Ruth Rocha é uma consagrada autora da literatura infantil brasileira. Ela nasceu em Vila Mariana, bairro da cidade de São Paulo, no dia 2 de março de 1931. Portanto, está com quase 100 anos de idade. Além de escritora, também trabalhou como orientadora escolar e editora de revistas infantis.
As narrativas de Ruth Rocha apresentam uma linguagem de fácil entendimento e tratam de temas da realidade. Seus livros provam que crianças também gostam de refletir sobre a realidade em vez de apenas fugirem dela, como muita gente pensa. Um de seus livros mais conhecidos é O reizinho mandão, obra que critica o autoritarismo.
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A escritora brasileira Ruth Rocha nasceu em 2 de março de 1931, na cidade de São Paulo.
Ela se formou em Ciências Políticas e Sociais, trabalhou como orientadora educacional, além de atuar como editora de revistas infantis.
Seu sucesso como escritora teve início com a publicação de seu famoso livro Marcelo, marmelo, martelo, em 1976.
As obras da autora apresentam linguagem simples, bem-humorada, e, a partir do cotidiano infantil, fazem as crianças refletirem sobre a realidade.
Uma das obras mais conhecidas de Ruth Rocha é O reizinho mandão, que conta a história de um rei autoritário que mandava todo mundo calar a boca.
O reizinho mandão foi escrito nos anos 1970, durante a ditadura militar brasileira, de forma que é uma obra infantil com cunho político.
Ruth Rocha é uma das mais importantes escritoras da literatura infantil brasileira, uma referência para autores do gênero que surgiram depois dela.
A autora foi bastante homenageada, com famosos prêmios como Jabuti, APCA, FNLIJ e o prêmio ABL (concedido pela Academia Brasileira de Letras).
A escritora Ruth Rocha nasceu no dia 2 de março de 1931, em Vila Mariana, que é um bairro da cidade de São Paulo. A menina tinha problemas de asma, o que fez com que sua frequência à escola fosse irregular, no colégio Bandeirantes. Mas a família, incluindo o pai médico, contava muitas histórias para ela, o que a levou a gostar de ler.
Quando foi alfabetizada, passou a ler sozinha as histórias de que tanto gostava. Na adolescência, sua atividade leitora se intensificou, leu bastantes obras. Anos depois, Ruth Rocha concluiu o curso de Ciências Políticas e Sociais, na Escola de Sociologia e Política de São Paulo.
Ali, conheceu seu marido, Eduardo, com quem se casou em 1956. No ano seguinte, passou a trabalhar como orientadora educacional, no colégio Rio Branco, função que exerceu durante 15 anos. Escreveu textos sobre temas educacionais para a revista Cláudia, vinculada à editora Abril, a partir de 1967.
Publicou sua primeira história infantil — Romeu e Julieta — em 1969. No ano seguinte, terminou sua pós-graduação em Orientação Educacional, feita na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. E foi uma das fundadoras e a editora da revista infantil Bloquinho, em 1971.
Dois anos depois, na editora Abril, trabalhou como editora-chefe responsável pelas revistas infantis dessa empresa. O sucesso como escritora de livros infantis teve início com a publicação, em 1976, do livro Marcelo, marmelo, martelo, sobre um garoto questionador que queria saber o porquê das coisas.
A partir daí, foram muitos livros originais, adaptações de consagradas obras, para o público infantojuvenil, e traduções. A quase centenária escritora é uma das personalidades mais famosas da literatura brasileira.
As obras de Ruth Rocha pertencem à literatura infantil brasileira. Ela escreveu clássicos como Marcelo, marmelo, martelo e O reizinho mandão. Como a autora escreve livros para crianças, a linguagem utilizada é de fácil entendimento, clara, simples. Mas Ruth Rocha não trata as crianças como se elas fossem bobas e ingênuas.
Os livros da escritora fazem a criança pensar e refletir sobre a realidade. E um ponto que se destaca nas narrativas de Ruth Rocha é que a autora não dita regras, não dá lições de moral. Ela conta com o discernimento infantil e a capacidade reflexiva de leitoras e de leitores iniciantes.
A escritora fala de coisa séria, mas de forma engraçada. Por exemplo, O reizinho mandão é um livro que fala de um ditador. Mas a situação é cômica. No livro Marcelo, marmelo, martelo, as perguntas do protagonista são curiosas e engraçadas, mas o menino está querendo saber por que as coisas são como são.
