Memórias de Marta é um romance da escritora brasileira Júlia Lopes de Almeida. O livro é uma narrativa naturalista, pautada na tese do determinismo. Apresenta tom realista, sem idealizações. A obra também é marcante por ser escrita por uma mulher e ter uma protagonista, de forma a colocar em foco o universo feminino.
O livro conta a história de Marta, que é a narradora do romance. Quando ela era criança, o pai se matou. A mãe de Marta precisou trabalhar para sustentar a filha. Elas foram morar em um cortiço, até Marta conseguir se tornar professora. A protagonista sentia-se inferiorizada socialmente e tinha pouca autoestima.
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Marta, a protagonista do livro, é quem conta a história, de forma que o romance apresenta uma narradora-personagem.
Na segunda metade do século XIX, no Rio de Janeiro, Marta fica órfã de pai por volta de cinco anos, quando ele comete suicídio.
Com dificuldades financeiras, a mãe de Marta passa a trabalhar como engomadeira e, com a filha, muda-se para um cortiço de São Cristóvão.
Nesse espaço, Marta presencia a violência física, a miséria, o alcoolismo e até um assassinato.
Marta é salva pelos estudos, pois é uma dedicada aluna de uma escola pública, que estuda para ser professora.
Com o ordenado de Marta para ajudar nas despesas domésticas, mãe e filha conseguem, finalmente, ir embora do cortiço.
Diagnosticada com histeria, Marta viaja, em companhia da mestra Aninha e seu marido, para o campo, uma localidade chamada Palmeiras.
Em Palmeiras, Marta conhece Luiz, por quem se apaixona; mas logo tem uma decepção amorosa, pois o rapaz se interessa por uma americana.
Marta sofre por esse amor não correspondido, sua saúde piora e ela fica sabendo que Luiz vai se casar com Leonor, sobrinha de Aninha.
Marta passa no concurso para professora e recebe proposta de casamento de Miranda, antigo freguês de sua mãe.
Mesmo sem estar apaixonada, ela decide se casar, para a alegria da mãe, a qual logo adoece e morre.
Carolina: filha da ilhoa.
Clara Silvestre: colega da escola.
Clotilde: afilhada de Aninha.
Doutor Gunning: escocês e senhorio.
Eulália: uma vizinha.
Giovanni: morador do cortiço.
Jerônimo de Andrade: marido de Aninha.
Joaquim: vendeiro.
Leonor: sobrinha de Aninha.
Lucas: criança do cortiço.
Lucinda: filha de uma freguesa da mãe.
Luiz: primo de Aninha.
Mãe de Marta.
Maneco: filho da ilhoa.
Marta: protagonista e narradora.
Matilde: colega da escola.
Miranda: freguês antigo da mãe de Marta.
Principal vizinha: uma ilhoa bruta.
Rita: filha da ilhoa.
Tio Bernardo: morador do cortiço.
Túlio: morador do cortiço.
A história é narrada em tempo cronológico, isto é, em uma sequência linear, pois começa da infância da protagonista e segue a narrar o decorrer de sua vida. Já o tempo da narrativa não é explicitado no texto, mas tudo indica que se refere à segunda metade do século XIX.
Parte da história transcorre no cortiço de São Cristóvão. Provavelmente, a narradora faz referência a um cortiço no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. A mãe da narradora é originária de Minas Gerais. Há também uma passagem em Palmeiras, uma localidade no campo, onde Marta busca se curar da histeria. Por fim, a protagonista vai morar no bairro carioca do Engenho Novo.
A história conta com uma narradora-personagem, pois é Marta quem conta a própria história. Esse tipo de narrador, portanto, participa da história por ele contada.
Marta, a narradora e protagonista, diz que tem uma vaga lembrança da casa onde nasceu e onde morou até os cinco anos. Explicita as lembranças fragmentadas desse tempo, como a visão de seu pai morto no quarto. Fala da influência religiosa sofrida desde a infância: “eu tremia toda, pensando que me queriam levar com meu pai para a presença desse Deus tremendo, inflexível, [...]”.
