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Morte de Fidel Castro

História Geral

A morte de Fidel Castro foi um dos acontecimentos que mais chamaram atenção do mundo em 2016, pois trouxe à tona muitos debates polêmicos sobre a sua trajetória.
Fidel Castro, comandante-em-chefe da Revolução de 1959 e ditador de Cuba*
Fidel Castro, comandante-em-chefe da Revolução de 1959 e ditador de Cuba*
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Em 25 de novembro de 2016, morreu, aos 90 anos de idade, Fidel Castro, comandante-em-chefe da Revolução Cubana e, subsequentemente, Primeiro-Ministro de Cuba, Primeiro-Secretário do Partido Comunista de Cuba (a partir de 1965), Presidente (de 1976 a 2008) e ditador de orientação marxista-leninista, mas também nacionalista. Castro foi uma das personagens emblemáticas da Guerra Fria (1947-1989), e sua morte suscitará, nos próximos anos, muitos debates políticos e intelectuais que certamente serão explorados nos vestibulares e no Enem. Sendo assim, separamos alguns pontos da trajetória de Fidel Castro que poderão ser alvos de discussões e polêmicas.

  • Do assalto ao quartel Moncada à Revolução

A atividade político-revolucionária de Fidel Castro começou, de fato, em 1953, com o episódio conhecido como Assalto ao quartel Moncada. Antes disso, Castro militava no âmbito jornalístico, criticando o governo de Carlos Prío e, posteriormente, o golpe de Fulgêncio Batista. Castro, com mais 165 guerrilheiros, tentou tomar de assalto o quartel Moncada em Santiago de Cuba, com o objetivo de roubar as armas do depósito e armar a população contra o governo do já ditador Fulgêncio Batista. A ação foi um fracasso. Grande parte dos guerrilheiros foi morta. Fidel foi preso e condenado. Advogado por formação, fez sua própria defesa, na qual proferiu a frase: “A história me absolverá”.

Em 1955, Fidel foi anistiado pelo governo de Batista e exilou-se no México, onde conheceu Ernesto Che Guevara e, junto de outros homens (entre eles, o irmão de Fidel, Raul), compôs o grupo Movimento Revolucionário 26 de Julho (dia do referido assalto) ou, simplesmente, M-26-7. A nova guerrilha de Castro, que se instalou em Sierra Maestra, ao Sul de Cuba, entrou em choque com o Diretório Nacional do M-26-7, comandado por Felipe Pazos e Léster Rodriguez, por conta do pedido de ajuda financeira à elite política e econômica cubana que era contrária ao regime de Batista – inclusive muitos desses cubanos estavam exilados nos Estados Unidos, em cidades como Miami e Nova Iorque. Essa ajuda ficou conhecida como “Pacto de Miami”. O centralismo autoritário de Fidel no comando da Revolução trouxe duras consequências para aqueles que dele divergiam.

  • A velha e a nova ditadura

Outro ponto importante é o seguinte: apesar da ditadura de Fulgêncio Batista, Cuba, até 1958, tinha altos níveis no campo social e econômico. Isso pode ser corroborado pelas observações do escritor Guillermo Cabrera Infante, no livro Mea Cuba. Segundo Cabrera Infante, “em 1958, o Produto Nacional Bruto de Cuba era superado apenas pela Argentina e pela Venezuela” e, fazendo menção a uma obra clássica de Hugh Thomas:

[…] Em Cuba havia mais automóveis nos anos 1950 do que em muitos países europeus, e mais televisores do que a Itália. Cuba também teve televisão em cores em 1958, dez anos antes do que a Inglaterra, Gales e Escócia! Este é um segredo arcano para os ingleses? Justo o contrário. Todos estes dados podem ser encontrados num livro escrito por um inglês, Hugh Thomas, que escreveu a melhor história da outra ilha, Cuba ou a ânsia de liberdade. [1]

A Revolução comandada por Castro prometera às elites e à população de Cuba a deposição de um ditador (Batista), que perseguia e tolhia as liberdades, mas não um regime que substituísse o anterior, não apenas repetindo e intensificando essas perseguições (a começar pela formação do comando dos fuzilamentos na Fortaleza Militar de La Cabaña, operado por Che Guevara), como também desregulando a economia – o que ficou mais explícito na declaração oficial do alinhamento de Castro à URSS e à posição marxista-leninista, em 1961.

