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Massacre de Babi Yar: o extermínio dos judeus de Kiev

História Geral

Após conquistarem a cidade de Kiev em 1941, os nazistas iniciaram o projeto de extermínio dos judeus que ficou conhecido como Massacre de Babi Yar.
Monumento em homenagem às vítimas do Massacre de Babi Yar em Kiev, na Ucrânia
Monumento em homenagem às vítimas do Massacre de Babi Yar em Kiev, na Ucrânia
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O Massacre de Babi Yar é considerado o maior extermínio cometido ao longo da Segunda Guerra Mundial. Durante esse massacre, realizado em 29 e 30 de setembro de 1941, os nazistas realizaram o fuzilamento de mais de 33 mil judeus em pouco mais de 36 horas. Esse episódio ocorreu em Kiev durante as primeiras semanas de ocupação nazista na cidade ucraniana. O Massacre de Babi Yar é um dos símbolos da extensão e da crueldade dos crimes cometidos pelos nazistas.

Contexto

O massacre de Babi Yar aconteceu durante a invasão nazista à União Soviética, iniciada em junho de 1941 com a Operação Barbarossa. Nessa operação, 3,6 milhões de soldados alemães cruzaram a fronteira soviética e iniciaram a fase mais sangrenta da Segunda Guerra Mundial.

A Operação Barbarossa colocava em prática os principais objetivos da ideologia de Adolf Hitler, pois, a partir dela, ele esperava dominar a União Soviética em poucas semanas e, em seguida, erradicar o bolchevismo soviético. Como segundo objetivo, estava a criação de seu Reich por meio da ideia do lebensraum, o “espaço vital” alemão, que consistia na formação de um império no qual os alemães escravizariam os eslavos.

Essa operação foi organizada em três frentes e cada grupamento possuía um objetivo primordial:

  • Leningrado (norte);

  • Moscou (centro);

  • Kiev (sul).

A partir dessas conquistas, Hitler esperava derrubar o governo de Stalin e, com a derrota da União Soviética, concretizar sua vitória na guerra. A Operação Barbarossa, no entanto, não saiu como o líder nazista esperava. A esperada rápida vitória sobre os soviéticos não aconteceu, e os alemães tiveram de preparar-se para o longo conflito que os esperava na União Soviética.

Einsatzgruppen

O Massacre de Babi Yar foi realizado pelos Einsatzgruppen, os grupos de extermínio dos nazistas. A criação desses grupos tinha acontecido em 1938, durante a anexação da Áustria. A partir de 1939, o grupamento foi colocado sob o controle de Reinhard Heydrich, que expandiu consideravelmente a atuação dos grupos de extermínio.

O massacre em Kiev estava inserido no programa Solução Final proposto por Reinhard Heydrich e Heinrich Himmler, que buscava o extermínio total dos judeus da Europa. Adolf Hitler havia adiado para o final da guerra esse projeto de genocídio, porém, Heydrich e Himmler convenceram-no a colocar em prática o plano durante a guerra.

Assim, com a autorização de Hitler, Himmler e Heydrich passaram a ordem a todo o Leste Europeu de que todos os judeus (homens, mulheres e crianças) fossem mortos. A princípio, o programa Solução Final seria colocado em prática a partir dos fuzilamentos realizados pelo Einsatzgruppen. Os grupos de extermínio contaram com o auxílio de membros da Schutzstaffel (SS), da Wehrmacht e de muitos colaboradores dos locais que conquistavam (como aconteceu em Babi Yar na Ucrânia).

Houve a atuação do Einsatzgruppen em todo o Leste Europeu ocupado pelos nazistas. No caso do massacre de Babi Yar na Ucrânia, o grupo responsável foi o Einsatzgruppen C.

Massacre de Babi Yar

Antes da invasão nazista, Kiev era conhecida por sua grande população de origem judaica. Estima-se que cerca de 20% da cidade era judia, o que corresponde, aproximadamente, a 200 mil habitantes. Pouco antes de os nazistas conquistarem a cidade ucraniana, cerca de 70% dessa população de origem judia conseguiu fugir. Os judeus que permaneceram na cidade foram os que não possuíam condição financeira ou de saúde para a fuga.

