Calígula é como ficou conhecido o imperador Caio César Germânico, que liderou o governo de Roma entre os anos 37 a.C. e 41 d.C. O seu breve período de poder, apesar de ser marcado por diversas manobras populares, foi o suficiente para que se criassem mitos depreciativos em relação à sua personalidade, incentivados por motivos políticos. Com isso, por mais de dois milênios, Calígula se tornou reconhecido como um dos imperadores mais malignos e controversos do período do Império Romano.
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Calígula foi o apelido do imperador romano Caio César Germânico, que governou Roma entre os anos 37 e 41 d.C. como terceiro líder da dinastia júlio-claudiana, também a primeira família no poder desde o advento do período do Império Romano (27-476 d.C.).
Bisneto de Otávio Augusto e filho do general Germanicus com Agrippina, a Velha, diz-se que Caio César tornou-se querido por onde viajava em companhia dos pais. Foram nessas viagens que recebeu o apelido de Calígula. É possível que, por usar pequenas sandálias de modelo militar — as cáligas —, os soldados do general Germanicus tenham lhe alcunhado com o nome diminutivo daquele tipo de calçado.
Naquele período, o imperador Tibério havia iniciado uma violenta perseguição política a seus opositores, resultando em julgamentos e assassinatos por traição. Entre os alvos, encontravam-se a mãe e dois irmãos mais velhos de Calígula, que foram exilados na ilha de Pandatária, onde morreram de fome. O pai morreu de causas incertas, aos 34 anos de idade.
Enquanto isso, o próprio Calígula, como sobrinho-neto do imperador vigente, foi forçado a passar a juventude ao lado do sádico Tibério, durante seu governo em exílio na ilha de Capri. Lá, testemunhou uma rotina decadente de torturas, estupros e execuções; aos 77 anos, Tibério, pouco antes de sua morte, atestou suas heranças para o neto Tibério Gemelo e Calígula, apesar de não deixar claro quem o sucederia no poder do império.
A morte de Tibério foi comemorada pela população romana, aliviada com o fim de uma era de perseguições e decadência. No entanto, a sucessão ao trono ainda era incerta, com Calígula e Tibério Gemelo como possíveis candidatos.
Calígula, por inúmeras razões, era o sucessor preferido ao poder do Império Romano: na questão de popularidade, ele foi querido desde a infância pelas legiões romanas; seu pai havia sido um renomado general e sua família havia sido vítima das paranoias de Tibério, algo que se tornou pretexto demagógico para que ele adquirisse vantagem entre o povo.
Além disso, o seu rival, Tibério Gemelo, era mais jovem (com 17 anos à época) que Calígula. Estima-se também que os anos vividos ao lado do perseguidor de sua família tenham lhe dado uma feição dissimuladora, o que lhe concedeu uma personalidade aparentemente inofensiva às elites que apoiaram Tibério em outrora; ou seja, em comparação ao neto do ex-imperador, Calígula parecia muito mais manipulável.
Por essas razões, entre outras, Calígula tornou-se também preferido pelo Senado, que viu nele a oportunidade de reestabelecer em Roma o status honrado de seu pai, o general Germanicus. A pressão militar levou o Senado a sufocar qualquer brecha na ascensão ao poder de Tibério Gemelo, invalidando o testamento destinado à sua figura. Com isso, o caminho para o poder absoluto estava em aberto para Calígula.
Com 24 anos de idade, Calígula foi nomeado imperador de Roma. A grande expectativa do povo lhe angariou o renome de “Novo Augusto”, esperando-se a retomada do ponto mais alto da história do império. Suas primeiras medidas foram altamente populares: reduziu impostos, promoveu a liberdade de expressão, libertou prisioneiros perseguidos por Tibério e forjou a queima de documentos incriminatórios do governo anterior (embora, mais tarde, tenha-se descoberto que tais documentos destruídos eram falsos, enquanto os verdadeiros mantiveram-se intactos).
Crítico ao governo dos senadores, nomeou ex-escravos auxiliares políticos e permitiu a denúncia dos escravos sobre seus senhores. Atribuem-se a ele, também, a construção de extravagantes aquedutos e a ampliação do Palácio Tiberiano, no Monte Palatino, onde residiu em maior parte.
