No interior do Ceará, inspirado pelas histórias narradas pelo avô, o estudante de 16 anos Raul Victor Magalhães Souza desenvolveu um sistema de Inteligência Artificial (IA) para previsão de chuvas.
O trabalho surgiu após ouvir as narrativas sobre os "profetas da chuva", agricultores da região Nordeste que observam sinais da natureza para prever as condições do tempo.
Com isso, o jovem percebeu que os conhecimentos tradicionais compartilhados pelo avô Luiz Maia poderiam ser transformados em dados científicos e se transformar em projeto de IA. A iniciativa busca oferecer aos produtores rurais mais uma alternativa de fonte de informação para apoiar em decisões relacionadas ao plantio e manejo das lavouras.
Entre as premiações conquistadas pelo trabalho, está o Stockholm Junior Water Prize 2026. O cearense, que mora em Iracema (CE), irá representar o Brasil em Estocolmo, na Suécia, na premiação que reúne jovens cientistas do mundo todo para apresentarem soluções inovadoras quanto aos desafios globais que envolvem a água.
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A ferramenta de IA, considerada híbrida por unir saberes tradicionais e ciência contemporânea, combina técnicas ancestrais de observação da natureza com dados meteorológicos e técnicas de inteligência artificial, explica Raul.
O estudante utiliza o método de classificação binária de dados para converter os fatores que ocorreriam na natureza como fator 1 e fatores que não ocorriam e estavam dentro dos parâmetros analisados como fator 0. Desse modo, ele conseguiu sistematizar e estruturar o conhecimento empírico.
Entre os dados meteorológicos utilizados, estão: pressão atmosférica (hPa), temperatura máxima, mínima e média (°C), ponto de orvalho (°C), umidade relativa do ar (%), velocidade do vento (km/h), direção do vento (graus), volume de precipitação (mm) e data da observação.
Raul selecionou dez sinais observados pelos profetas da chuva para serem utilizados como parâmetros:
Florescimento do mandacaru.
Frutificação do juazeiro.
Florescimento da Embiratanha.
Surgimento da aranha caranguejeira.
Surgimento da borboleta preta (mariposa preta).
Vocalização das rãs.
Agitação das formigas.
Aparecimento do Halo Lunar.
Ocorrência de barra de nuvens no início do ano.
Alta viabilidade do Sete-Estrelo (popularmente conhecido como Plêiades).
Em seguida, foi indicado se esses fenômenos ocorreram ou não, sendo classificados em fator 1, caso a resposta seja positiva, e 0, caso não tenham ocorrido.
Ao final desse processo, é possível utilizar os dados em análises estatísticas e integração à modelagem computacional, conta Raul.
O jovem relata que a principal dificuldade no trabalho foi o acesso a todas essas informações, que muitas vezes se encontram em pessoas conhecedoras dessas questões, que estão localizadas em áreas rurais afastadas dos centros urbanos, o que dificulta o registro e a decodificação.
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O modelo do sistema foi testado de forma inicial em cinco algoritmos diferentes para avaliar qual teria melhor performance.
Após os testes, o Random Forest obteve a melhor execução, com 94,5% de acurácia e 95% de precisão, tendo taxas muito positivas de equilíbrio entre as métricas, afirma Raul.
Os resultados foram comparados com os valores milimétricos observados entre 2025 e 2026 e com valores previstos em outras plataformas preditivas.
A ferramenta de IA do estudante se destacou com uma média de cinco vezes mais assertividade que as plataformas convencionais para previsão pluviométrica.
O sistema pode ser implementado para ajudar no planejamento antecipado de aquisição de sementes, gestão hídrica de reservatórios e mananciais, planejamento para eventos climáticos extremos, racionamento da água, entre outras atividades, lista o estudante.
No desenvolvimento de sua pesquisa, Raul foi orientado pela professora Roberta Jeane Bezerra Jorge, docente da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), e pelo doutorando Helyson Lucas Bezerra Braz, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Morfofuncionais da UFC.
Raul Victor foi reconhecido em diferentes premiações e iniciativas com o trabalho da IA inspirada nos "profetas da chuva":
Prêmio Jovem Cientista 2025
Prêmio Stockholm Junior Water Prize Brazil 2026
Prêmio Fundação Bunge 2026.
Para o estudante, essas premiações possuem um valor muito especial.
"Esses prêmios evidenciam que jovens pesquisadores realmente têm impacto na construção e consolidação da ciência brasileira e que é possível transformar o contexto social de comunidades por meio de vivências pessoais que você decidiu observar, analisar e solucionar um obstáculo que por diversas vezes acometia diversos territórios. Então, ter minha iniciativa reconhecida me estimula a continuar na carreira científica e construir cada vez mais iniciativas para fortalecer nossa sociedade."
Raul chegou a ser bolsista de Iniciação Científica Júnior (PIBIC Jr.) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Cursando o último ano do ensino médio, o cearense pretende fazer Medicina e conciliar a graduação com a trajetória científica.
Por Lucas Afonso
Jornalista
Fonte: Brasil Escola - https://brasilescola.uol.com.br/noticias/estudante-ceara-ia-previsao-chuvas-premio-interncional/3133250.html