Assim, a autora busca inserir no cotidiano das crianças a reflexão e os questionamentos acerca da realidade. A narradora ou o narrador de suas obras cria uma relação de intimidade com leitores ao dialogar com quem está lendo a narrativa. Além disso, em suas obras, é comum a presença de elementos intertextuais, ou seja, o diálogo com outros textos.
A arca de Noé.
A menina que não era maluquinha.
As coisas que a gente fala.
Bom dia, todas as cores!
Borba, o gato.
Como se fosse dinheiro.
Davi ataca outra vez.
Escolinha do mar.
Este admirável mundo louco.
Faca sem ponta, galinha sem pé.
Faz muito tempo.
Gabriela e a titia.
Historinhas malcriadas.
Marcelo, marmelo, martelo.
Meu irmãozinho me atrapalha.
Meus lápis de cor são só meus.
Ninguém gosta de mim.
O amigo do rei.
O menino que aprendeu a ver.
O menino que quase virou cachorro.
O monstro do quarto do Pedro.
O piquenique de Catapimba.
O que os olhos não vêm.
O reizinho mandão.
Palavras, muitas palavras.
Pra vencer certas pessoas.
Procurando firme.
Romeu e Julieta.
Sapo vira rei vira sapo.
O livro começa com o narrador ou narradora (não há marca de gênero; mas, na edição que consultei, a ilustração mostra uma menina) dizendo que vai contar uma história que seu avô sempre contava. Tal história ocorreu em um lugar muito longe daqui, há muito tempo...
Havia um rei bom e justo. Com a morte do velho rei, o príncipe assumiu o trono. O novo rei era mal-educado, mimado, desses que acham que são “donos do mundo”. Assim, aquele país precisou suportar o tal “reizinho chato”. Era mandão e teimoso. Nesse ponto da história, não há como não pensar na educação das crianças.
Esse reizinho mandão teve uma péssima criação, foi mimado, os pais não lhe deram limites. E quem não conhece alguém assim? Pois é assim que as crianças mimadas ficam quando crescem: sem limites e sem respeito pelo próximo. Mas voltemos à história que o avô da narradora contava.
O reizinho mandão fazia “leis e mais leis” absurdas. Assim, proibiu:
“cortar a unha do dedão do pé direito em noite de lua cheia”;
“dormir de gorro na primeira quarta-feira do mês”.
Era tão mandão que não ouvia nem os conselhos dos conselheiros do rei. E ele ficava com muita raiva ao ser criticado por algum conselheiro. Mandava o tal conselheiro calar a boca e dizia: “Eu é que mando!”. E assim mandava calar a boca ministro, embaixador, professor...
O povo daquele país foi ficando quieto e calado, com medo do rei. E foi esquecendo como é falar, até ninguém mais saber como se fala. No início, o reizinho gostou, mas depois ficou entediado de falar sozinho. Está aí uma reflexão interessante. E se deixássemos os “reizinhos mandões” da realidade falarem sozinhos?
Ao perceber o que tinha feito, o reizinho foi ficando triste. Sua meta agora era “consertar o estrago que tinha causado”. Então consultou um sábio do reino vizinho, onde as pessoas cantavam, dançavam e conversavam. O sábio chamou a atenção do reizinho ao saber o estrago que ele tinha feito.
Sacudia o dedo no nariz do rei. Mas o rei não podia fazer nada, pois aquele não era seu reino. Por fim, o sábio disse ao rei que ele deveria voltar e, no seu reino, bater de porta em porta até encontrar uma criança que soubesse falar: “ela vai dizer a você o que você precisa ouvir”. Assim, o reino se livraria da maldição.
Depois de muito procurar, ele encontrou uma menina. A princípio, ela não queria falar. Mas quando o papagaio do rei (é, ele tinha um papagaio) repetiu, como costumava fazer, “Cala a boca!”, a menina ficou vermelha e gritou: “Cala a boca já morreu! Quem manda na minha boca sou eu!”.
Uau! Sempre ouvi isso, desde criança. Mas agora, lendo a narrativa do reizinho mandão, percebi que isso é de fato um grito de liberdade. Mas, voltando à história, a maldição chegou ao fim, e as vozes encheram o reino. A alegria e o barulho foram “deixando o reizinho apavorado”. Sem suportar a liberdade alheia, ele “saiu correndo pela estrada”.
