A anomia é um fenômeno em que os indivíduos se encontram em um contexto de ausência ou fragilidade de normas e regras sociais, o que desorganiza a sociedade, gera instabilidade e provoca violência social. Na vida em sociedade, pode-se observar um conjunto de fenômenos que organizam e mantêm a coesão social. No entanto, em momentos de crise social, como crises econômicas ou políticas, os indivíduos podem ser colocados em um estado de anomia. Esse processo, por sua vez, pode contribuir para o surgimento de comportamentos violentos e desviantes.
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A anomia é um estado social caracterizado pela ausência ou enfraquecimento de normas, regras e valores que orientam o comportamento dos indivíduos dentro da sociedade. Assim, a anomia surge quando a sociedade não fornece diretrizes claras, contribuindo para uma sensação de desorientação, insegurança e comportamentos desviantes.
Esse estado ocorre, sobretudo, em contextos de rápidas transformações econômicas ou políticas, que desestabilizam a ordem social. Exemplos incluem crises econômicas, crises políticas ou desastres ambientais, que geram insegurança e podem estimular comportamentos violentos ou de apatia social. Esse processo é mais evidente em regimes políticos instáveis ou sob forte embargo econômico, contextos nos quais os indivíduos, muitas vezes, recorrem à violência como forma de responder a esse cenário de instabilidade e insegurança.
Émile Durkheim, considerado um dos fundadores da sociologia, foi quem observou e teorizou a anomia como fenômeno social. De acordo com o autor, a anomia surge quando as normas sociais, que regulam as relações e a vida em sociedade, tornam-se frágeis ou simplesmente deixam de existir. Esse processo ocorre, geralmente, em momentos de transformações ou crises na estrutura social, manifestadas, sobretudo, em tensões econômicas ou políticas.
Assim, observa-se que, quando esses fenômenos acontecem, os indivíduos são lançados em um cenário de incertezas, o que pode levar à perda do sentimento de pertencimento e propósito. No livro O Suicídio, Durkheim identifica que a anomia tem o potencial de ameaçar a coesão e o equilíbrio social, uma vez que, na ausência de elementos referenciais como normas e valores, os indivíduos passam a agir segundo a própria vontade, o que muitas vezes pode resultar em comportamentos violentos e desviantes.
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Na criminologia, a anomia é um conceito importante para compreender como a desorganização social pode favorecer o surgimento de comportamentos criminosos e desviantes. Nesse campo, destaca-se o sociólogo Robert K. Merton (1910-2003) com sua teoria da tensão, que analisa como o comportamento desviante pode surgir quando há uma contradição entre os objetivos culturais valorizados pela sociedade e os meios legítimos disponíveis para alcançá-los.
Dessa forma, a teoria da tensão compreende que a sociedade, por meio de seus valores, ideologias e leis, pressiona os indivíduos para atingirem os objetivos socialmente aceitos. Nesse sentido, entre esses objetivos, pode-se destacar o sucesso financeiro, profissional ou a presença em espaços de destaque social.
Assim, ao se sentirem pressionados a atingir tais aspectos, os indivíduos recorrem à criminalidade. O autor baseia-se no exemplo do “Sonho Americano” como uma ideologia que pressiona os indivíduos para o sucesso e estes acabam, muitas vezes, recorrendo a práticas criminosas.
Assim, essa perspectiva indica que, quando os indivíduos são pressionados a atingir determinadas metas culturais — como superar a pobreza — mas não dispõem de meios adequados para isso, podem recorrer a comportamentos desviantes, criminosos ou violentos para alcançar tais objetivos. Desse modo, do ponto de vista criminológico, em contextos de desigualdade ou de falta de oportunidades, a anomia ajuda a explicar o aumento de práticas delituosas ou contrárias às normas estabelecidas.
Os conceitos de anomia, heteronomia e autonomia são interdependentes e se complementam na análise dos fenômenos sociais. Assim, enquanto a anomia refere-se à ausência de normas e a um estado de desordem social, a heteronomia representa uma forma de regulação externa na qual as normas são impostas por uma autoridade fora do indivíduo ou grupo.
Por exemplo, a heteronomia é exercida pelo poder do Estado, que estabelece normas e regras que orientam a ação dos indivíduos de forma externa. Por sua vez, a autonomia caracteriza-se como uma forma de autorregulação, em que os indivíduos criam e seguem suas próprias regras e valores de forma consciente e independente.
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1. (Vunesp – 2015) Sobre a teoria da “anomia”, é correto afirmar:
Resposta: Letra “D”. A anomia foi concebida por Durkheim como forma de compreender cenários em que a ausência de normas e regras sociais corroboram para o desenvolvimento de comportamentos violentos e desviantes. Robert King Merton aprofunda o conceito, buscando explicar como esses comportamentos desviantes também são impulsionados em contextos de desigualdade.
2. (CEPS-EFPA – 2018) A respeito da noção de anomia presente no pensamento durkheimiano, é correto afirmar que:
Resposta: Letra “D”. Em situações de perturbação social, seja por uma crise, seja por mudanças súbitas e felizes, a sociedade perde a sua capacidade de exercer controle sobre os indivíduos.
Fontes:
DURKHEIM, Emile. O suicídio. São Paulo: Martins Fontes, 1973.
MERTON, Robert King. Sociologia: teoria e estrutura. São Paulo: Jou, 1970.
REGO, Martin Ramalho de Freitas Leão. A teoria da anomia social no estudo criminal: uma abordagem a partir das sociologias de Durkheim e Merton. Revista Transgressões, v. 7, n. 02, p. 199-223, 2019.
RIBEIRO, Fernanda Maria Vieira. Nuances da sociologia do desvio em Émile Durkheim. Revista Cadernos de Ciências Sociais da UFRPE, v. 1, n. 1, p. 7-25, 2012.
Fonte: Brasil Escola - https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/o-que-e-sociologia/o-que-e-anomia.htm