Títulos de nobreza são distinções honoríficas que atestam que você faz parte da nobreza, que é um grupo social elitizado e dotado de privilégios específicos, de honra social e, muitas vezes, de funções políticas e militares de alto escalão, especialmente na Europa da Idade Moderna. Os títulos de nobreza mais tradicionais são:
No contexto de origem europeia com o qual eles são mais comumente associados, os títulos de nobreza são distinções honoríficas que atestam que você faz parte da nobreza, ou seja, de um grupo social elitizado e dotado de privilégios específicos, de honra social e, muitas vezes, de funções políticas e militares de alto escalão.
A nobreza europeia tem suas raízes na Idade Média (séculos V-XV), consolidando-se na Idade Moderna (XV-XVIII). No entanto, diversas famílias de linhagem nobre continuam existindo nas monarquias europeias, como no Reino Unido, na Espanha, nos Países Baixos, na Dinamarca, na Suécia, entre outros. Ainda assim, os privilégios e as distinções sociais dessas famílias de estirpe nobre na Europa são hoje muito diferentes do que foram no passado, especialmente antes do movimento iluminista e das revoluções liberais, que contestaram justamente esses privilégios e essas distinções a partir do século XVIII.
A hierarquia e a maneira como esses nobres eram formados, repassados e reconhecidos variou muito conforme o país e a época. O que definia a nobreza costumava ser o reconhecimento institucional por parte dos demais nobres (“pares”), dos monarcas e perante os Estados Modernos e seu papel nessas estruturas. A concessão desses títulos dava-se de diversas formas: por cartas régias, por registros oficiais ou mesmo por costumes jurídicos consolidados pela tradição.
No caso do Brasil, um caso excepcional de monarquia entre repúblicas no século XIX, os títulos de nobreza eram concedidos durante o período do Império (1822 - 1889), exclusivamente pelos monarcas: Dom Pedro I, entre 1822 e 1831, e Dom Pedro II, de 1840 até 1889. No entanto, aqui não se criou uma nobreza hereditária como na Europa, isto é, os títulos de nobreza eram concedidos pelo imperador como reconhecimento por algum feito de grande relevância nacional, mas não vinculavam nenhum privilégio específico nem eram passados por herança. Os títulos de nobreza no Brasil eram, portanto, apenas uma grande honraria, diferentemente do que geralmente ocorria na Europa, em que os títulos davam direito a isenções tributárias, a rendas vitalícias e a vantagens políticas e pecuniárias de diversas ordens e, além disso, eram passados de geração em geração.
Na Europa, os títulos de nobreza podem ser compreendidos como instrumentos históricos de organização e de hierarquia social e política nas monarquias modernas, integrando um sistema estamental consolidado. Já no Brasil Império, esses títulos funcionavam como um mecanismo simbólico e político a cargo do imperador dentro do processo de construção do Estado nacional.
A nobreza europeia, entre os séculos XVI e XVIII costumava apresentar hierarquias claras e bem estruturadas, o que não acontecia com tanta clareza no período medieval. No entanto, essas hierarquias variavam de país para país e não podem ser tomadas em conjunto, sem apresentar exceções e peculiaridades.
Em linhas gerais, no topo da hierarquia, estavam os imperadores (no caso da monarquia austríaca, por exemplo) e os reis, que eram também considerados nobres. Aqui, coloca-se o questionamento sobre a existência ou não de hierarquia entre imperadores e reis. Essa é uma questão controversa e tem base em disputas históricas europeias. Os imperadores austríacos demandavam ostensivamente uma pretensa superioridade hierárquica sobre os reis europeus e usavam por base uma suposta e intrincada herança do título imperial que remontaria a Carlos Magno e seu Novo Império Romano do Ocidente, no século IX. No entanto, os reis franceses Bourbón, como Luís XIII, certamente recusariam a existência dessa hierarquia, bem como os reis da Prússia no século XIX.
Abaixo dos monarcas (imperadores e reis), estavam geralmente os duques, que costumavam ser títulos ligados a vastas e importantes regiões dentro dos países. Os duques costumavam ser os substitutos preferenciais na mudança de dinastias quando a família do rei, por algum motivo (como morte de todos os herdeiros), não era capaz de suceder ao trono. Essa preferência reforça a importância dos duques na estrutura das aristocracias europeias, pois muitas famílias reais surgiram de antigas famílias de duques, que foram “promovidas” a reis, por assim dizer. Como dito acima, essas estruturas variavam de país para país. No ambiente germânico da monarquia dos imperadores austríacos, por exemplo, existia a figura do “arquiduque”, ou seja, alguém ainda mais relevante que os duques. Porém, isso era incomum, de maneira geral, nas demais monarquias europeias.
