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Independência da Criança: a autonomia que carece de suporte

Psicologia

A independência da criança depende em muito da capacidade dos pais em encontrar um ponto de equilíbrio entre a proteção e a liberdade na educação dos filhos.
O filme “Procurando Nemo” (Disney - Pixar, EUA, 2003) é um bom recurso capaz de gerar discussões a respeito da independência infantil
O filme “Procurando Nemo” (Disney - Pixar, EUA, 2003) é um bom recurso capaz de gerar discussões a respeito da independência infantil
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O que é independência?

O significado de independência está ligado a um estado em que a pessoa não se encontra sob o domínio de força superior ou influência. Além disso, podemos entender independência num sentido próximo das palavras autonomia, autossuficiência e liberdade.

Quando falamos da independência infantil, estamos tratando do âmbito da conquista de habilidades e características, como organização e administração do tempo de estudos e diversão, sociabilidade desenvolvida entre outras.

Como uma criança pode se tornar independente?

Muitos pais acreditam que a independência da criança dependa exclusivamente do “deixar fazer”, ou seja, dar liberdade para que a criança tenha suas próprias experiências. O que não se pode deixar de ter em mente é que, para a criança, muitas formas e conteúdos do mundo adulto ainda não são facilmente compreensíveis. Nesse sentido, a criança precisa de referências.

Para Winnicott, conhecido autor da psicanálise inglesa, toda criança nasce com uma independência em potencial que pode, ou não, se concretizar a partir da ação de um ambiente que facilite esse processo. Para descrever esse ambiente, Winnicott usou a expressão mãe suficientemente boa. Essa expressão indica um ambiente em que a atitude parental está no ponto médio entre a superproteção e a negligência, que são os extremos. Assim, a criança recebe as doses ideais de proteção e liberdade, isso porque está configurado um ambiente atento às necessidades adaptativas de cada criança. Esse ponto de equilíbrio corresponde ainda a um afastamento gradativo da atuação parental. Um bom exemplo para entender essa diminuição é o ato de ensinar uma criança a andar de bicicleta. Inicialmente os pais criam o aparato: instalam rodinhas, compram capacete, joelheira e cotoveleira e, além disso, seguram a bicicleta. Gradativamente a ação dos pais vai diminuindo. A criança já não precisa ser segurada e logo vai dispensar as rodinhas da bicicleta.

Para outros autores, a independência da criança depende da capacidade que ela vai desenvolvendo ao longo da vida de julgar sobre suas próprias habilidades, sem precisar que outra pessoa atribua valor a isso. Um exemplo disso é o caso dos estudos: gradativamente a criança vai se afastando da necessidade da aprovação da professora e dos pais, ou das notas, e percebendo a importância do conhecimento.

Como os pais podem ajudar?

A palavra de ordem com relação à independência infantil é atenção. Os pais podem ajudar seus filhos se estiverem atentos às suas necessidades, sejam elas de carinho ou de espaço. Estar atento significa perceber os momentos em que a estimulação da independência é oportuna. Isso porque muitas crianças podem entender essa estimulação como abandono. Conhecer os gostos e anseios dos filhos é a principal forma de auxiliá-los a construírem os próprios caminhos e isso demanda passar tempo com as crianças. Outra importante ação dos pais é compartilhar as próprias experiências, incluindo deficiências e limitações. Pais que assumem uma postura de que sempre se comportaram de forma irrepreensível, na intenção de servir de modelo para os filhos, podem se tornar modelos distantes e inalcançáveis. Mostrar erros e incapacidades é mostrar-se humano e essa é uma atitude que em muito favorece o desenvolvimento da independência infantil.

Independência Infantil e Deficiência

Um dos complicadores da estimulação à independência infantil é a existência de qualquer problema no desenvolvimento físico, cognitivo ou emocional das crianças. Os pais tendem a ter dificuldades em encontrar o ponto de equilíbrio entre o proteger e o libertar. Para esses pais, vale a mesma palavra: atenção. Estar atento não às limitações e dificuldades de seus filhos, mas às suas potencialidades. Uma criança estimulada, mesmo com grau severo de comprometimento físico ou mental, pode aprender e se tornar independente. Essa independência depende do olhar dos pais e da comunidade em que essa criança está inserida para aquilo que ela “é capaz de fazer”, para que a estimulação tenha maior eficiência.

Como saber mais?

Alguns filmes ajudam a pensar a relação da atitude parental com a independência infantil. A animação Procurando Nemo (Finding Nemo, EUA, 2003) é um bom exemplo, capaz de gerar discussões interessantes a respeito do tema. Já o documentário “Pais neuróticos, filhos mimados” (BBC, GNT.Doc, 2010 – Disponível no Youtube) retrata como a pressão exercida sobre os pais, para que sejam superpais, tem prejudicado o desenvolvimento da autonomia de seus filhos. Por último, o filme Colegas (Brasil, 2013), é uma produção nacional que tem muito potencial para discutir a independência da criança e adulto com deficiência.


Juliana Spinelli Ferrari
Colaboradora Brasil Escola
Graduada em psicologia pela UNESP - Universidade Estadual Paulista
Curso de psicoterapia breve pela FUNDEB - Fundação para o Desenvolvimento de Bauru
Mestranda em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP - Universidade de São Paulo

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

FERRARI, Juliana Spinelli. "Independência da Criança: a autonomia que carece de suporte"; Brasil Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/psicologia/independencia-crianca.htm>. Acesso em 19 de agosto de 2017.

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