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Cinco simpatias de festas juninas

Festa Junina

Apresentamos para você cinco simpatias de festas juninas associadas às figuras de São João e Santo Antônio.
A maior parte das simpatias de festas juninas diz respeito a relações amorosas
A maior parte das simpatias de festas juninas diz respeito a relações amorosas
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É sabido que as festas juninas são realizadas no Brasil desde a época colonial e têm como principal fator de motivação a celebração dos dias de quatro santos principais da Igreja Católica: Santo Antônio de Pádua, São João Batista, São Pedro e São Paulo. A devoção e os festejos dedicados a esses santos produziram ao longo do tempo uma série de simpatias, isto é, rituais supersticiosos, típicos do catolicismo popular.

Abaixo elencamos cinco dessas simpatias, três relacionadas a São João e duas ligadas a Santo Antônio.

1) Andar nas brasas da fogueira

São João Batista é o santo de maior prestígio nas festas juninas. Grande parte dos símbolos que estão atrelados a elas, como a fogueira, deriva da devoção a esse santo. A festa de São João é realizada na noite do dia 23 de junho (véspera de seu dia, 24) e, em se tratando da fogueira, há uma simpatia bastante comum e antiga no Brasil, que consiste em passear sobre as brasas da fogueira com os pés descalços. Tal prática é executada tanto por sacerdotes católicos quanto por leigos. Esses últimos fazem-no principalmente em razão de alguma promessa a ser paga ou algo do gênero.

É interessante, contudo, saber que essa simpatia remonta a um culto antigo à deusa romana Ferônia, como diz Câmara Cascudo:

Na Itália, no santuário da deusa Ferônia ao pé do Monte Soracte, todos os anos os homens de certas famílias andavam com os pés nus e sem se queimar sobre as brasas ardentes e as cinzas de uma grande fogueira feita com pinheiros, em presença de incontável multidão vinda de todos os pontos da região para fazer suas devoções à deusa. As famílias a que esses homens pertenciam tinham o nome de Hirpi Sorani, os Lobos de Soranus.” (In: CASCUDO, Luís da Câmara. Superstições no Brasil. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed, USP, 1985. p. 70).

O rito dedicado à deusa acabou sendo assimilado pelo cristianismo e sobreviveu, transformado, na forma de simpatia.

2) Simpatia do anel

Ainda seguindo o folclorista Câmara Cascudo, há outra simpatia para a noite de véspera de São João, agora relacionada com o tema da adivinhação da pessoa com que vai se casar. Diz Cascudo que: “Em noite de São João passa-se sobre a fogueira um copo contendo água, mete-se no copo sem que atinja a água um anel de aliança preso por um fio, e fica-se a segurar o fio; tantas são as pancadas dados no anel nas paredes do copo quantos os anos que o experimentador terá de esperar pelo casamento.” (CASCUDO, Luís da Câmara. Op. Cit. p. 148).

Essa simpatia também deriva de antigos rituais de oráculos de civilizações antigas, que se valiam da crença de a ação do fogo passar para certos objetos algum poder de desvendar o futuro. Esse tipo de crença também sobreviveu ao tempo, recebendo outro significado associado à devoção de São João.

A fogueira é elemento indispensável para realizar as simpatias de São João
A fogueira é elemento indispensável para realizar as simpatias de São João

3) Simpatia do ovo

Ainda associada à fogueira, temos mais uma simpatia para adivinhar que tipo de marido se terá. Também coletada por Câmara Cascudo, essa simpatia diz que: “As moças passavam em cruz sobre as brasas copos cheios d'água, dentro dos quais quebravam ovos, e iam expô-los ao sereno: de manhã os examinariam: e conforme as posições tomadas pela clara e a gema, formando mais ou menos aproximadamente uma igreja, um navio, uma joia, significariam: casamento, viagem, riqueza, e assim por diante”. (CASCUDO, Luís da Câmara. Op. Cit. pp. 149-150).

Da mesma forma que a simpatia anterior, essa simpatia do ovo tem como centro o poder encantatório do fogo e também remete a ritos antigos de civilizações clássicas da Europa.

4) Castigar o santo para arrumar o noivo

Agora, quando o assunto é simpatia para arrumar marido ou para amarrar marido, o santo preferido nas tradições populares é Santo Antônio. Santo Antônio de Pádua foi um santo medieval nascido em Lisboa, mas que passou boa parte de sua vida em Pádua, na Itália. Por ser um santo cuja devoção está bastante ligada às relações familiares, com o tempo, ele acabou tornando-se popularmente o “santo casamenteiro”.

A pesquisadora Lúcia Helena Rangel, em seu livro Festas Juninas, apresenta algumas simpatias típicas do interior do Brasil que têm Santo Antônio como protagonista. Uma dessas simpatias é feita da seguinte forma: “Moças solteiras, desejosas de se casar, em várias regiões do Brasil, colocam-no de cabeça para baixo atrás da porta ou dentro do poço ou enterram-no até o pescoço. Fazem o pedido e, enquanto não são atendidas, lá fica a imagem de cabeça para baixo.” (In: RANGEL, Lúcia Helena Vitalli. Festas juninas, festas de São João: origens, tradições e história. São Paulo: Publishing Solutions, 2008. p. 29-30).

Esse rito de “castigar os santos” é uma ressignificação dos castigos a ídolos praticados por várias civilizações europeias, que espancavam ou chicoteavam estátuas de seus deuses a fim de receberem algum benefício em troca. No caso do “castigo” de Santo Antônio, havia ainda o acompanhamento de cantigas como a que segue abaixo:

Meu Santo Antônio querido,

meu santo de carne e osso,

se tu não me dás marido,

não tiro você do poço.

O milho colhido tarde

não dá palha nem espiga.

Minha avó tem lá em casa

um Santo Antônio velhinho.

Em os moços não me querendo

dou pancadas no santinho

5) Oração para “segurar” o noivo e “amarrar” o marido

Por fim, temos uma oração popular que é feita pela moça que está noiva, mas quer apressar o casamento ou ainda da esposa recém-casada que não quer perder o cônjuge. Tal oração traz elementos simbólicos que são transformados em recursos para “cativar”, “apresar” o homem em questão, como pode ser visto abaixo:

Padre Santo Antônio dos cativos, vós que sois um amarrador certo, amarrai, por vosso amor, quem de mim quer fugir, empenhai o vosso hábito e o vosso santo cordão com algemas fortes e duros grilhões que façam impedir os passos de (nome do amado), que de mim quer fugir, e fazei, ó meu bem aventurado Santo Antônio, que ele case comigo sem demora! Pelos vossos milagres; pela palavra quando a Jesus faláveis; pela defesa do vosso pai, um pedido eis-me a fazer.” (RANGEL, Lúcia Helena Vitalli. Op. Cit. p. 31).

Como visto, esses dois santos têm bastantes tarefas para atender na época das festas juninas.


Por Me. Cláudio Fernandes

Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja:

FERNANDES, Cláudio. "Cinco simpatias de festas juninas"; Brasil Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/detalhes-festa-junina/cinco-simpatias-festas-juninas.htm>. Acesso em 22 de agosto de 2017.

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