Logo depois, costumavam vir os marqueses, representantes das marcas, que eram historicamente regiões nas fronteiras dos reinos e, portanto, de grande importância estratégica e militar. Os marqueses surgem como pilares centrais no aparato defensivo dos reinos, o que lhes dá grande relevância e poder. Posteriormente, com o tempo e COM a profissionalização dos exércitos nacionais europeus, o papel dos marqueses tende a se tornar mais honorífico e simbólico, menos militar e prático. Ainda assim, seu lugar destacado mantinha-se nas hierarquias de honra e de prestígio das aristocracias europeias.
Abaixo dos monarcas, dos duques e dos marqueses, estavam geralmente os condes (ou earl, que lhe é equivalente no mundo inglês). Abaixo deles, vinham os viscondes (advindo de vice-conde) e os barões.
Esses eram os títulos mais comuns, em ordem de importância: duques, marqueses, condes, viscondes e barões. No entanto, havia uma série de exceções nacionais e locais e, além disso, a hierarquia formal não esgotava a complexidade das distinções sociais, também vinculadas a questões como antiguidade da linhagem, proximidade com a Corte, riqueza fundiária e serviços militares e administrativos: tudo isso também pesava na posição efetiva que cada família tinha dentro de cada aristocracia nacional.
No Brasil Império, a hierarquia dos títulos seguiu o modelo português: duque → marquês → conde → visconde → barão. Como esses títulos não eram herdados aqui, o que acontecia era que o imperador concedia primeiramente o título de barão para quem ele considerava que merecia, e, no caso de um segundo ato de merecimento (comandantes militares que venceram rebeliões importantes, por exemplo, ou lideranças políticas e empresariais), ele concedia um título mais graduado: o de visconde, e assim por diante. O único que chegou a receber todos os títulos, sendo galardoado cinco vezes, foi o militar e líder político Luís Alves de Lima e Silva, mais conhecido simplesmente pelo seu título, como o Duque de Caxias.
No Brasil Império, que durou da Independência, em 1822, até a Proclamação da República, em 1889, havia um sistema de concessão pelo imperador de títulos de nobreza não hereditários e que não implicavam privilégios. Eram honrarias muito valorizadas e disputadas pelas elites nacionais e que funcionavam como grande instrumento de poder e de coesão em torno do imperador, por conta do prestígio social que acarretava. Um simples Irineu de Souza passava a ser conhecido, lembrado e anunciado em todos os lugares como o Barão de Mauá! O apelo social que esses títulos tinham era de tal ordem que até um dos ícones da consolidação do regime republicano no Brasil, o diplomata José Maria da Silva Paranhos Júnior, nunca deixou de assinar e de exigir ser tratado por Barão do Rio Branco: isso já em plena república.
A forma que a república encontrou de tentar substituir essas honrarias foi criando ou mantendo ordens honoríficas, bem como comendas, geralmente concedidas pelos Três Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), nas três esferas de poder (federal, estadual e municipal). No entanto, não é difícil avaliar que essas comendas não alcançaram o prestígio que os títulos possuíam no período monárquico: as pessoas costumam ficar satisfeitas ao receber uma condecoração da Ordem Nacional do Mérito ou da Ordem do Mérito Cultural, por exemplo. No entanto, essas honrarias não mudam a maneira como as pessoas são chamadas na imprensa, nos livros de história e muito menos nos encontros sociais. Os títulos de nobreza do Império, por outro lado, mudavam tudo isso: praticamente ninguém se refere hoje nos livros de história, bem como não se referia na imprensa da época, ao Duque de Caxias ou ao Barão (e depois visconde) de Mauá, como sendo o Sr. Luís Alves e o Sr. Irineu Evangelista, respectivamente. Eles mudavam de status social e de nome, na prática.
O grande escritor brasileiro Machado de Assis retrata o encanto que os títulos de nobreza causavam na elite imperial. Em sua obra A Mão e a Luva, de 1874, a protagonista Guiomar foi criada por uma madrinha que já possuía o título de baronesa (esposa de um barão). Guiomar move-se, então, determinada a escolher um pretendente que melhor poderia lhe oferecer esse título, alguém que possa se tornar barão e fazer dela baronesa, refletindo o título da obra: essa busca por "encaixe" (a luva na mão) do indivíduo ambicioso nas altas esferas sociais do Brasil Império.