  • Dentro da Revolução, tudo; fora da Revolução, nada”

A associação direta de Castro com o comunismo internacional, bem como o centralismo autoritário de seu governo, que pode ser sintetizado em sua frase “Dentro da Revolução, tudo; fora da Revolução, nada”, culminou em expurgos e exílios de muitos cubanos que, de início, apoiaram a Revolução. Entre esses cubanos, estavam alguns dos principais comandantes – companheiros de Castro desde o M-26-7. As ações de Castro contra essas pessoas foram semelhantes (em menor escala) àquelas praticadas por Josef Stalin, na URSS, na fase do “Grande Terror”, em 1937 e 1938.

O primeiro dos comandantes da Revolução a se contrapor à guinada autoritária de Castro, ainda em 1959, foi Huber Matos. Matos, apesar de sua campanha como guerrilheiro, foi alcunhado de traidor e condenado a 20 anos de prisão. Após sair da prisão, em 1979, exilou-se na Costa Rica e, depois, em Miami, onde fundou a organização anticastrista CID (Cuba Independente e Democrática).

Outro caso polêmico envolveu outro comandante, que era tão popular quanto Che Guevara e os próprios irmãos Castro: Camilo Cienfuegos. Cienfuegos também ousou criticar o autoritarismo de Fidel e, ainda em 1959, o avião no qual viajava desapareceu nas cordilheiras da ilha de Cuba. Até hoje esse desaparecimento não foi devidamente esclarecido. Muitos críticos do regime comunista cubano (entre eles, alguns dissidentes) acusam Fidel de sabotagem – já que, ao contrário de Matos, Cienfuegos não poderia ser condenado e preso sem que houvesse uma grande reação popular negativa.

  • O “Caso Ochoa” e outros expurgos de comandantes

O caso mais emblemático da postura autoritária de Castro foi o da sua rivalidade com o general Ochoa, também um dos comandantes da Revolução e comandante em outras missões capitaneadas por Cuba, como as guerras em solo africano, vide a Guerra Civil Angolana. Castro, em 1989 (já nos momentos finais da Guerra Fria), ordenou o fuzilamento sumário de Ochoa e de outros três oficiais de alta patente, acusados de envolvimento em tráfico internacional de drogas – especificamente com o cartel colombiano de Medellín, comandado por Pablo Escobar.

O envolvimento realmente existia, mas as suspeitas maiores recaíam sobre a própria cúpula do poder cubano: os irmãos Castro. Para se livrar das suspeitas de envolvimento com Pablo Escobar e, ao mesmo tempo, do rival político Ochoa (que defendia a abertura de Cuba, tal como Gobarchev estava fazendo à época na URSS), Fidel Castro mandou-o ao paredón. Como dizem os pesquisadores Corinne Cumerlato e Denis Rousseau:

[…] Castro se livrava de uma dupla suspeita: a de ter se livrado de um oficial prestigiado, que lhe fazia sobra, e a de ter ao mesmo tempo feito desaparecer perigosas testemunhas que podiam implicá-lo num caso de tráfico de drogas internacional. Em 13 de junho de 1989, às quatro horas da manhã, um pelotão de execução fuzilava quatro oficiais superiores, detidos apenas um dia antes e acusados de terem montado uma rede internacional de tráfico de cocaína. Os quatro foram condenados ao final daquele que foi, segundo muitos analistas, o último processo stalinista do mundo comunista ocidental, em plena perestroika soviética e poucos meses antes da queda do muro de Berlim. [2]

Outros três comandantes sofreram expurgos na ditadura castrista: Víctor Mora, Humberto Sori Marin e Efigenio Ameijeiras, como bem pontuam os pesquisadores Cumerlato e Rousseau:

[…] Víctor Mora, igualmente em desacordo com a orientação comunista (assim como Huber Matos e Camilo Cienfuegos), demitiu-se do governo. Detido em 1969 sob a acusação de conspiração contra o Estado, conseguiu escapar graças a um disfarce e a cumplicidade ao cabo de nove anos de prisão. Trabalhando como vigia num hospital de Miami, ele morreu no exílio em 1993. Humberto Sori Marín ocupou por algum tempo o posto de ministro da Agricultura. Acusado de traição em 18 de abril de 1961, em plena batalha na baía dos Porcos, foi fuzilado. Enfim, Efigenio Ameijeiras, que teve três irmãos mortos nas lutas contra a ditadura de Batista, foi o primeiro chefe da Polícia Nacional Revolucionário em Havana. Acusado de “sectarismo”, foi demitido no início dos anos 60, antes de reconverter-se como inspetor de canteiros de obras. [3]

  • O “Caso Heberto Padilla”

Outro ponto a ser ressaltado é o chamado “Caso Heberto Padilla”. Padilla foi um escritor cubano de grande prestígio, que, com o livro Fuera de Juego, rematou o Grande Prêmio da União Nacional dos Escritores e Artistas de Cuba, em 1968. O livro criticava o regime de Fidel, as perseguições à população e o controle rígido sobre as liberdades individuais e a economia. Padilla foi condenado e preso em 1971. Mediante apelo de artistas internacionais, como Jean-Paul Sartre, Fidel Castro decidiu absolver Padilla, com a condição de que este fizesse uma retratação pública ante um tribunal. Humilhado, Padilla assim o fez e seguiu, depois, para o exílio, primeiro nos EUA e, depois, na Espanha.

  • Tentativas de assassinato contra Fidel Castro

Segundo fontes oficiais do Governo cubano, até o ano de 2006, Fidel Castro havia sofrido 638 tentativas de assassinato. A CIA confirmou, em 2007, que oito operações foram efetuadas nesse sentido. Os métodos utilizados consistiram, entre outras coisas, em: 1) envenenamento de um charuto; 2) disparo de fuzil de longo alcance; 3) uso de caneta com dardo envenenado etc.

  • Crise dos mísseis (1962) e Renúncia de Fidel (2008)

Outros pontos importantes, que podem ser passíveis de abordagem em vestibulares e no Enem, são: a Crise dos Mísseis, ocorrida em 1962, e a Renúncia de Fidel Castro, em 2008. O primeiro fato consistiu na crise mundial desencadeada pela descoberta, em outubro de 1962, de uma base de lançamento de mísseis nucleares em Cuba, construída pela URSS. A base foi construída logo após a adesão de Castro ao comunismo e a tentativa contrarrevolucionária de cubanos exilados, treinados pela CIA, de retirarem Castro do poder. A Crise dos Mísseis foi o momento de maior tensão da Guerra Fria, pois o mundo nunca havia chegado tão perto de uma guerra nuclear.

Em 19 de fevereiro de 2008, Fidel Castro renunciou ao posto de presidente de Cuba, deixando-o ao seu irmão, Raul Castro. A notícia foi divulgada pelo jornal oficial Gramna, que publicou uma carta de Castro falando dos motivos da renúncia, que diziam respeito à sua saúde. A renúncia de Fidel foi encarada por alguns como uma possibilidade de Cuba abandonar de vez o regime fechado e autoritário; por outros, foi vista como uma possibilidade de renovação das bases desse regime, com a nova orientação dada por Raul Castro.

* Créditos da imagem: Shutterstock e emkaplin

 

NOTAS.

[1] CABRERA INFANTE, Guillermo. Mea Cuba. (trad. Josely Vianna Baptista).São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 270.

[2] CUMERLATO, Corinne; ROUSSEAU, Denis. A ilha do doutor Castro: a transição confiscada. (trad. Paulo Neves). São Paulo: Editora Peixoto Neto, 2001. p. 75.

[3] CUMERLATO, Corinne; ROUSSEAU, Denis. Ibid. p. 79.


Por Me. Cláudio Fernandes

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

FERNANDES, Cláudio. "Morte de Fidel Castro"; Brasil Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/historiag/morte-fidel-castro.htm>. Acesso em 20 de setembro de 2017.

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