Com a morte do pai, surge a pobreza. Marta e sua mãe são obrigadas a viver no cortiço de São Cristóvão: “Aí já minha mãe não tinha criados, nem mesmo a velhinha que nos acompanhava outrora, e que partiu não sei para onde, nem com quem”. Para sobreviver, a mãe engomava para fora, “desde manhã até à noite, sem resignação, arrancando suspiros do peito magro, mostrando continuamente as queimaduras das mãos e a aspereza da pele dos braços estragada pelo sabão”.
Assim, relata as dificuldades vividas enquanto crescia, em situação precária, com a mãe, a quem acompanha na entrega das roupas aos fregueses. Na rua, ao avistar “uma senhora rica, elegante, feliz”, a mãe esconde-se, envergonhada da antiga amiga, pois está “decaída, andrajosa quase, e miserável”. Então, a menina tem pela primeira vez contato com a diferença de classe.
Na casa de uma das freguesas da mãe, sente-se humilhada ao se comparar com uma rica menina de sua idade, chamada Lucinda: “Ela compreendeu-me e demorou-se maldosamente a confrontar-me com altivez. Eu sentia-me humilhada e com vontade de chorar...”. Marta fica incomodada com a caridade da dona da casa, que lhe dá um vestido que a Lucinda não vai usar.
Uma semana depois, mais roupas que não servem em Lucinda são dadas a Marta, que começa a aceitar sua condição. Dias depois, Marta começa a estudar em uma escola pública. Na escola, faz amizade com Matilde, “uma menina mulata, [...]; feia, escura, marcada de bexigas, com olhos pequeninos e amortecidos, o cabelo muito encaracolado a curto. [...], teria doze anos e estava havia três na escola; era pouco inteligente, [...]”.
Um dia, uma colega acusa Matilde de roubo. Interrogada pela professora, Matilde nega. Encontram, na caixa de Matilde, um objeto roubado. Ela é castigada. Assim, diz Marta, “eu, como todas as outras, seguindo-lhes o exemplo, voltei as costas à desgraçada mulatinha e nunca mais lhe dirigi uma única palavra!”.
O isolamento faz Matilde ficar agressiva, e ela acaba sendo expulsa do colégio. No cortiço, o menino Maneco, filho da vizinha, começa seu vício no álcool, estimulado pelo vendeiro da esquina, o Seu Joaquim. Ele é irmão de Carolina e Rita, e filhos de uma “ilhoa” muito violenta, que bate nos filhos e vive em briga com o marido.
A epidemia de difteria e de sarampo tomam conta do cortiço. A protagonista cai gravemente doente. Restabelecida, volta à escola. Agora Rita também está estudando no mesmo colégio. Marta faz progresso na escola, tira as melhores notas. O médico diagnostica Maneco como um “doente incurável”, devido à dependência alcoólica.
A mãe dele então agride o Seu Joaquim, o vendeiro que lhe estimulou o “vício”. Ela acaba sendo presa por soldados. No cortiço, dois moradores são Giovanni e Túlio (tiroleses, da Itália), amigos inseparáveis. No entanto, Giovanni acaba matando Túlio:
O miserável Giovanni, esperara que o amigo dormisse, e então, para mais livremente roubar-lhe o seu pequeno pecúlio, junto à custa de trabalho e de sacrifícios, enterrou-lhe desapiedadamente o ferro pelo peito dentro! Depois fugiu, levando consigo a chave de casa!
Marta fica extremamente impressionada com o caso. Em outra ocasião, sua mãe decide contar-lhe como conheceu o pai de Marta, diz que ele era caixeiro viajante. Mas, na última viagem, “lhe roubaram o dinheiro dos patrões que ele trazia consigo”. E, “para não ser preso ele fez a loucura de matar-se”. O pai tomou veneno.
Maneco finalmente morre. No dia seguinte, Marta fica sabendo, pela mestra, que “fora nomeada e que principiava a vencer ordenado”. Repleta de felicidade, dá a boa nova à mãe. Assim, procuram uma casa para viverem longe do cortiço. Finalmente, mãe e filha se mudam.
Marta está com 20 anos. Vai à festa na casa de sua professora. E, diante das outras mulheres: “Como há doze anos, via-me humilhada, feia. Tinha o cabelo liso, entrançado na nuca, à Santa Catarina; o vestido simples, largo no corpo, as mangas muito compridas; o rosto lustroso sem aquela cor suave, aquele aveludado doce do pó de arroz”.
