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Os Estoicos

Filosofia

Imperador Marco Aurélio - Um dos responsáveis pelo desenvolvimento do novo estoicismo
Imperador Marco Aurélio - Um dos responsáveis pelo desenvolvimento do novo estoicismo
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O estoicismo tira seu nome do Pórtico (Stoa), local de Atenas em que se reuniam seus adeptos. Diferentemente do epicurismo, o estoicismo não está ligado a uma autoridade incontestável de um fundador. A doutrina estoica se constitui progressivamente pelas contribuições sucessivas dos três primeiros chefes da escola: Zenão de Cício (322 a.C. – 262 a.C.), que depois de ter sido discípulo de Crates, fundou a escola cerca de 300 a.C.; Cleanto de Assos (312-232) e Crisipo (227-204 a.C.). O estoicismo médio é representado essencialmente por Panécio (180-110) e Possidônio (135-51), que tiveram o grande mérito histórico de introduzir o estoicismo em Roma. O novo estoicismo se desenvolveu em Roma sob o império e está ligado a três grandes nomes: Sêneca (0-65 d.C.), Epitecto, um escravo, (50-125 d.C.) e o imperador Marco Aurélio (121-180).

A filosofia estoica é a primeira da história a considerar-se “sistemática”. A palavra sistema designava em grego a constituição de um organismo ou de uma cidade e foram os estoicos que a aplicaram pela primeira vez à filosofia, querendo significar que a sabedoria é um todo. Sua divisão em partes somente era possível fazer didaticamente, segundo as necessidades do ensino, mas com a condição de compreender que cada parte é solidária às outras e que o abandono de uma só delas provoca a ruína do conjunto.

Para o estoico, é preciso estar em consonância com a natureza para atingir a sabedoria. Assim, faz-se necessário entender que o único bem que existe é a retidão da vontade e o único mal, o vício. O que não é nem virtude nem vício é indiferente. Assim, a doença, a morte, a pobreza, a escravidão, por exemplo, não são males, são indiferentes porque o sábio é, por definição, feliz, mesmo no sofrimento. O mau é sempre infeliz, uma vez que aflige a si próprio, pelo seu vício. A experiência estoica consiste na tomada de consciência da situação trágica do homem condicionado pelo destino. Assim, não estamos absolutamente entregues e sem defesa aos acidentes da vida, aos revezes da fortuna, nem à doença e à morte, mas temos, e nada nos pode tirar isso, a vontade de fazer o bem, a vontade de agir de acordo com a razão.

Segundo o estoicismo, há uma oposição radical entre o que depende de nós e pode ser bom ou mau, porque objeto de nossa decisão, e o que não depende de nós, mas de causas exteriores, do destino, e é indiferente. Isto significa que:

  • É na conformação ao destino que está nossa liberdade e onde se pode exercer a escolha moral;
  • Na vontade de fazer o bem é que se encontra a nossa liberdade, a independência, a invulnerabilidade, o valor eminentemente estoico, a coerência consigo mesmo;
  • Não há diferença entre viver segundo a razão e segundo o destino, pois a mesma coisa não pode ser universal e constantemente agradar senão o que é moralmente direito.

A frase de Epiteto “não deseja que o que acontece aconteça como queres, mas queiras que o que acontece aconteça como acontece e serás feliz”. Isto significa que:

  • Não quer dizer que há um inconformismo indiferente, uma vez que tudo é determinado pelo destino;
  • Quer dizer que há uma indiferença que consiste em não fazer diferença, mas em querer, em amar mesmo, de modo igual, tudo o que é determinado pelo destino;
  • Não quer dizer que o estoico é indiferente porque não se pode saber se uma coisa é boa ou má;
  • Não quer dizer que há aí uma moral da indiferença.

Por isso, instituíram a teoria dos deveres, entendendo que:

  • É preciso agir segundo uma ação apropriada que em parte depende de nós, pois supõe uma intenção moral e em parte não depende;
  • O que importa no agir é a intenção moral e não o resultado;
  • A vida política e as demais atividades são apropriadas à natureza humana e têm um valor;
  • O filósofo deve orientar-se na incerteza da vida cotidiana ao propor-lhes escolhas razoáveis.

Quanto à física, os estoicos propõem:

  • Uma física da continuidade;
  • Há um princípio ativo que atua no universo (o pneuma = o sopro vital) que penetra o universo inteiro, tanto nas suas regiões sublunares como as celestes;
  • O pneuma age à maneira de um campo de forças que mantém juntas as partes do universo e que impede a sua dissipação no vazio infinito, assegurando de igual modo a individualidade de cada ser à sua maneira de uma alma;
  • Este pneuma, princípio de organização, quando encarado na sua realidade física, é o próprio Lógos universal;
  • O mundo não é governado por Deus, mas é ele próprio deus e o destino, que liga entre si os acontecimentos do universo, outro nome para Providência;
  • Nada acontece na natureza que seja contra a razão: a monstruosidade, a doença, o sofrimento, a morte, só aparentemente são males. O filósofo, capaz de unir o particular ao todo, reconhece que eles se inscrevem na ordem universal;
  • A física culmina com a teologia do deus cósmico;
  • A física tem um fundo ideológico: foi concebida em nome das necessidades de uma causa político-moral;
  • Não há nenhum outro mundo para além daquele em que vivemos. Só existe a realidade que se dá aos nossos olhos.

Assim, a física estoica concebe a ação física a partir da ação de um corpo que penetra em outro em sua plenitude, constituindo uma espécie de materialismo espiritual. O pneuma atravessa a matéria para animá-la e converte-se, no momento mesmo em que a atravessa, em puro espírito.

Por João Francisco P. Cabral
Colaborador Brasil Escola
Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU
Mestrando em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP

Filosofia - Brasil Escola

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

CABRAL, João Francisco Pereira. "Os Estoicos"; Brasil Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/filosofia/os-estoicos.htm>. Acesso em 20 de agosto de 2017.

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