Uns dizem que o reizinho nunca mais voltou. Alguns dizem que ele desistiu do trono, e o irmão dele ocupou seu lugar. Outros dizem que ele virou sapo. De qualquer forma, conhecer a história desse reizinho mandão faz a gente pensar nos “reizinhos mandões” que estão governando o mundo neste exato momento.
Esse livro foi escrito na década de 1970, durante a ditadura militar brasileira. Então, ele diz mais do que apenas contar a história de um reizinho mandão. Afinal, como dizia minha avó: “Pra quem sabe ler, um pingo é letra”. Portanto, se você é pai, mãe, tia, tio, avô, avó, dê esse livro para as crianças da família. Eu recomendo muito!
Não é possível falar em literatura infantil brasileira sem falar de Ruth Rocha. Ela, e outras escritoras como, por exemplo, Lygia Bojunga, são autoras essenciais nesse tipo de literatura. Como você viu no tópico anterior, em que falei sobre o livro O reizinho mandão, suas narrativas fazem pensar.
E quem disse que criança tem que ser alienada? Não mesmo. O sucesso da autora entre as crianças mostra que elas são capazes de refletir sobre as questões do mundo. É claro que seu entendimento ocorre por meio de elementos do universo infantil. As narrativas de Ruth Rocha são repletas de criticidade, mas são divertidas também.
Criança gosta de ser tratada com respeito, inclusive respeito pela sua inteligência, pela sua capacidade de ler o mundo. E Ruth Rocha tem esse respeito pelas meninas e pelos meninos. Além disso, é por meio de livros como os dela que as crianças brasileiras são apresentadas à leitura literária.
Assim, a autora tem uma importante missão, isto é, contribuir na formação de leitoras e leitores brasileiros. Com a obra de Ruth Rocha, desde cedo, a criança leitora percebe que literatura é mais do que apenas diversão para passar o tempo, é também diversão para pensar e prestar atenção na realidade.
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Comenda da Ordem do Mérito Cultural.
Prêmio ABL de Literatura Infantil.
Prêmio Jabuti.
Prêmio APCA.
Prêmio FNLIJ.
Prêmio Moinho Santista.
Prêmio Fundação Conrado Wessel.
Colar de Honra ao Mérito Legislativo.
Além disso, segundo a CNN Brasil, a autora será homenageada pela escola de samba Mancha Verde, no carnaval de 2027, com o enredo: “Ruth Rocha, a palavra que ensina a criança a voar”.
Ruth Rocha deu uma entrevista para a revista Crescer, em 2021. Dessa entrevista, tirei algumas frases, que transcrevo a seguir:
“As pessoas têm uma ilusão de que a criança não pensa nada, não faz nada, e não é verdade.”
“A criança vê as injustiças, a criança vê até muito mais coisa.”
“Todas as crianças do mundo me inspiram.”
“Não há temas que não possam ser contados, mas tem temas que nunca contei.”
“Não acho que minha vida foi tão divertida... Foi só boa!”
“A leitura precisa ser estimulada em casa, na escola.”
“Com a literatura infantil, a criança vai conhecendo o mundo.”
Créditos da imagem
[1] Ruth Rocha (reprodução)
[2] Editora Salamandra (reprodução)
Fontes:
DAIBELLO, Cláudia de Oliveira. Ruth Rocha: produção, projetos gráficos e mercado editorial. 2013. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2013.
ISMERIM, Flávio. Ruth Rocha faz 95, é reverenciada por Walcyr e vira enredo da Mancha Verde. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/carnaval/ruth-rocha-faz-95-e-reverenciada-por-walcyr-e-vira-enredo-da-mancha-verde/.
MARIANO, Juliana Camargo. A literatura infantil e o autoritarismo no século XX: um estudo comparativo entre Ruth Rocha e José Cardoso Pires. 2012. Dissertação (Mestrado em Letras) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.
MIGUEL, Maria Aparecida de Fátima. Ruth Rocha, página a página: bibliografia de e sobre a autora. 2006. Dissertação (Mestrado em Letras) – Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Assis, 2006.
ROCHA, Ruth. O reizinho mandão. São Paulo: Quinteto Editorial, 1985.
ROGERIO, Cristiane. Entrevista: Ruth Rocha aos 90 anos. Disponível em: https://revistacrescer.globo.com/Entretenimento/noticia/2021/03/entrevista-ruth-rocha-aos-90-anos.html.
RUTH ROCHA. Biografia. Disponível em: https://www.ruthrocha.com.br/biografia.
Fonte: Brasil Escola - https://brasilescola.uol.com.br/literatura/ruth-rocha.htm