Ali, Marta sente-se deslocada, não pertence àquele lugar tão chique e alegre. Meses depois, ela adoece: tosse, febre, vertigens. Diante disso, o “médico aconselhou que me casasse. Aquilo era histerismo”. A histeria era uma suposta enfermidade que só acometia as mulheres e era associada à falta de sexo.
Por conselho do médico, Marta precisa viajar. Assim, em companhia da mestra (a professora Aninha), vai passar uma temporada no campo, em Palmeiras. Ali, o marido da mestra aluga uma casa, sendo o senhorio um escocês chamado doutor Gunning. Marta conhece o primo da Aninha, um rapaz chamado Luiz, estudante de medicina.
Não é difícil imaginar o resto. Marta e Luiz demonstram interesse amoroso um pelo outro. A estada no campo faz bem a Marta, não só pelo ambiente, mas também por conviver com o rapaz:
Desapareceu-me a tosse e a febre; tornei-me mais gorda e corada, risonha e feliz! Logo de manhã cedo saía, encontrava quase sempre o Luiz, que caminhava a meu lado, falando e fazendo-me falar, rindo-se descuidosamente a afirmando que eu tinha espírito por dez homens... Eu acreditava naquilo e sentia em verdade o que não experimentara nunca: muita facilidade em expressar-me e uma alegria saudável, nova, que me invadia toda.
Porém, certo dia, Luiz não aparece (na véspera, ele olhou demoradamente para uma americana). Para complicar a situação, o marido de Aninha recebe um telegrama, o qual informa que a mãe dele teve uma “congestão cerebral”. Precisam voltar às pressas. Antes de partir, Marta presencia a seguinte cena:
Sentada num banco do jardim, muito perto do gradil da estrada, a filha do paralítico [a americana], com a cabecinha brilhando ao sol, e os pés mergulhados no pelo farto e negro do seu grande Terra Nova [um cão], dialogava amorosamente com Luiz!
Ele rodeava-lhe a cintura com o braço, numa intimidade que me encheu de espanto. Ouvi-lhes as vozes unidas como um murmúrio causado pela mesma quebra d’água ou a mesma ondulação da brisa.
A saúde de Marta só piora. Em certa ocasião, reencontra sua amiga de colégio Clara Silvestre. Novamente, sente-se inferior: “Talvez que eu mesma, sempre pobre, humilde, modesta, feia, invejasse aquele brilhantismo de Clara, aquelas joias, aquelas plumas, aquele aroma, aquela formosura...”.
Sobre a saúde de Marta, a narradora diz:
A minha nevrose, a minha dor de viver, de ser feia, de ser pobre, de ser triste, durou ainda muito tempo; e creio que não se extinguiu absolutamente... Chegou, porém, uma ocasião em que me senti mais calma e mais resoluta. Esforcei-me por estudar e distraí o espírito com isso: devia em breve decidir-se a minha sorte como professora; aproximava-se o tempo dos últimos exames.
Marta fica sabendo que Luiz vai se casar, não com a americana, mas com a sobrinha de Aninha, a Leonor. Ocorre algo bom, Marta passa no concurso para professora. Ela ainda está triste com o casamento de Luiz, quando o Miranda (um freguês antigo da mãe da protagonista), pede a mão de Marta. Ele é mais velho, tem quarenta e tantos anos.
Marta diz querer não se casar, pois conquistou “uma posição independente” e, por isso, não vai precisar do apoio de ninguém. Além disso, ela não é apaixonada pelo Miranda e tem desprezo pelo próprio corpo. Por fim, refletiu mais: “o meu casamento seria uma vingança para os ultrajes que a minha imaginação de moça recebera sempre”.
Fica noiva do Miranda. Começa a fazer o enxoval, sem muito entusiasmo. E prepara sua mudança para Engenho Novo, onde atuará como professora. Por fim, ela se casa. Logo depois, a mãe adoece e morre. E assim termina a obra, mas continua a infelicidade de Marta.
O romance é dividido em 12 capítulos.
Memórias de Marta apresenta características do naturalismo (estilo de época que esteve em vigor no Brasil entre 1881 e 1902). Desse estilo, é perceptível o determinismo, ou seja, a ideia de que a raça ou o meio exerce influência sobre os indivíduos. Desse modo, o comportamento degradante dos moradores do cortiço é resultado da influência do meio em que vivem.
