórios, e a chance de sobrevivência de um indivíduo com fratura exposta na coxa era reduzida. Pesquisas posteriores defenderam que a fratura no fêmur de Tutancâmon teria ocorrido após a sua morte e, dessa forma, não teria relação com a sua morte.
Um estudo publicado em 2010 na revista Journal of the American Association defendeu que Tutancâmon morreu em decorrência da malária e do agravamento de uma infecção óssea. O estudo, realizado na múmia do antigo faraó, encontrou diferentes cepas da malária em seu organismo. Além disso, os pesquisadores apontaram que ele sofria da doença de Kohler, doença que causa necrose em ossos do pé. A combinação da malária com a doença de Kohler teriam levado o faraó a óbito.
O arqueólogo britânico Howard Carter iniciou seu trabalho no Egito quando tinha apenas 17 anos, em 1891, desenhando artefatos escavados por arqueólogos. Após alguns anos trabalhando como desenhista, Carter começou a escavar no Vale dos Reis, um importante sítio arqueológico onde diversos faraós foram sepultados. Durante suas escavações, ele encontrou pistas de que Tutancâmon, um faraó até então pouco conhecido da 18ª dinastia, estaria enterrado em algum lugar do vale.
Na década de 1910, Howard Carter passou a ser financiado por George Edward Herbert, o 5º conde de Carnarvon, um voraz colecionador de antiguidades apaixonado pelo Egito Antigo. Em novembro de 1922, um menino que carregava água para os trabalhadores que escavavam a areia do Vale dos Reis para Carter encontrou uma pedra com inscrições. Ao ser informado pelo menino, Carter ordenou que o local fosse escavado, e os trabalhadores encontraram uma escada, coberta de areia e entulho.
Em 4 de novembro, as escavações na escada cessaram quando uma parede de tijolos foi encontrada. Ela selava a entrada da tumba. O selo real ainda estava na parede, o que indicava que ela não havia sido aberta desde que foi selada pela última vez, há mais de 33 séculos. No selo, havia um cartucho com o nome “Tutancâmon”.
Carter enviou imediatamente um telegrama para Lorde Carnarvon, que partiu rapidamente para o Egito. Com a presença de Carnarvon, em 26 de novembro de 1922, Howard Carter abriu um pequeno buraco na parede que selava a tumba, inserindo uma vela no seu interior. Ao ser questionado por Carnarvon sobre o que ele via, respondeu: “Coisas maravilhosas” — essa se tornou uma das falas mais célebres da história.
A tumba de Tutancâmon, nomeada oficialmente como KV-62, era composta por um grande corredor e quatro câmaras, todos espaços repletos de objetos, ao todo mais de cinco mil. Eles estavam empilhados, muitos deles, como as bigas, estavam desmontados. Havia jogos de tabuleiro, tronos reais, bengalas, chinelos, camas, alimentos, estátuas, joias, canopos, bigas, arcos e flechas, entre muitos outros. Carter demorou mais de dois anos para retirar todos os objetos da tumba e catalogá-los. O arqueólogo chegou a câmara principal um ano e meio após a abertura da tumba.
Muitas tumbas do antigo Egito continham mensagens em suas paredes que amaldiçoavam todos aqueles que violassem a tumba real. Por esse motivo, já existia a lenda de que maldições eram responsáveis pela morte daqueles que adentrassem nos túmulos. A lenda da maldição de Tutancâmon surgiu apenas cinco meses após a descoberta de sua tumba, quando Lorde Carnarvon, o financiador de Carter, faleceu em decorrência de uma infecção generalizada.
Carnarvon havia sido picado no rosto por um mosquito, provavelmente quando estava no Egito. A picada infeccionou e a infecção se espalhou pelo organismo do aristocrata inglês. Os jornais divulgaram a sua morte, e parte deles afirmava que ela havia sido causada pela maldição de Tutancâmon. Historiadores defendem que Carnarvon foi picado por um mosquito e, ao entrar na tumba selada há milhares de anos, fungos infeccionaram a picada.
Ao todo mais de 20 pessoas relacionadas à escavação da tumba ou a família de Carnarvon faleceram nos anos posteriores à descoberta, alimentando ainda mais a lenda da maldição. Howard Carter não acreditava na maldição, afirmando que as mortes eram apenas coincidência. Ele viveu ainda confortavelmente por muitos anos e se tornou uma celebridade na Inglaterra e nos Estados Unidos. Carter morreu em 1939, vítima de um câncer.
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Créditos das imagens
[1] CK-TravelPhotos / Shutterstock
[2] Wikimedia Commons (reprodução)
[4] Jaroslav Moravcik / Shutterstock
Fontes
BLANC, Claudio. O grande livro da mitologia egípcia. Editora Camelot, Teutônia, 2021.
CARDOSO, Ciro Flamarion. O Egito antigo. Editora Brasiliense, São Paulo, 1982.
DOMINGUES, Sérgio. Introdução à escrita hieroglífica do Egito. Clube de Autores, Joinville, 2022.
SHAW, Garry J. Os mitos egípcios: um guia aos antigos deuses e lendas. Editora Vozes, São Paulo, 2023.
Fonte: Brasil Escola - https://brasilescola.uol.com.br/historiag/tutancamon.htm