A cidade de Kiev foi oficialmente conquistada em 19 de setembro de 1941 pelo Grupo de Exércitos do Sul. Poucos dias depois, no dia 24, algumas bombas instaladas em prédios ocupados pelos nazistas explodiram, causando a morte de dezenas de alemães. As bombas, que haviam sido instaladas pela polícia secreta soviética (NKVD), foram utilizadas como pretexto pelos nazistas para exterminar os judeus da cidade ucraniana.

No dia 26, os nazistas decidiram em reunião realizar um grande massacre de judeus como represália pelas bombas. Assim, no dia seguinte, os alemães espalharam o seguinte aviso por Kiev:

“Ordena-se a todos os judeus residentes de Kiev e suas vizinhanças que compareçam à esquina das ruas Melnyk e Dokterivsky, às 8 horas de segunda-feira, 29 de setembro de 1941, portando documentos, dinheiro, roupas de baixo, etc. Aqueles que não comparecerem serão fuzilados. Aqueles que entrarem nas casas evacuadas por judeus e roubarem pertences destas casas serão fuzilados”.|1|

Os nazistas esperavam que comparecessem cerca de sete mil pessoas, mas o número de judeus foi muito maior: mais de 33 mil pessoas compareceram no lugar definido. Os judeus acreditavam que seria realizado um “reassentamento”, expressão utilizada pelos nazistas para definir a transferência de judeus para guetos ou campos de concentração e extermínio.

O que aconteceu a seguir foi um fuzilamento em proporções gigantescas. Com ajuda da SS, da Wehrmacht e de colaboradores ucranianos, os nazistas fuzilaram sistemicamente quase todos os judeus que compareceram. Houve pouquíssimos sobreviventes. A seguir, o relato de um cidadão russo sobre esse incidente, de acordo com o historiador Antony Beevor: “As pessoas eram separadas, homens de um lado, mulheres e crianças do outro. Estavam nus (haviam deixado seus pertences em outro lugar), e foram ceifados por submetralhadoras; o som dos disparos abafava os seus gritos e lamentos”|2|.

Já o historiador Timothy Snyder traz o relato de uma sobrevivente judia chamada Dina Pronicheva:

Tendo entregado seus objetos de valor e documentos, as pessoas eram forçadas a se despir completamente. Em seguida, eram conduzidas sob ameaças e disparos para o alto em grupos de cerca de dez pessoas até a beira de um barranco conhecido como Babi Yar. Muitas eram espancadas […]. Elas [as pessoas] tinham que deitar de bruços sobre os cadáveres já empilhados sob elas e aguardar os tiros que viriam de cima e por trás. Depois era a vez de um novo grupo|3|.

Ao fim de 36 horas, os alemães executaram ao todo 33.761 pessoas. Tempos depois, à medida que não conseguiam mais conter os avanços dos exércitos soviéticos, os nazistas exumaram os corpos para tentar esconder todas as evidências do genocídio cometido em Kiev. Após a guerra, o Massacre de Babi Yar não foi reconhecido pelo governo soviético e foi considerado apenas um “crime contra o povo soviético”. O reconhecimento só aconteceu depois da declaração de independência da Ucrânia, em 1991. Hoje, no local, existe um memorial em homenagem às vítimas de Babi Yar.

|1| O massacre de Babi Yar. Disponível aqui.
|2| BEEVOR, Antony. A Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Record, 2015, p. 246.
|3| SNYDER, Timothy. Terras entre sangue: a Europa entre Hitler e Stalin. Rio de Janeiro: Record, 2012, p. 252-253.


Por Daniel Neves
Graduado em História

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SILVA, Daniel Neves. "Massacre de Babi Yar: o extermínio dos judeus de Kiev"; Brasil Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/historiag/massacre-babi-yar-exterminio-dos-judeus-kiev.htm>. Acesso em 20 de setembro de 2017.

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