Sobre o cortiço, a narradora diz: “o medonho portão do cortiço, aberto como uma goela esfaimada a todas as misérias e a todos os vícios!”. Além disso, a narradora expõe a diferença de classe. A questão de classes é mais recorrente nas obras europeias, mas nesse romance de Júlia Lopes de Almeida ela é bem evidenciada.
No mais, o romance é antirromântico, pois não idealiza a realidade. Afinal, mostra as imperfeições das pessoas e da sociedade. Vale destacar também o fato de que a autora da obra e a protagonista são mulheres. Portanto, está em evidência no livro a realidade de uma mulher nascida no século XIX.
Essa visão feminina original, no Brasil, é uma exceção, já que a predominância de narrativas da época é de autoria masculina. No entanto, pela influência naturalista, a narrativa apresenta elementos como a histeria, suposta enfermidade, que acometia mulheres. Hoje a histeria é entendida como um diagnóstico misógino e preconceituoso.
Outro traço naturalista é a zoomorfização, ou seja, a animalização de uma pessoa, como se vê neste trecho da obra: “Eu via com verdadeira admiração aquela trabalhadora persistente e brutal, a quem a vida retalhava a alma sem que o corpo caísse. [...]. Mas lá ia direita, rebolando os quadris fortes, em passadas firmes, à busca do seu fardo de besta de carga”.
Leia também: O mulato — análise dessa obra naturalista de Aluísio Azevedo
O final do século XIX, no Brasil, foi marcado pela Abolição da Escravatura, em 1888, e pelo fim da monarquia, em 1889, com a Proclamação da República. Os cortiços surgiram no Rio de Janeiro entre 1850 e 1860. Tais espaços preocupavam as autoridades, pois, segundo elas, eram focos de epidemia.
De acordo com o bacharel em História Bruno Pereira da Silva:
A problemática da organização do espaço urbano se tornou ainda mais complexa após as epidemias de 1873 e 1876, que causaram aproximadamente 3.659 e 3.476 óbitos, respectivamente, numa população estimada em mais ou menos 270 mil pessoas. Havia ainda descrença em relação aos números desses registros, por suspeitas do Estado Imperial mascarar os dados verdadeiros.
Os cortiços eram vistos pelo poder público e pela classe dominante de final do século XIX com maus olhos: “alguns jornais atestavam ruas nas quais existiam certos casebres e moradias coletivas onde a promiscuidade, a criminalidade e o nível de desocupação dos habitantes eram em grande escala”.
Tais construções passaram a ser demolidas a partir de 1892, em uma política de higienização urbana. Mas que, na verdade, tinha o objetivo de “limpar” o centro da cidade em prol de uma valorização imobiliária. Assim, o cortiço acaba sendo espaço narrativo de histórias naturalistas brasileiras.
A mais conhecida obra (que, aliás, explora tal meio à exaustão) é o livro O cortiço, de Aluísio Azevedo, publicado, pela primeira vez, em 1890. Portanto, Memórias de Marta usou tal espaço social antes da obra de Aluísio Azevedo. Nela, o cortiço é o meio corruptor, mas também um espaço segregador.
A escritora brasileira Júlia Lopes de Almeida nasceu em 24 de setembro de 1862, no Rio de Janeiro. Ainda na infância, foi morar em Campinas, onde publicou seu primeiro texto, no jornal A Gazeta de Campinas, por volta de 1881. Em Portugal, ela se casou com o escritor português Filinto de Almeida.
A autora era defensora da educação feminina, do direito ao voto e do divórcio. Seu primeiro romance — Memórias de Marta — foi publicado em 1889. No início do século XX, passou a dar palestras. Morou novamente em Portugal de 1913 a 1918, e também viveu na França entre 1925 e 1931. Morreu em 30 de maio de 1934, no Rio de Janeiro.
Créditos da imagem
|1| Companhia das Letras (reprodução)
Fontes:
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COMPANHIA DAS LETRAS. Autor: Júlia Lopes de Almeida. Disponível em: https://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=06103.
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Fonte: Brasil Escola - https://brasilescola.uol.com.br/literatura/memorias-de-marta.htm