No entanto, em seus poucos anos de liderança, Calígula se tornou historicamente reconhecido por ser perverso, maligno, psicopata, depravado, megalomaníaco, sanguinário, entre outros adjetivos negativos. Dizia-se que abusou de suas irmãs, gastou o tesouro de Roma em excessivas festas, banquetes e orgias, convocou soldados honrados para uma suposta batalha (quando, por fim, obrigou-os apenas a catar conchas na praia) e até mesmo ameaçou nomear o seu cavalo favorito, Incitatus, para a posição de cônsul romano.
No decorrer de dois milênios desde a sua história, a criação de um imaginário controverso sobre Calígula é, possivelmente, um mito construído por seus contemporâneos, como Suetônio e Dião Cássio, encorajados a agradarem os rivais políticos do imperador. Mais recentemente, as afirmações de que ele teria sido um imperador sem escrúpulos se tornaram bastante duvidosas.
Conforme aponta a historiadora Marina Regis Cavicchioli, a loucura atribuída a Calígula é “objeto de discussão entre seus biógrafos [...]. Em sua biografia de Calígula, Suetônio conta que, no início de seu governo, o imperador foi apreciado por seu povo [...], porém, em seguida, descreve-o como monstro, alcunha que se perpetuará ao longo dos séculos”.|1|
Apesar das incertezas que envolvem a personalidade de Calígula, não podemos deixar de supor que o seu governo se tornou, de fato, impopular e ditatorial com o passar dos meses no poder; ao mesmo tempo, devemos desconfiar que as críticas que transformaram Calígula no símbolo da decadência moral de um imperador construíram-se como reflexo de seu governo autocrático, malvisto em sua época por desafiar o convencional sistema senatorial.
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Em 41 d.C., durante um dia de sessões de jogos e peças de teatro no interior do Palácio Tiberiano, Calígula foi emboscado por três soldados da Guarda Pretoriana, que trancaram as portas do corredor em que o imperador passava e o apunhalaram até a morte. Depois, mataram sua esposa e filha pequena. Um dos assassinos e líder da emboscada foi Cássio Quereia, um dos agentes pessoais de Calígula, que se dizia ser constantemente humilhado em público pelo imperador por seus “modos afeminados”.
Seguiu-se ao assassinato um conflito entre a Guarda Pretoriana e a guarda germânica de Calígula; todos os suspeitos de envolvimento na emboscada foram sumariamente mortos, inclusive civis. Mas como a Guarda Pretoriana havia se tornado uma instituição influente do Império Romano, rapidamente nomearam um sucessor a Calígula que atendesse aos interesses das elites: Cláudio, tio do imperador assassinado.
O senado se mostrou ineficiente perante a imposição dos militares, refletindo a crise dos resquícios da República. O assassinato significava mais que uma simples rixa pessoal; muitos senadores e militares, incentivados também pelas lendas depreciativas que se criaram acerca de Calígula, apoiaram o seu fim devido às suas ações aplicadas contra as elites romanas.
O reconhecimento de Calígula como uma das figuras mais perversas do Império Romano ressoou em diversos produtos da cultura popular, entre filmes, séries e peças de teatro. Observe a seguir alguns dos títulos mais populares (infelizmente, nos games, ele nunca teve uma representação que valha a pena comentar...).
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Notas
|1| CAVICHIOLLI, Marina R. O incesto e o monstro: uma construção da memória do Imperador Calígula. História (São Paulo). São Paulo: UNESP, v.39, n.3, 2020.
Créditos da imagem
[1] Classical Numismatic Group, Inc / Wikimedia Commons (reprodução)
Fontes
BARLAG, Phillip. Evil Roman Emperors: The Shocking History of Ancient Rome’s Most Wicked Rullers from Caligula to Nero and More. Lanham: Prometheus, 2021.
BEARD, Mary. S.Q.P.R.: uma história da Roma Antiga. São Paulo: Planeta, 2017.
BORNECQUE, Henri; MORNET, Daniel. Roma e os romanos. São Paulo: EPU, 1976.
CAVICHIOLLI, Marina R. O incesto e o monstro: uma construção da memória do Imperador Calígula. História (São Paulo). São Paulo: UNESP, v.39, n.3, 2020.
WINTERLING, Aloys. Caligula: A Biography. Berkeley: California University Press, 2011.
Fonte: Brasil Escola - https://brasilescola.uol.com.br/biografia/caligula.htm