Em Londrina, no Paraná, o Clube de Ciências em Mãos reúne estudantes surdos em um trabalho que envolve iniciação científica, sustentabilidade e acessibilidade.
Os alunos estão no centro da produção do conhecimento e transformam óleo de cozinha usado em pesquisa científica, sabão, vídeo em Língua Brasileira de Sinais (Libras) e materiais de apoio para a aprendizagem.
Atividades são realizadas em uma escola pública de tempo integral no município paranaense. Projeto conta com desenvolviemnto do Instituto Londrinense de Educação de Surdos (ILES).
Confira: Mulheres surdas compartilham trajetórias e reforçam importância da educação inclusiva
Tópicos desta notícia
Projeto escolar une acessibilidade com iniciação científica sustentável
O Clube de Ciências em Mãos é conduzido pela professora de Ciências e Biologia Alessandra Francisco, que possui 30 anos de atuação na educação, sendo metade no ILES.
Esse projeto surgiu há dois anos após uma aproximação com a Universidade Estadual de Londrina (UEL), na intenção de ampliar a presença dos estudantes surdos em espaços de pesquisas e dar mais visibilidade ao trabalho desenvolvido pela escola.
Dessa forma, nasce o programa que une pesquisa, desenvolvimento científico e iniciação científica com acessibilidade. "O projeto vai além da escola. É para a vida e para o futuro deles", afirma Alessandra.
No clube, os estudantes transformam óleo residual em sabão. Em laboratório, eles aprendem a medir volume, pesar igredientes, observar reações, comparar receitas, interpretar resultados e compreender os impactos ambientais do descarte incorreto do óleo de cozinha.
Crédito: Arquivo.
Dessa forma, são trabalhados temas como sustentabilidade, educação financeira, trabalho em equipe e comunicação científica.
Veja: Estudantes desenvolvem bioplástico que vira planta após descarte
Ciência em Libras
A educadora explica que para o aprendizado acontecer, não basta traduzir o conteúdo. Com isso, a ciência precisa ser ensinada em Libras, com visualidade, demonstração prática e tempo para a construção dos conceitos.
"No laboratório, não basta chegar falando. Tudo precisa acontecer no tempo deles, com calma, apoio visual e demonstração, porque eles aprendem pelo visual. Por isso, resolvi construir o nosso sinalário sempre próximo da pesquisa científica"
Alessandra
Crédito: Divulgação / SEED / Governo do Paraná.
Uma das principais frentes do clube é o sinalário científico. Com os conteúdos da pesquisa, os alunos selecionam termos técnicos, produzem sinais, gravam vídeos em Libras e produzem materiais de apoio.
Além disso, o grupo também trabalha na criação de um jogo bilíngue, com perguntas, respostas, vídeos e palavras em português, pensado para apoiar a aprendizagem dos estudantes surdos.
"Ainda temos muito pouco material adaptado para estudantes surdos. Ter um intérprete é importante, mas é muito diferente de ter um professor explicando aquele conteúdo em Libras. A ciência é um lugar de todos e deve ser ocupada por todos", afirma Alessandra.
Um dos participantes é Heycon Lucas Pedros dos Santos (16) que cursa o primeiro ano do ensino médio. Entrou no projeto mesmo sem se interessar pelas disciplinas envolvidas, com o objetivo de treinar a comunicação e melhorar a convivência com os demais estudantes surdos.
"Eu não gostava de ciência, nem de química ou biologia, mas entrei no clube. Com o tempo, fui descobrindo um lugar em que eu me encaixava. Hoje, estou aprendendo a me comunicar melhor, a participar de algo coletivo e a trabalhar mais essa área"
Heycon
Atualmente, Heycon desempenha diversas atividades como o preparo de slides, gravação de vídeos em Libras e auxilia os colegas. Ele conta que em seu antigo colégio era mais indisciplinado e que o clube o ajudou a ter mais consciência e foco no que precisa ser feito.
O clube ganhou reconhecimento na Feira de Cultura Científica Paraná Faz Ciência (Fecci), realizada em Curitiba, com o terceiro lugar na categoria de divulgação científica.
Alessandra destaca que o momento foi simbólico, uma vez que colocou os estudantes diante de um público que, muitas vezes, desconhece a capacidade dos jovens surdos de produzir e apresentar pesquisa. "Naquele momento, eu senti o impacto social do projeto. Era a primeira vez que eles estavam sendo vistos daquela forma. Muitas vezes ainda existe a ideia de que estudantes surdos são inferiores ou não têm capacidade. O projeto ajuda a mudar essa percepção", completa.
Crédito: Divulgação / SEED / Governo do Paraná.
Leia também: Alunas transformam óleo de cozinha em biodiesel para ônibus escolares
Por Lucas Afonso
Jornalista