Ainda assim, os títulos de nobreza no Brasil Império não configuravam uma aristocracia feudal, como na Europa, nem em um estamento separado. Funcionavam como instrumentos simbólicos e políticos dentro do processo de construção da ordem monárquica brasileira nesse período.
O caso da monarquia britânica e de sua nobreza é um dos mais célebres entre as monarquias ocidentais. Sua estrutura de títulos de nobreza provém da Idade Média, mas foram profundamente reformados nos séculos XVII e XVIII, especialmente após as Revoluções Inglesas. A partir desse período, os nobres ingleses titulados passaram a compor a chamada peerage, isto é, o corpo de pares do reino com direito a assento na Câmara dos Lordes, que era um dos órgãos do topo do poder britânico. Com o tempo, os poderes desse órgão formado pela nobreza foram sendo absorvidos pela Câmara dos Comuns, que é quem realmente detém o Poder Legislativo e o Poder Executivo na atualidade.
A hierarquia oficial do peerage, especialmente a partir do século XVII, é de: duke (duque), marquess (marquês), earl (conde), viscount (visconde) e baron (barão). Após o Ato de União, de 1707, que unificou os reinos da Escócia e da Inglaterra em um só Reino Unido, a estrutura nobiliárquica dos dois países foi então integrada em uma só. Nesse período e nos dois séculos seguintes, os pares do reino exerciam grande poder na escolha da legislação do país, já dentro do contexto de uma monarquia constitucional.
Diferentemente do modelo brasileiro do século XIX, no qual os títulos eram apenas honoríficos, no Reino Unido eles estavam associados a funções e A distinções políticas e institucionais específicas. Outro ponto relevante é que, na tradição britânica, a sucessão desses títulos dá-se pela via hereditária, sendo em regra o primogênito masculino da família o herdeiro prioritário do título, garantindo a continuidade da linhagem e da permanência de determinadas famílias na elite política daquele país por muitas gerações.
Um questionamento importante quando se trata da nobreza inglesa é com relação aos títulos concedidos pela Coroa, como o de cavaleiro da Coroa, e se isso mudaria o status da pessoa de plebeu para nobre. A verdade é que não muda. No sistema de honrarias, ainda em pleno funcionamento na monarquia britânica, ser condecorado como cavaleiro (recebendo o título de Sir ou de Dame) não torna a pessoa um membro da nobreza (peerage), mas, sim, um plebeu com honras.
O próprio tratado indica essa posição intermediária: enquanto os plebeus são tratados por Mr. e por Ms. (Mister e Mizz) e os nobres por Lord e por Lady, os condecorados passam a ser chamados por Sir. e por Dame. O uso de pronomes de tratamento diferentes por conta do status de nobreza da pessoa, como ocorre no Reino Unido, é algo que costuma gerar estranheza em um país republicano como o nosso atualmente. No entanto, à época do império, aqueles que recebiam títulos de nobreza passavam a ser chamados de Dom e de Dona. Daí, Dom Pedro I e Dona Maria I, por exemplo. Atualmente, esse pronome continua em uso apenas para com referências a bispos católicos. Apesar do pronome Dom ter caído em desuso no Brasil, fora do âmbito da Igreja, após a Proclamação da República, o uso do termo Dona evoluiu para tornar-se um tratamento de cortesia e de respeito para com as mulheres, independentemente do nível socioeconômico.
Veja também: Família real britânica — detalhes sobre a família que ocupa o trono britânico
Créditos de imagem
[1] Donatas Dabravolskas / Wikimedia Commons (reprodução)
[2] Andrew Parsons / No 10 Downing Street / Wikimedia Commons (reprodução)
[3] Roger Harris / House of Lords / Wikimedia Commons (reprodução)
[4] Allan Warren / Wikimedia Commons (reprodução)
Fontes
CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem: a elite política imperial; Teatro de sombras: a política imperial. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
SCOTT, H. M. (org.). The European Nobilities in the Seventeenth and Eighteenth Centuries. 2. ed. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2007. 2 v.
Fonte: Brasil Escola - https://brasilescola.uol.com.br/historiag/titulos-de-nobreza.htm