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Estilo telegráfico nos gêneros narrativos

Literatura

O estilo telegráfico, o qual subsiste nos gêneros narrativos, constitui-se de uma supressão de elementos, sem acarretar em consequências negativas ao discurso.
Denomina-se telegráfico o estilo constituído pela supressão de elementos, sem nada causar à qualidade do discurso
Denomina-se telegráfico o estilo constituído pela supressão de elementos, sem nada causar à qualidade do discurso
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Como bem comporta o próprio título do artigo que ora se faz evidente, o termo “estilo” refere-se à forma pela qual o autor se delineia para nos passar toda a sua criatividade, toda a sua habilidade em desenvolver um trabalho especial com a linguagem – procedimento esse que se constata, sobretudo, por meio da arte literária. Dessa forma, por mais que toda aquela gama de representantes, os quais integram um determinado estilo de época, tragam consigo certa carga de traços ideológicos, cada um, à sua própria maneira, incumbe-se de transmitir a mensagem a gerações e gerações de leitores.

Já nos reportando ao adjetivo “telegráfico”, esse parece nos indicar pistas para constatarmos que se trata de algo definido pela eliminação de determinados elementos, tais como, conjunções, preposições, artigos, entre outros, que, mesmo sendo suprimidos, não trazem nenhuma consequência negativa ao discurso, ou seja, mesmo assim se revelando, permitem o perfeito entendimento por parte do interlocutor. Estamos, pois, referindo-nos a elementos de ordem morfológica, contudo, não podemos afirmar que essa supressão esteja relacionada, de forma específica, a elementos referentes a tal categoria, pura e simplesmente, haja vista se demarcar, também, pela estrutura em que muitas vezes textos poéticos ou até mesmo prosaicos são construídos, como ocorre com uma das criações deixadas pelo grande representante do Modernismo brasileiro, Oswald de Andrade, mais precisamente em Memórias Sentimentais de João Miramar

Ao estabelecermos contato com o enredo, constatamos que o artista faz uso de uma linguagem cinematográfica, telegráfica, acima de tudo, na qual os capítulos, apesar de se constituírem de começo, meio e fim, não estabelecem entre si uma relação de dependência, ou seja, diferentemente do que ocorre em um romance, no qual as ideias expressas no enredo se encontram justapostas, amarradas entre si. Para melhor exemplificar, escolhemos dois capítulos distintos da obra já mencionada:

O Pensieroso

"Jardim desencanto
O dever e processões com pálios
E cônegos
Lá fora
E um circo vago e sem mistérios
Urbanos apitando noites cheias
Mamãe chamava-me e conduzia-me para dentro do oratório de mãos grudadas.
- O anjo do Senhor anunciou à Maria que estava para ser a mãe de Deus.
Vacilava o morrão do azeite bojudo em cima do copo. Um manequim esquecido avermelhava.
- Senhor convosco, bendita sois entre as mulheres, as mulheres não tem pernas, são como o manequim de mamãe até embaixo. Para que nas pernas, amém."

Indiferença

Montmartre
E os moinhos do frio
As escadas atiram almas ao jazz de pernas nuas


Meus olhos vão buscando lembranças
Como gravatas achadas


Nostalgias brasileiras
São moscas na sopa de meus itinerários
São Paulo de bondes amarelos
E romantismos sob árvores noctâmbulas


Os portos de meu país são bananas negras
Sob palmeiras
Os poetas de meu país são negros
Sob bananeiras
As bananeiras de meu país
São palmas claras
Braços de abraços desterrados que assobiam
E saias engomadas
O ring das riquezas


Brutalidade jardim
Aclimatação


Rue de La paix
Meus olhos vão buscando gravatas
Como lembranças achadas."

Analisando-os, constatamos uma fragmentação de ideias, ou seja, os assuntos em nada se assemelham, não estabelecem nenhuma ligação entre si, tendo em vista que são capítulos de uma mesma obra. Além disso, cabe ressaltar ainda, sobretudo em se tratando do segundo exemplo, a inexistência de quaisquer indícios de sinais de pontuação, podendo ser comparados a um fluxo de consciência advindo do próprio escritor.

Quanto ao caso que ilustra a supressão de elementos morfológicos, acima ditos, elegemos o exemplo que segue, que por sua vez se trata de um conto ligado à contemporaneidade, de Ricardo Ramos, cujo título assim se demarca: 

Circuito fechado

Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves, lenço. Relógio, maço de cigarros, caixa de fósforos, jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talheres, guardanapos. Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, telefone, agenda, copo com lápis, canetas, blocos de notas, espátula, pastas, caixas de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales, cheques, memorandos, bilhetes, telefone, papéis. Relógio. Mesa, cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fotos, cigarro, fósforo, bloco de papel, caneta, projetos de filmes, xícara, cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro-negro, giz, papel. Mictório, pia. Água. Táxi, mesa, toalha, cadeiras, copos, pratos, talheres, garrafa, guardanapo, xícara. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Escova de dentes, pasta, água. Mesa e poltrona, papéis, telefone, revista, copo de papel, cigarro, fósforo, telefone interno, externo, papéis, prova de anúncio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro, fósforo, papel e caneta, telefone, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara, jornal, cigarro, fósforo, papel e caneta. [...]


Por Vânia Duarte
Graduada em Letras

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

DUARTE, Vânia Maria do Nascimento. "Estilo telegráfico nos gêneros narrativos"; Brasil Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/literatura/estilo-telegrafico-nos-generos-narrativos.htm>. Acesso em 21 de agosto de 2017.

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